Ao Cair da Noite

Fórum para discussão e criação do RPG Ao Cair da Noite, de Tiago José Deicide Galvão Moreira, autor de Anjo: A Salvação e Demônio: O Preço do Poder.
 
InícioInício  CalendárioCalendário  FAQFAQ  BuscarBuscar  MembrosMembros  GruposGrupos  Registrar-seRegistrar-se  Conectar-seConectar-se  

Compartilhe | 
 

 Salem Ao Cair da Noite

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo 
AutorMensagem
O Pi

avatar

Mensagens : 88
Data de inscrição : 01/06/2015
Idade : 30

MensagemAssunto: Salem Ao Cair da Noite   Dom Jun 05, 2016 9:11 pm

Essa história de investigação com uma pontinha de sobrenatural e bruxaria é parte de uma campanha que estou jogando.

Os corpos debaixo do salgueiro

The Last Drop. Salem, Massachusetts. 20 de Dezembro de 2015.
Era o bar preferido de Max desde que chegara à cidade, pois não era dos mais frequentados e tinha sempre a mesma clientela. Quando entrou pela primeira vez naquele bar, pode notar que todos tinham o encarado por um tempo como se avaliassem o forasteiro. Era comum aquela reação em cidades pequenas e ambientes mais reservados e tradicionais. Com o tempo que passou na cidade, começou a frequentar o bar, deixando de ser o forasteiro. Era apenas o cara que pedia dois baldes de asinhas de frango, afinal o tempero da casa era excepcional.
Max era um sujeito alto, forte, de porte atlético, então era normal que comesse bastante. Trabalhava como investigador particular e estava na cidade devido a um caso para o qual fora contratado. Porém, esse caso fora um fiasco, só lhe trouxera problemas, então já estava partindo de volta a Boston. Naquela noite, estava passando a reprise do jogo dos Jacksonville Jaguars com os Tennessee Titans, no qual os Jaguars levaram a melhor. Max torcia para os Patriots, mas gostava de futebol, então estava relaxado assistindo ao jogo. Jogara bastante na época do colégio e, se o mundo fosse um lugar diferente, poderia até ter jogado profissionalmente. Mas não era.
Então, uma senhora começou a reclamar com o dono do bar, pedindo para ver o noticiário, pois estava passando algo importante. O homem contrariado mudou o canal para o da emissora local, onde a repórter Heather O’Donnel entrevistava um perito criminal sobre um crime acontecido há algumas quadras dali. O som estava baixo, não dava para entender bem o que estava acontecendo, mas o cenário parecia ser um parque. Max concentrou sua atenção para ler as legendas e captar o som, tentando discernir as informações.
-- ...não sabemos quem realizou essa barbaridade contra os jovens, mas temos a confirmação que uma quarta adolescente supostamente veio ao parque com esses garotos e está desaparecida. – Dizia o perito, então a repórter voltou o microfone para si.
-- O nome da garota desaparecida é Annie Marie Bloom, estudante do ensino médio da Escola Estadual de Salem. Quem tiver informações, informar a polícia ou a sua irmã, Angela Bloom, responsável legal dela.
Uma foto de uma bonita garota ruiva surgiu, enquanto as legendas no lado inferior da tela diziam: “Disque 911 para informações à polícia | Angela Bloom: +1 651 704 229 | Três jovens mortos em Salem Willows, suposta prática de bruxaria”.
Logo a notícia era deixada de lado, iniciando o intervalo comercial, e o dono do bar retorna para o canal onde passava o jogo. Max observa a mulher que pedira para mudar o canal, tentando captar suas reações. A senhora que pedira para ver a matéria agora mexia no celular. Devia ter mais de 50 anos, estava acima do peso e vestia um casaco de inverno aberto sobre uma camiseta do “Clube do Livro, Biblioteca Pública de Salem”. Ao seu lado estava um senhor careca, com um gorro, bigode e barriguinha de chop, que provavelmente era seu companheiro.
Max observava, presumindo que talvez ela conhecesse um ou mais dos jovens envolvidos no caso. Salem Willows era há poucas quadras dali e o termo “suposta prática de bruxaria” chamara sua atenção. Pensou na garota desaparecida e na irmã dela, que era sua responsável. Sem pais. Não era bom ficar sozinho. Não era bom perder toda a família, e certamente era pior ainda ficar desaparecida naquelas circunstâncias.
Xingou mentalmente e se levantou, pagando sua conta, vestindo casaco e luvas, e levando o restante das asinhas de frango consigo. Eram em torno de 22h e nevava um pouco. Os postes iluminavam o caminho, mas Max se desviou um pouco até um beco, onde encontrou um senhor negro que se cobria com um cobertor velho. Entregou o balde com asinhas para ele e ouviu um agradecimento.
-- Deus te abençoe...
-- Ao senhor, primeiro. – Max respondeu, dando um tapinha amigável no ombro do homem antes e retomar seu caminho até Salem Willows.
O parque era famoso por seus salgueiros, cuja folhagem caíram com a chegada do inverno, restando apenas a paisagem dos galhos altos e secos. Luzes vermelho e azul indicavam a presença de mais de um carro da polícia no local, além de uma van da imprensa. Max se mantém afastado e discreto, evitando a polícia e principalmente a imprensa. Não precisava ser visto perto de outra cena de crime. Ele caminha observando o parque à procura de um local onde pudesse adentrá-lo contando com a escuridão da noite para encobri-lo.
Ao encontrar um poste com a luz falha, próximo a dois salgueiros, Max se aproxima e adentra o parque, que não era murado e nem se fechava a noite, contando apenas com uma pequena equipe de guardas. Salem era uma cidade pacífica, então normalmente não tinham com o que se preocupar.
Enquanto avançava pela escuridão, Max puxa o capuz do casaco para cobrir a cabeça. Os guardas tinham lanternas, cujos fachos de luz se destacavam com facilidade, permitindo que Max os evitasse. O parque era enorme, com uma grande área, salgueiros antigos da época da colonização, e quatro coretos diferentes próximos ao lago. Era um parque histórico preservado, e uma atração turística. Sua história, agora, manchada com aquele evento brutal e covarde.
Cuidadosamente, Max se aproximou o suficiente para ver a equipe médica junto aos corpos, colocando-os em sacos pretos. De longe, conseguia ouvir o choro de familiares que não puderam se aproximar da cena do crime. Max se posicionou próximo a um salgueiro, fechou os olhos e, quando os abriu novamente, seu mundo se iluminou com uma luz dourada, permitindo que ele enxergasse como se fosse dia.
Mesmo à distância, conseguiu ver o estado dos corpos: olhos arrancados, gargantas estraçalhadas, símbolos escavados na carne... Aquilo era estranho, não parecia um crime comum. Max sente o estômago embrulhar e imagina o sofrimento dos familiares. Conhecia algo parecido. Era horrível para um filho perder os pais, então devia ser ainda pior para os pais perderem um filho. Afinal, mais cedo ou mais tarde, os filhos devem enterrar seus pais, não o contrário.
Evitando as lanternas dos guardas, Max sai do parque sentindo o mal estar daquelas mortes. Então pega o celular e liga na discagem rápida, ouvindo pouco depois a familiar voz atender.
-- Alô, Max?
-- Az? Terei de prolongar minha estadia em Salem.
-- Depois do seu último caso, não acho que seja uma boa ideia, Max. O que houve?
-- Um triplo homicídio. A imprensa local está noticiando no momento, mas deve ter uma repercussão maior em breve. Você vai ver nos noticiários. As condições são estranhas. Acho que pode ser um dos nossos. E há uma garota desaparecida.
-- Misericórdia... – Um suspiro foi ouvido do outro lado da linha. – Tenha cuidado, não se arrisque demais. Tenha certeza se é um dos nossos. Se não for, deixe a polícia fazer o trabalho dela.
-- Os olhos foram arrancados, Az. Tinha símbolos entalhados nos corpos. Rezo para que não seja um dos nossos, mas não é o que diz meu instinto. – Max disse e seu interlocutor ficou em silêncio por um momento, certamente concordando mentalmente.
-- Me informe se precisar de algo.
-- Pode mandar cartas para as famílias das vítimas? Acho que eles precisam de algumas palavras de conforto, e eu não sou muito bom nisso.
-- Claro, você tem os nomes?
-- Não peguei, mas logo você deve encontrar na mídia.
-- Certo, vou procurar.
-- Obrigado. Se conseguir algo, te retorno.
-- Estarei no aguardo. Que o Senhor te proteja em seu caminho.
-- A todos nós.
Azarias, ou Az, era mais de vinte anos mais velho que Max, e era um padre, mas era seu amigo. Seu melhor amigo. O mais antigo e praticamente único amigo com quem mantinha contato frequente. Era também um conselheiro, professor, cliente e chefe.
Max desliga e pesquisa por Angela Bloom no celular, encontrando um perfil do facebook, cuja imagem era um cartaz de “procura-se” com a foto de Annie Marie. No campo de emprego, dizia que ela trabalhava em um bar no centro da cidade, chamado Molly Bloom’s, com endereço e telefone de lá. Então pegou um táxi e o motorista com sotaque latino o levou até o local, enquanto reclamava que as ruas estavam difíceis com toda aquela neve.
Um letreiro de neon brilhava indicando “ABERTO” e era possível ver movimentação lá dentro, através dos vidros espelhados. O Molly Bloom’s era um bar irlandês, com clientes nas mesas bebendo e conversando, uma banda tocando em um pequeno palco no fundo, e um balcão onde havia um homem enorme, de cabelos loiros curtos, barba e camiseta preta deixando à mostra tatuagens diversas, servindo bebidas e conversando com vários clientes ao mesmo tempo.
Max caminha até o balcão, vasculhando o local com os olhos, tentando encontrar alguma mulher com expressão preocupada, talvez olhos vermelhos de choro, possivelmente ruiva como a irmã. Mas não conseguia nada. Talvez ela não estivesse ali, a situação certamente justificaria uma noite de folga.
-- Uma lager, por favor.
O balconista vai até Max e lhe entrega a cerveja, voltando para onde estava e retomando a conversa com uma cliente loira muito bonita, que mexia no cabelo enquanto conversava com ele. Max dá um gole em sua cerveja, enquanto presta atenção no ambiente. Havia muitos sons ali, conversas, risadas, som de vidros se chocando, som de talheres, música... Mas além de uma ótima visão, Max também tinha uma ótima audição, e conseguiu perceber em meio a tudo aquilo um som de sofrimento: um fungar.
No canto do balcão havia uma portinha de vai e vem que levava à cozinha. Tinha alguém chorando ali. Discretamente, Max apanhou um guardanapo, desdobrou-o e começou a redobrá-lo na forma de um avião de papel. Em seguida, jogou-o pela abertura da cozinha. Não voou muito bem, mas alcançou a passagem.
Então deu mais um gole na cerveja e apanhou outro guardanapo, fazendo outro avião e jogando-o, fazendo com que voasse um pouco melhor que o primeiro. No terceiro avião de papel, Max colocou um de seus cartões de visita. Deu mais um gole em sua cerveja, enquanto prestava atenção na porta para a cozinha.
Pouco depois, percebe uma mão feminina apanhar um dos aviões no chão, o que continha seu cartão, e depois voltando a desaparecer atrás da parede próxima à passagem. Max aguarda, bebendo sua cerveja. Então, como imaginara, vê sair da cozinha uma jovem mulher ruiva, com olhos azuis inchados e avermelhados de choro, vestindo uma camisa xadrez aberta sobre uma blusa azul e calças jeans. Ela olha de um lado para o outro, como se procurasse algo, então Max ergue um de seus cartões para que ela o reconhecesse.
LOBO FANTASMA
INVESTIGAÇÕES PARTICULARES
A mulher caminha até ele, limpando o rosto no caminho. Apesar do estado lacrimoso e abatido, era bastante óbvio que se tratava de uma mulher muito bonita. Possuía uma pequena pinta próxima à boca. Um sujeito tenta falar com ela, perguntando sobre notícias, mas ela evita a conversa dizendo que ainda não havia nada. Então Angela Bloom chega do outro lado do balcão, parando de frente para Max, encarando-o em dúvida.
-- Devia tirar a noite de folga. – Max diz, terminando sua cerveja.
-- Vem muita gente aqui, se alguém vir algo, vão me procurar...
-- Ou vão procurar a polícia, que tentará entrar em contato com você, independente de onde esteja.
-- Veio aqui para dizer como devo agir com o desaparecimento da minha irmã? – Pergunta, irritada.
-- Não, desculpe. Vim com a intenção de ajudar.
-- Estou esperando pela polícia...
O enorme barman começa a olhar para Angela e Max, sem fazer nenhuma questão de disfarçar isso.
-- Se me permite dizer, não acho que esperar seja uma boa ideia. – Max diz.
-- Por quê? Você deve ser só mais um desses aproveitadores querendo ganhar dinheiro com a desgraça dos outros.
-- Não quero seu dinheiro. E esperar não é boa ideia, porque Annie pode estar em má companhia. – Ao ouvir aquilo, Angela comprime os lábios, segurando o choro antes de responder.
-- Eu sei... Eu não quero esperar, eu quero ela de volta...
O balconista vai até Angela, passando a mão na sua cintura e falando com uma voz firme.
-- Hey, baby, esse cara tá te incomodando?
-- Não, Tyler... Ele é um... detetive particular.
Tyler encara Max, com o lábio torcido pro lado como quem não dá muito crédito.
-- A polícia vai cuidar disso, não escuta esses pilantras.
-- Mas ele não q-
-- Angela, vai pra casa! – Tyler a interrompe de súbito. – Você só vai fazer merda se continuar aqui!
-- E-eu... – Ela balbucia, sem jeito, quando Max intervém.
-- Não acho que esse seja o tratamento mais adequado para alguém na situação dela, Tyler. – Max diz, lutando internamente para manter a calma enquanto a fúria crescia dentro dele, provocando o desejo de quebrar o nariz daquele sujeito batendo sua cara contra o balcão. A fúria não se importava com a diferença óbvia de tamanhos e massa muscular que havia entre eles.
-- Não te perguntei nada, babaca. – Tyler responde, ameaçador.
-- Eu to indo... – Angela diz, baixando a cabeça e voltando pra cozinha, enquanto Tyler fica de cenho fechado encarando Max.
-- Pode ir, baby, eu tomo conta do bar. Qualquer coisa eu te ligo. – Diz, sem desviar os olhos para olhá-la.
-- Acho que também já vou. – Max diz, colocando sobre o balcão o dinheiro da cerveja, que Tyler pega enquanto sorri de lado.
-- É, imaginei que fosse...
-- Nos vemos depois Tyler. – Max diz, acenando com a cabeça, ainda sério, e seguindo pra saída, enquanto ainda controlava a perigosa fúria que sentia.
-- Você não vai querer me ver depois. Te garanto isso. – Tyler responde, virando o corpo para outra direção, para ir atender outros clientes, que comentavam entre si o que estava acontecendo, enquanto alguns riam das provocações.
-- Nem sempre temos o que queremos. – Max diz, enquanto saía, contendo a fúria crescente, vestindo o casaco e as luvas. Do lado de fora, procurou pela saída que Angela provavelmente usaria e encontrou o estacionamento, seguindo até lá e vendo uma caminhonete sendo ligada.
Max apressa o passo e bloqueia a passagem do veículo, vendo Angela no volante, que se assusta e abaixa o vidro.
-- O que você tá fazendo aqui?
-- Tem uma garota desaparecida e quero encontrá-la antes que mais alguma coisa ruim aconteça. Você pode me ajudar, ou eu te deixo em paz pra esperar a polícia e tento fazer isso sem sua ajuda. É mais difícil encontrar uma pessoa desaparecida sem ter as informações providas pelos parentes, mas eu nem sempre trabalho em condições ideais. Não é motivo pra desistir. O que me diz?
Angela o encara por um instante, pensativa e receosa, então responde.
-- Entra no carro.
A caminhonete Ford Ranger azul de Angela deixou o estacionamento com Max no banco do carona. O interior cheirava a cigarro, o mesmo cheiro que Max detectou em Tyler quando este se aproximou, o chão estava cheio de lixo, e no banco de trás havia um estojo de violão. Angela pegou uma via local e foi dirigindo lentamente.
-- Onde você mora?
-- Aqui em Massachusetts mesmo. – Max responde de forma vaga. – Você toca? – Pergunta, apontando o violão.
-- Sim, de vez em quando faço uma participação na banda do Tyler... – O aparelho de som do carro estava ligado, tocando uma música do Metallica: “Exit light, enter night. Take my hand, we’re off to never neverland...”
-- E Annie? Também gosta de música? Vai nessas apresentações?
-- Ela gostava, sim. Eu não podia levar sempre, ela é menor de idade, mas em algumas apresentações eu a levava escondida e ela ficava nos bastidores comigo.
-- Então vocês se dão bem. São próximas?
-- Somos bem próximas agora. Perdemos nossa mãe quando eu estava na faculdade e... foi difícil pra mim, sabe? Eu... não soube lidar bem com isso, fiz escolhas erradas. A Annie foi viver um tempo com nossa tia na Irlanda, mas sempre pediu pra voltar.
-- Há quanto tempo foi isso?
-- Faz três anos que ela voltou. Minha vida estava melhor e podia arcar com as despesas dela. Estava tudo indo bem...
-- Me fale sobre a Annie. Como ela era? Seus hobbies, interesses... – Max perguntava, enquanto prestava atenção nas expressões e reações, tentando identificar emoções e detectar possíveis mentiras. Angela era uma mulher muito bonita. Até demais. Especialmente pra quem fez escolhas erradas na vida. Escolhas erradas sempre cobravam seu preço.
-- Ela era... gentil, educada, reservada... Ainda tinha a cabeça de uma menininha. – A voz falhava, enquanto sentia um nó na garganta e fungava. Angela parecia sincera em suas palavras, fazendo quase um desabafo sobre sua vida com a irmã. -- Ela brincava de boneca, ela era praticamente uma criança ainda. Gostava de ler e desenhar. É meio que de família desenhar e pintar, sabe? Minha mãe que ensinou...
-- Ela tinha algum problema na escola? Algum namorado? – Max continuava.
-- Os meninos ficavam em cima dela. Não ouvi isso dela, mas dava pra perceber quando ia busca-la no colégio. Ela... se sentia deslocada na escola, mas tinha algumas amigas.
-- Vou querer os nomes delas, pra procurá-las. Talvez elas possam dizer algo que ajude. Você conhecia os garotos do parque?
-- Apenas o Harold... Ele foi lá em casa uma vez, pra fazer um trabalho da escola com a Annie. As amigas dela são Kate e Sandy, estudam na mesma escola.
-- Annie costuma frequentar o parque?
-- Às vezes... Faz tempo que não a levo lá, mas talvez saia com as amigas depois da escola.
-- Pode dizer algo sobre o Harold?
-- Acho que ele tinha uma quedinha pela Annie, parecia deslumbrado quando a olhava. Mas só o vi uma vez.
-- Annie, Harold... Pareciam ter algum interesse em assuntos esotéricos? Ocultismo, magia, wicca, essas coisas? É comum em adolescentes. Se vestem de preto, usam drogas...
Ao ouvir aquilo, Angela tirou os olhos da rua por um momento, mas logo voltou a ela. Parecia incomodada com o assunto, mas pensando em como responder.
-- A Annie tinha... Ela gostava dessas coisas. Não drogas, mas esoterismo. Acho que foi o tempo que passou com a tia Casey... Mas você não está achando que ELA fez isso, não é? Ela é só uma garota de 15 anos!
-- Por enquanto, não acho nada. Mas esse tipo de interesse pode ser usado para atrair adolescentes pra todo tipo de coisa. Existe gente maluca, existe gente mal intencionada, e existe gente maluco E mal intencionada. Você disse que Annie era praticamente uma criança ainda. Sabe dizer se era virgem?
-- Eu acho que sim... O que isso tem a ver?
-- Com as preferências de gente maluca e mal intencionada. Eu gostaria de ver o quarto da Annie.
-- Hmm... Não sei se vai dar... O que você precisa de lá? – Angela se torna evasiva quando Max sugere de ir ao apartamento dela.
-- Não preciso de nada, mas ela pode ter deixado alguma anotação, uma agenda, uma conversa no computador... Tem algum problema?
-- É que... – Angela passa a mão no cabelo, sem jeito. – O Tyler não vai gostar de saber que você foi lá...
-- A decisão é sua. Mas e se houver alguma pista lá?
Max conseguia perceber o medo de Angela. As mãos apertavam o volante, os lábios comprimidos, pupilas dilatadas, e a respiração alterada, segurando um pouco do ar antes de soltar.
-- Talvez amanhã... – Ela responde, enfim.
-- Sei que não é da minha conta, Angela, mas... Tem certeza que parou com as escolhas erradas? – Max pergunta, fazendo Angela o olhar de soslaio.
-- Onde eu deixo você? – Ela pergunta, tentando mudar de assunto.
-- Em qualquer lugar perto do Museu das Bruxas. Annie se dá bem com Tyler?
-- Não. Mas isso não tem nada a ver, ok?
-- Ok. – Max responde, não muito convencido. – Você se dá bem com Tyler?
-- Ele é meu namorado. A gente tá junto há um ano. Isso responde sua pergunta?
-- Eu não perguntei há quanto tempo estão juntos.
-- Isso não é da sua conta, minha vida pessoal não vai te fazer achar a Annie!
-- E talvez até impeça. – Max diz, se mantendo sério e inexpressivo.
De repente, Angela para o carro, se debruça no volante e começa a chorar, surpreendendo Max, que olha pros lados, preocupado por talvez ter ido longe demais. Então tenta baixar a voz e falar o mais suavemente possível.
-- Angela, me desculpe, sim? Não quero te causar mais problemas. Eu... não devia ter dito isso. Você tem razão, não é da minha conta.
Depois de algum tempo ela consegue interromper um pouco o choro e fala em meio a soluços.
-- Ele é ciumento... Mu-muito. E... não foi o primeiro cara assim... É sempre assim, na verdade... Começa tudo bem, mas... Sempre termina mal. E eu tenho medo de acabar como minha mãe...
-- O que houve com sua mãe?
-- Meu pai... Foi ele que a matou. – Ela respondia entre soluços e lágrimas. – Pegou perpétua numa prisão federal.
-- Tyler... Ele é violento com você? Com a Annie?
-- Ele NUNCA tocou na Annie. Eu mato ele, se fizer isso. Mas... Uma vez ele me bateu, no rosto...
-- Annie sabe disso?
-- Não... Eu não deixei ela saber. – Funga, limpando o rosto na manga do casaco. – Eu não devia nem estar deixando você saber...
-- Talvez não. Talvez você devesse apenas terminar com ele e denunciá-lo à polícia. Já aconteceu isso antes dele? – Angela responde afirmativamente, balançando a cabeça, depois complementa.
-- É sempre assim... Mas, eu não quero deixá-lo. Ele me ajuda mais do que qualquer um no bar. Se não fosse por ele, tudo teria desandado.
-- Como Annie lida com esses seus relacionamentos?
-- Eu não sei... Ela é quieta, não fala nada.
-- Escute... E se Tyler não souber que eu estive no quarto da Annie? Acha que seria melhor assim?
-- Eu moro num prédio com porteiro. O cara que fica lá durante a noite é amigo dele. Ele vai saber, se você entrar.
-- Entendo. – Max coça o queixo, pensando em outra possibilidade, imaginando se Angela concordaria. – E se o porteiro também não soubesse?
Ela pensa um pouco, antes de responder. Estaria deixando um estranho entrar em seu apartamento sem ninguém saber. Era perigoso. Ainda mais com a impressão que Max passava, desde que ela o vira no bar, e pela forma como ele se portara diante de Tyler. A maioria dos caras se intimidava com Tyler, mas Max não pareceu se abalar nem por um instante. Como se aquele imenso homem o encarando e hostilizando nem estivesse ali. Max era um sujeito perigoso. Mas também transmitia confiança.
-- Tem a escada de incêndio...
-- Perfeito. Eu subo, dou uma olhada, vejo o que descubro e vou embora. Amanhã entro em contato de novo com o que eu já tiver descoberto. – Disse, dando um sorrisinho de lado, tentando amenizar a situação. Angela limpa o rosto novamente e concorda.
-- Certo. – Volta a ligar o carro e segue pra parte leste da cidade, adentrando um bairro residencial com prédios antigos e algumas lojas de departamento. Já passavam de uma hora da manhã e Max, que havia pensado que sairia da cidade naquela noite, se vira puxado com tudo de volta a Salem.
Não era apenas o triplo homicídio brutal a ser desvendado. A garota desaparecida precisava ser resgatada. E aquela estranha mulher dirigindo. Uma vida digna de pena, cheia de relacionamentos abusivos, inclusive na relação parental. Angela parou o carro diante de um beco mal iluminado.
-- Eu moro no sexto andar, apartamento B, à esquerda.
-- Já chego lá. – Max diz, descendo do carro e se misturando às sombras, enquanto ela dava a partida e saía.
Max aguarda um momento, olhando para os lados, se certificando de que estava sozinho, então vai silenciosamente até a escada de incêndio. Apressa o passo e salta, batendo os pés na lateral do prédio e se impulsionando para alcançar a escada, que estava retraída. Se agarrou e subiu na estrutura metálica, evitando fazer barulho, então começou a subir até o sexto andar.
Encontra a janela que acreditava ser do apartamento dela e aguarda, até que a vê entrar pela porta e acender as luzes da sala, onde havia um sofá, televisão de tela plana e uma bateria em um canto. Ela vai até a janela e a abre para que Max pudesse entrar.
-- Vem, o quarto da Annie é por aqui. – O chama com um gesto da mão e segue por um corredor.
Max entra no apartamento espaçoso, de móveis novos e relativamente limpo e bem cuidado, com exceção das caixas de pizza e garrafas de cerveja na mesa de centro. Havia muitas bonitas pinturas nas paredes, inclusive uma que parecia ser de Angela nua deitada em uma cama. Seguindo pelo corredor, ela abre uma porta cheia de adesivos de bandas, desenhos de personagens e colagens diversas.
O quarto de Annie possuía um guarda-roupa, uma cama simples, com uma prateleira em cima onde havia algumas bonecas de porcelana. No criado mudo, com porta-retratos com uma foto antiga das duas irmãs mais novas com uma mulher que provavelmente era a mãe falecida, e de Annie com outra mulher ruiva, possivelmente a tia. Max sente cheiro de incenso e identifica um porta-incenso na forma de uma bruxinha de artesanato sobre a penteadeira, junto a colares de quartzo, brincos de lua e acessórios esotéricos dos mais diversos. No espelho, uma foto de Annie com duas amigas em um parque, próximo a um coreto.
-- Computador? – Max pergunta, enquanto olhava embaixo da cama, abria gavetas e revirava o cesto de lixo. Encontra algumas provas de matemática amassadas debaixo da cama e uma pequena chave dentro do travesseiro.
-- O notebook fica no guarda-roupa.
Enquanto pegava e ligava o computador, mostra a chave para Angela.
-- Sabe de onde é isso e porque estava escondida? Ela tem um diário ou algo assim?
-- Diário? Acho que não, ninguém mais usa isso. Talvez seja da caixinha de joias. – Angela pega a chave e vai até a penteadeira, testar na caixinha, mas não entra na fechadura. – Não... Eu não sei, talvez seja do armário da escola?
-- Usam chaves? Não é uma combinação?
-- Não, são chaves. – Angela digita a senha no computador e se afasta para Max usá-lo, abrindo o navegador e olhando o histórico, encontrando usos da netflix e pesquisas de biologia.
Em seguida, Max abre o facebook de Annie para ver as conversas recentes, encontrando uma quantidade exorbitante de notificações, com mensagens pedindo por sua segurança e compartilhamento de mensagens de desaparecida. Nas conversas recentes, estavam Kate Graham e Sandy Sherman perguntando por Annie, parecendo desesperadas. Subindo a barra de rolagens, viram uma conversa sobre Harold, onde uma das garotas dizia que ele gostava de Annie e que ela devia dar uma chance a ele. Annie respondeu com um vago “Talvez...”. Em uma conversa com Harold, ele a chama para ir a uma sorveteria próxima ao parque e Annie responde com um “Tudo bem”.
-- Vou à escola dela amanhã, falar com as duas amigas e dar uma olhada no armário. Posso ficar com a chave para testar lá?
-- Claro. Você... descobriu algo? Suspeita de algo?
-- Harold a chamou pra tomar um sorvete perto do parque. Por enquanto é só. Se alguém entrou em contato com ela, não foi por aqui. Talvez as amigas saibam de algo. Talvez o contato tenha sido com os garotos. – Angela concorda balançando a cabeça, abatida.
-- Me dá seu celular. – Pede, estendendo a mão, então Max tira o aparelho do bolso e entrega, deixando que ela o manipulasse e depois devolvesse. – Coloquei meu número na sua agenda. Me liga se descobrir algo ou se precisar de alguma ajuda.
-- Certo. – Max guarda o celular no bolso, assim como a chave de Annie. Dá uma olhada nas provas de matemática e depois mais uma vasculhada no quarto. Já havia revirado quase tudo e não encontrara nada. Notou que as bonecas estavam organizadas enfileiradas, mas com um espaço vazio entre duas elas. – Sabe o que ficava aqui?
-- É a coleção de bonecas da Annie. Acho que tá faltando a ruiva, que a tia deu.
-- É a preferida? Ela costuma carregá-la consigo?
-- É a preferida, mas ela não a carrega por aí. Ou, pelo menos, não carregava. Pelo visto, levou hoje. – Max concorda acenando com a cabeça.
-- Acho que terminei por aqui. Se por acaso você ver algo de diferente que eu não tenha comentado, me avise. Qualquer coisa, mesmo que possa não ser nada.
-- Certo... – Ela acompanha Max de volta pra sala, para que ele pudesse sair pela janela e descer a escada de incêndio.
-- Você disse que sua mãe pintava? – Comenta, apontando os quadros.
-- Sim. A maioria são dela.
-- Quais os nomes de seus pais?
-- Richard e Molly Bloom.
-- É um autorretrato? – Pergunta, apontando o quadro da mulher nua, deixando Angela meio sem jeito.
-- Não... Aquela sou eu. Foi um ex que fez... Outro que não deu certo. Eu tenho uma queda por artistas. – Max concorda com um aceno de cabeça, abrindo a janela.
-- Bem, tenha uma boa noite. Qualquer coisa, você tem meu número. Me ligue se descobrir algo ou se precisar de ajuda. – Passa pela janela, alcançando a escada de incêndio. – Qualquer ajuda.
-- Ok... Obrigada.
Eram quase duas e meia da manhã quando Max desceu as escadas silenciosamente, sem chamar a atenção de ninguém. Saiu do beco e começou a caminhar de volta para o hotel onde estava hospedado durante sua estadia em Salem. Ainda não poderia fechar a conta, como planejara fazer, então dormiria algumas horas antes de voltar à investigação.
Durante o percurso, teve a impressão de estar sendo seguido ou observado, então se escondeu em um beco e aguardou até ter certeza de que era apenas impressão. Não havia esquecido as ameaças que recebera durante seu último caso. Irritara um homem importante e poderoso o bastante para coloca-lo em perigo. Fora exposto na imprensa local e a retratação fora irrelevante. O melhor que poderia fazer era ir embora de Salem o mais breve possível, mas não podia dar as costas para Annie Bloom.
Já passavam das três horas da manhã quando chegou ao Hawthrone Hotel, na Union Street, próximo ao Museu das Bruxas de Salem. O prédio era um caixão vermelho de um único bloco, com um estacionamento na frente. Max passou de cabeça baixa pela recepção, apenas acenando para o porteiro enquanto entrava no hall que levava ao elevador. Subiu ao terceiro andar e seguiu até seu quarto, o último do corredor, percebendo um papel dobrado, colado na porta cm fita adesiva.
Max olha para os lados, a procura de algo suspeito, para depois apanhar o papel e desdobrá-lo, encontrando escrito em letras vermelhas:
ASSASSINO
ESTUPRADOR
VOCÊ VAI PRO INFERNO
Ele balança a cabeça negativamente e adentra o quarto, amassando o papel e jogando-o no lixo, para então retirar casaco e luvas, enquanto o fantasma de Nancy Walker pairava sobre sua cabeça. O quarto era simples, mas bem aconchegante, trazendo algum conforto a Max. Estava cansado e preocupado com a situação em que se envolvera. Terminou de se despir e dormiu um sono pesado.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário
O Pi

avatar

Mensagens : 88
Data de inscrição : 01/06/2015
Idade : 30

MensagemAssunto: Re: Salem Ao Cair da Noite   Seg Jun 13, 2016 12:46 am

Os cristais de câncer

Hawthrone Hotel. Salem, Massachusetts. 21 de Dezembro de 2015.
Max acordou cedo, como sempre fazia, e voltou a abrir a mala, que já estava pronta para viagem, apanhando tênis e um traje esportivo para correr e fazer seus exercícios matinais. A noite havia sido curta, mas agradável, e ele não tinha o costume de dormir muito. Viu Angela em seus sonhos, apesar de não lembrar exatamente o que sonhara. Era uma mulher muito bonita.
Depois de se exercitar, passou em um Dunkin Donuts para tomar um café e comer, voltando ao hotel onde tomou um banho e se vestiu para ir à escola de Annie. O espelho lhe mostrou que os cabelos castanhos claros estavam compridos, precisando ser cortados, e a barba precisava ser feita, mas deixou para outro dia. Saiu do hotel e foi até um ponto, pegar o ônibus que o levaria até seu destino.
A propriedade do colégio era cercada por grades, possuía um estacionamento com poucas árvores e a recepção ficava logo no portão de entrada. Um jovem rapaz com um crachá o identificando como Dave monitorava a escola pelo computador quando viu Max entrar na recepção.
-- Bom dia, em que posso ajuda-lo?
-- Olá, estou a serviço de Angela Bloom, investigando o desaparecimento de Annie Marie Bloom. Gostaria da permissão da diretoria para dar uma olhada no armário dela e falar com alguns professores e colegas. – Max diz, entregando um de seus cartões de visita.
-- Hmm, espere um pouco, eu vou interfonar para o Sr. Brooks. – Então Dave pegou o telefone, fazendo uma ligação pra sala do diretor, passando o nome e a situação, e após alguma conversa, ele desliga o telefone, voltando-se para Max. – Ele gostaria de vê-lo primeiro, a sala do diretor fica no final daquele corredor à direita.
-- Obrigado. – Max diz, seguindo pelo caminho indicado e encontrando a porta com uma plaqueta que dizia “DIRETOR CHARLES BROOKS”, onde bateu os nós dos dedos para se anunciar.
-- Pode entrar. – Disse a voz lá de dentro.
-- Bom dia, senhor. – Max cumprimenta, entrando na sala do diretor, que parecia grande e espaçosa, com diversas prateleiras de livros, uma grande janela que dava para a quadra de esportes, alguns quadros e pinturas nas paredes e uma escrivaninha, onde estava um homem calvo e grisalho, com seus sessenta e poucos anos, vestindo uma camisa social listrada, gravata azul marinho e suspensórios.
-- Bom dia. Sente-se, por favor. – Diz indicando a cadeira à frente de sua mesa, na qual Max se senta.
-- Sabe, a polícia agendou uma visita à escola hoje. Eles estão investigando o caso da Annie, entende? Por que a Srta. Bloom o contratou? Digo, não há motivos para isso...
-- A polícia está lidando com um triplo homicídio e um possível, mas não confirmado, sequestro, senhor. Eu estou procurando uma garota desaparecida. Apesar de serem casos conectados, nossos focos são diferentes.
-- Entendo... Mas o senhor já tem alguma repercussão na mídia, não é? Eu lembro de tê-lo visto no noticiário. A Srta. Bloom sabe disso? – Ele pergunta, juntando as mãos sobre a mesa.
-- Bem, a mídia repercute muita coisa, senhor. Nem sempre condizentes. As investigações policiais já me inocentaram. A Srta. Bloom contratou um investigador particular de ficha limpa.
-- Eu vou ligar para ela para confirmar essa história, espero que não se incomode.
-- Nem um pouco. Fique à vontade.
O diretor pegou uma pasta de dentro da gaveta de sua mesa, folheou os papéis até encontrar o número de Angela Bloom, apanhou o telefone em sua mesa e fez a ligação. Explicou sobre a presença de um investigador particular na escola investigando o caso de Annie e aparentemente Angela confirmou, ao que ele agradece e desliga, voltando-se para Max.
-- Vou pedir que a Sra. Cooper te acompanhe pela escola para fazer seu trabalho, mas se precisar falar com algum estudante, peço que o faça na presença de algum professor, tudo bem?
-- Perfeitamente, senhor. – Max diz, confirmando com a cabeça e se levantando para sair. – Obrigado pela cooperação e também pela preocupação com seus estudantes.
-- Só estou fazendo meu trabalho. Tenha um bom dia. – Diz, pegando novamente o telefone para uma nova ligação.
Max sai da sala do diretor, voltando à recepção, onde aguarda um momento até que a uma senhora de cerca de cinquenta anos, cabelos loiros e óculos de armação grossa chega e se dirige a ele.
-- Bom dia. Você é o detetive particular? Venha, vamos antes de o intervalo começar. – O chama, apressando o passo, adentrando a escola e seguindo pelos corredores enquanto olhava uma lista de nomes em um papel plastificado, parando na frente de um dos armários dos estudantes. – Este é o armário de Annie Marie Bloom. Tem a chave?
-- Talvez. – Max pega a chave encontrada na noite anterior e experimenta, mas a chave não entra. – Aparentemente, não. Pode abrir pra mim?
-- Claro. – A Sra. Cooper destranca o armário e, quando abre a porta, uma bombinha estoura uma bruxinha de papel na frente dela, assustando a mulher. – Ahh! Malditas crianças!
Max observa o armário, prestando atenção naquela armadilha de enfeite de halloween, armada na estranha eventualidade de que alguém, que não Annie, abrir aquele armário. Estava presa ao fundo do armário com fita adesiva e ligada a porta com um barbante. A única forma de evita-la seria sabendo da existência do barbante, para soltá-lo e desativar o truque antes de abrir toda a porta.
Se alguém abrisse seu armário, Annie saberia. Max imaginava se era apenas uma brincadeira, ou se ela teria motivos reais para fazer aquele pequeno sistema de segurança, enquanto vasculhava o armário. Havia livros de português e matemática, estojo com lápis e canetas, uma foto de Annie, Angela e um homem com o rosto riscado, todos em uma praia, e fotos de duas garotas, provavelmente Kate e Sandy.
Porém, dentro de um dos livros, Max encontra um papel solto, apanhando-o e encontrando uma frase escrita com uma letra esgarranchada: “Se quiser seu livro de bruxaria, vai ter que sair com o Harold”. Ele devolve o livro, enquanto guarda o papel no bolso, fechando o armário e se virando para a Sra. Cooper.
-- Kate Graham e Sandy Sherman. Preciso falar com elas.
-- Por aqui. – Ela começa a caminhar, guiando Max pelos corredores, quando o sinal é ouvido e os estudantes começaram a sair de suas salas. Os dois param na frente de uma porta e a Sra. Cooper aborda duas garotas que saíam juntas, conversando com um aspecto entristecido.
-- Srta. Graham? Srta. Sherman? Bom dia, este senhor precisa falar com vocês. – Então se vira para a professora dentro da sala. – Sra. Moore, poderia acompanhar as garotas durante essa conversa? Pedido do Diretor Brooks.
-- Hã? Claro... Podem se sentar, enquanto eu corrijo as provas finais. – Respondeu a professora, uma asiática na casa dos trinta anos, com longos cabelos lisos e óculos.
As garotas se entreolharam, quietas, e voltaram pra sala, se sentando uma ao lado da outra, próximas à professora, enquanto Max se sentava de frente para as duas.
-- Bom dia, garotas. Bom dia, professora. Perdoem o incômodo. É sobre Annie Bloom.
-- Fique à vontade. – Respondeu a professora, voltando às provas sobre a mesa.
-- Vocês são amigas de Annie? Conhecem-na há muito tempo? – Max começou.
-- Eu conheço a Annie desde pequena... tipo, a gente fez o primário juntas. – Disse Kate, que tinha cabelos castanhos claros ondulados na altura dos ombros, era alta e um pouco acima do peso ideal.
-- Fiquei amiga dela depois que ela voltou da Irlanda. A gente não se conhecia antes. – Disse Sandy, que era baixinha e magrinha, com cabelos loiros lisos e compridos, passando a impressão de ser mais nova.
-- Sabem de algo sobre o ocorrido no parque? Annie disse algo antes de ir para lá? – Max perguntou, fazendo as duas se entreolharem.
-- Annie ia encontrar o Harold. – Sandy respondeu.
-- Ele gostava dela há uma década, mas não chamava ela nunca. – Kate complementou.
-- Mas ele chamou, eles iam à sorveteria e tals. – Sandy voltou a falar.
-- A ideia era ir mais cedo, já que quase ninguém tá vindo pra escola mais, só quem ficou nas finais. – Disse Kate, novamente.
-- Aí eles acharam melhor fugir da aula e ir à sorveteria quando estivesse mais vazio.
-- Sabem sobre os outros garotos? Conheciam-nos? Eram amigos do Harold?
-- Aham, eram tipo, amigos do Harold. – Respondeu Kate.
-- Melhores amigos. – Complementou Sandy.
-- Sabem dizer por que eles também estavam no parque? – Max perguntou, mas ambas balançaram a cabeça negativamente.
-- Foi esquisito saber isso... – Disse Sandy.
-- A gente pensou que ia ser só a Annie e o Harold. – Disse Kate.
-- Sabem dizer por que Annie concordou em sair com Harold?
-- Na verdade, não. Ela não parecia tão afim dele. – Respondeu Kate, enquanto Sandy ficou apenas quieta. Max a encarou, esperando que ela dissesse algo, mas ela desviou o olhar, olhando para Kate, como se estivesse escondendo algo. Talvez não quisesse falar na frente da amiga. Max resolveu insistir.
-- Sandy? Sabe dizer por que Annie concordou em sair com o Harold?
-- Não... Não sei, não. – Ela disse finalmente, desconfortável.
-- Talvez ela só quisesse dar uma chance pra ele, sabe? – Kate disse.
-- Não sabem se alguém a encorajou a isso? Ou talvez a chantageou? Annie não comentou nada?
-- Chantagear? Não mesmo. Acho que não... A gente encorajava ela. Quer dizer, eu fazia isso mais que a Sandy.
-- É... – Sandy concordou, sem muito entusiasmo.
-- Sei... – Max diz, olhando para Sandy, fazendo uma pausa desconfortável para deixar a garota sentir a pressão. Ela tinha algo a dizer e não desistiria de saber o que era. – Sabem dizer algum hobby ou interesse de Annie?
-- Ela curtia muito desenhar, desenhava super bem. Ela também lia muito, sabe? Livros de fantasia e tals. – Kate respondeu, enquanto Sandy apenas concordava com a cabeça.
-- Sandy? – Max chamou, pedindo pela participação dela. – Annie tinha algum livro especial? Algum favorito?
-- Alguns... Ela gostava de um livro que trouxe da Irlanda. A tia dela que deu pra ela. Falava de misticismo... – Sandy respondeu, pressionada pela pergunta dirigida diretamente a ela.
-- Sabe se Annie estava com ele quando foi ao parque? – Max pergunta, mas ambas negam com a cabeça.
-- Acho que não. Ela só trazia de vez em quando pro colégio. Por quê? – Kate perguntou.
-- Não sei. Você sabe, Sandy? – Max disse, mantendo a pressão.
-- Ela... falou que o tinha perdido. Acho que não estava com ele, não.
-- Sério? Ela nem me contou isso. – Kate disse, ao ouvir a amiga.
-- Sabem se Annie conhecia mais alguém com esses interesses? Alguém que também gostasse de livros?
-- Não, acho que não. Sabe, não tem tanta gente por aqui interessada nisso. No máximo os fãs de Crepúsculo que já superaram a série. – Kate respondeu, citando aquela criticada obra da cultura de entretenimento onde havia vampiros emotivos e brilhantes. Max já conhecera algumas criaturas que poderiam ser chamadas de vampiros, e eram todos monstros mortos apenas fingindo humanidade.
-- Alguém de fora, talvez? Annie nunca comentou sobre ninguém?
-- Não. Não com a gente. – Sandy respondeu.
-- Certo. Por enquanto é só, Kate. Obrigado pela ajuda. Farei todo o possível para encontrar sua amiga. – Max diz, acenando com a cabeça, se despedindo de Kate. As duas se levantam para sair, então ele interrompe. – Sandy? Eu gostaria de te fazer mais algumas perguntas, se não se importar.
-- A... a mim? – Ela pergunta, demonstrando nervosismo e insegurança. Kate estranha, olhando pra ela.
-- Sim, por favor. – Max responde, baixando a voz. Meio receosa, ela se senta novamente e olha para Kate.
-- Será rápido. Você logo alcança a Kate. – Max a assegura.
-- Vou te esperar lá fora. – A amiga diz, saindo da sala. O detetive espera alguns segundos, então fala com a voz baixa.
-- Tem algo a dizer agora que a Kate saiu, Sandy?
-- Não, não tem nada... – Ela responde, desconfortável, ainda escondendo algo.
-- Nada sobre o que levou Annie a sair com Harold?
-- Os amigos dele ficavam em cima... Mas eu juro, ela não me disse o que era. Eu achava que ela não ia sair com ele, ela... não queria. Sabe?
-- Acha que eles podem ter chantageado ela?
-- Talvez.
-- Acha que algum deles pode ter escrito isso? – Max pergunta, tirando do bolso o papel encontrado no armário de Annie e mostrando para Sandy, que arregala os olhos, surpresa.
-- Mas que filho da puta! Eu sabia! Ela não ia me enganar!
-- Sandy! – Ralha a professora, ao ouvir o xingamento.
-- O que quer dizer, Sandy? Reconhece a letra? – Max continua.
-- É do Mark! Ele é amigo do Harold, é um babaca que se mete nos assuntos de todo mundo, metido a valentão.
-- Não tão valentão agora. – Max diz, sério. Não gostava de valentões.
-- Não... Des-desculpa falar assim. É que... eu não... – Sandy diz, atingida pela culpa ao ser pega falando de um dos rapazes mortos. Parecia bastante abalada pelo sumiço da amiga. Talvez culpasse os garotos pelo que acontecera.
-- Tudo bem. Pode ir agora, Sandy. Obrigado pela ajuda. – Max diz, e ela se levanta apressada, saindo logo da sala. Max espera alguns segundos, então se vira para a Sra. Moore, acenando com a cabeça, enquanto voltava para o corredor. – Obrigado, professora.
-- Até mais. – A mulher diz, logo voltando à correção de provas.
Max sai da sala e avista a Sra. Cooper próxima a uma lixeira, dando bronca em alguns moleques, então ele a espera terminar a bronca para pedir pela próxima ajuda.
-- Gostaria de ver o armário de Mark Baker, senhora.
-- Ok, vamos lá. – Ela disse, olhando novamente a lista de papel plastificado e apanhando o molho de chaves ao encontrar o armário procurado. Max procura pelo possível livro de Annie, mas não havia muitos materiais ali. Apenas um livro de matemática e um caderno, em cuja última página ele encontra uma sequência de números com um contorno vermelho: “4, 9, 3, 6, 1”. Ele anota os números no celular, por precaução e devolve o caderno no lugar.
-- Pode dizer algo sobre Annie Marie Bloom, Sra. Cooper? Relacionamentos com os professores, algum favorito, algum problemático?
-- Eu tomo conta dos corredores, não sei muito sobre os alunos. A Srta. Bloom nunca me causou problemas, ficava sempre no pátio com as amigas. É uma menina bonita e quieta.
-- Entendo. Então terminei por aqui. Obrigado pela ajuda, Sra. Cooper.
-- Por nada. Deixe-me acompanha-lo até a saída.
Os dois seguem até a recepção, onde Dave atendia outro telefonema, mas ainda acena para Max enquanto este sai do colégio, seguindo para o ponto de ônibus. Enquanto esperava, recebeu uma mensagem no celular vinda de Angela: “Oi, alguma novidade do caso?”
Após subir no ônibus, responde: “Estive na escola. Descobri algumas coisas, preciso falar contigo de novo. Me dê um lugar e horário que não vão te causar problemas”.
Ela logo responde: “Depois do almoço, vou ao Green Grocery fazer compras. Me encontre lá. Bjs”.
Max estranha o “Bjs”, mas pesquisa onde ficava aquele supermercado, enquanto descia próximo a um restaurante tailandês onde já havia comido algumas vezes. A comida era boa e o preço era razoável, então resolveu já almoçar, entrando e pedindo um pai thai. O lugar estava relativamente movimentado, com alguns casais e algumas famílias. Uns e outros observavam Max com alguma desconfiança, como se o reconhecessem.
Depois de almoçar, vai para o ponto, pegando um ônibus que o leva até o centro e, de lá, pega outro ônibus até o subúrbio na região do apartamento de Angela. O Green Grocery era um supermercado grande com uma cafeteria ao lado. Max reconhece a caminhonete de Angela no estacionamento e segue para a entrada do supermercado, para começar a procura-la entre os corredores de produtos.
Próximo ao açougue, Max reconhece Angela à distância. Ela parecia se destacar na multidão com sua beleza desconcertante. Alta, ruiva, vestindo uma camiseta de alça, com o casaco na mão, jeans e botas. Se não fosse pelo modo despojado como se vestia, seria facilmente confundida com uma modelo saída de algum anúncio. Na verdade, o modo despojado apenas evidenciava sua beleza, como sendo caprichosa demais para alguém que não parecia sequer estar tentando.
“Bjs”, Max se lembrou da mensagem. “Até que não seria má ideia”, pensou observando-a colocar um saco de carne no carrinho. Em seguida, balançou a cabeça negativamente. “Exceto que é claro que seria má ideia”. Foi caminhando na direção dela, descartando aqueles pensamentos que não ajudavam em nada no trabalho que estava fazendo.
-- Angela? Olá. – Chama a atenção, conforme se aproximava.
-- Ah, Oi! – Ela diz, olhando para os lados e então pegando mais uma sacola de carne para colocar no carrinho. – Eu já estou terminando aqui.
-- Tudo bem. – Max diz, olhando discretamente o conteúdo do carrinho, vendo além da carne, produtos de limpeza, cervejas... Batata era o único vegetal ali. Angela vai até um caixa, paga, e logo leva as compras para a caminhonete, apressada. Max a ajuda com as sacolas. – Você tem um bar, mas compra cerveja no supermercado?
-- De vez em quando. É artesanal, não vale a pena comprar para o bar, mas é muito boa pra tomar em casa. – Depois de guardar as compras na carroceria, vai para a cabine, se sentando no banco do motorista, enquanto Max vai para o banco do carona.
-- Então, o que descobriu? – Ela pergunta, sem fazer menção de ligar o veículo.
-- Sua irmã tem um “livro de bruxarias”, trazido da Irlanda, certo?
-- É, ela tem... É um livro de contos, fala sobre criaturas da mitologia irlandesa, com informações para se proteger ou lidar com eles. Folclore.
-- Mark Baker roubou esse livro e o usou para chantagear Annie a se encontrar com Harold.
-- Mark? Quem é Mark? Espera... É um dos meninos mortos?
-- Exatamente. Sandy Sherman o descreveu como um “valentão”. Provavelmente, foi junto para ter controle sobre a situação. Valentões gostam de ter controle. Mas sempre tem um peixe maior.
Angela apoiava os cotovelos no volante e levava as mãos à cabeça, respirando fundo. Parecia ainda mais preocupada, como se algo novo a incomodasse naquilo tudo.
-- Algum problema? – Max perguntou.
-- Nada... É só que... Não, nada não. Conseguiu mais alguma coisa? O que você vai fazer agora? – Ela tentava mudar de assunto.
-- Angela, por favor. Eu quero ajuda, mas você precisa permitir. – Ele insiste.
-- Não é nada que vá lhe ajudar na investigação, sério.
-- Tem certeza disso?
-- É só que... Parece que a história se repete, sabe? Annie com problemas com garotos... Eu com problemas com caras... – Ela balança a cabeça negativamente. – Isso não vai ajudar a achar ela.
-- Talvez não. Talvez ajude. Você ainda tem contato com seu pai?
-- Não. – Ela responde, franzindo a testa, estranhando a pergunta.
-- Acha que eu poderia ter?
-- Por que diabos você iria querer isso? Ele tá preso há muito tempo, não vai ajudar em nada. Pegou perpétua, nunca vai sair daquele lugar e acho muito mais que justo pelo que ele fez.
-- Tudo bem. Sua tia já sabe sobre Annie?
-- Ainda não...
-- Não vai contar?
-- Eu... estou criando coragem para isso. Se... se você achar ela, eu posso apenas falar que foi um susto e está tudo bem. Se... se ela souber... antes de ser resolvido... Eu não sei, ela pode querer tirar a Annie de mim, ela já tentou isso antes, ela não queria que a Annie voltasse pra cá e... – Angela começa a chorar, enquanto falava. -- Eu estou contando que a Annie esteja viva, eu não consigo pensar na outra... possibilidade...
-- Tudo bem, desculpe. – Ele diz, colocando a mão sobre o ombro dela, tentando passar algum conforto, enquanto ela fungava.
-- Por que você acha que falar com meu pai... seria útil?
-- Sinceramente, eu não sei. A maior parte do meu trabalho é perguntar e reunir informações, pra ir juntando e tentando encontrar respostas. Sua mãe teve problemas com ele, antes de você ou Annie terem seus próprios problemas, não é?
-- É, né...?
-- Mas não vou cruzar as linhas que você estabelecer. Você é a chefe, aqui.
-- Não. – Ela diz, levantando uma mão. – Eu não vou criar linhas aqui. Você pode fazer o que você quiser, desde que ache a Annie. Meu pai está no presídio Plymouth, meio longe daqui, no caminho de Boston.
-- Certo, vamos deixar ele como uma fonte secundária, para o caso de entrar em algum beco sem saída. A chave que encontrei no quarto de Annie não era do armário da escola. Vocês tem algum lugar onde se pode alugar um cofre ou algo assim, aqui em Salem?
-- Eu não conheço nenhum lugar assim, mas... Você falou que o livro dela foi pego, não é? Ele tinha um cadeado.
-- Um cadeado? – Max pergunta, erguendo uma sobrancelha, em estranheza.
-- É... Um pequeno. Era um livro antigo, de família. Acho que ela queria conservar ele.
-- Entendo... E foi sua tia Casey quem o deu a ela?
-- Sim.
-- O que pode me falar dessa sua tia?
-- Irmã mais velha da minha mãe, viveram um tempo em Washington quando mais novas. Ela é... bem rica. Dona de uma empresa de estética e cosméticos. – Diz, pegando um celular e mostrando uma foto de uma mulher ruiva, de meia idade, mas ainda muito bonita. Bonita até demais.
-- Mais alguma coisa? Ela também se interessa por assuntos esotéricos?
-- É, bastante até. Ela era aquela tia que contava sobre elfos escondidos nas cavernas, sobre fadas e bruxas. Minha mãe pedia pra ela não encher nossa cabeça com coisas mirabolantes, mas era legal... Ajudava a fugir um pouco da realidade.
-- A realidade era ruim?
-- Com um pai violento... Claro que era.
-- Como sua tia se posicionava diante disso?
-- Ela só vinha aqui de vez em quando, nas férias escolares ou coisas do tipo. Ela também tinha... seus assuntos pra resolver. O problema dela é que ela tenta controlar tudo, demais... Quando minha mãe morreu, eu estava na universidade, não queria largar tudo e ir pra Irlanda. Nós brigados e ela levou a Annie.
-- E então começaram as escolhas ruins.
-- É...
-- Como se deu o retorno da Annie?
-- Annie pedia pra voltar. A gente conversava sempre pela internet. Quando o bar voltou aos eixos, eu disse que tinha condições de criar ela. Tia Casey não queria, mas ameacei por a justiça no meio disso, então ela desistiu.
-- Uhum... – Max desvia o olhar, apoiando a mão no queixo, pensativo, quando então o celular de Angela toca.
-- Um minuto. – Ela olha e atende. – Hey, amor... Eu? Eu to no Green ainda... Eu... S-sim, eu sei que horas são... Mas isso não... Mas... - Max permanece atento à conversa, ainda que disfarçadamente. Conseguia ouvir Tyler gritando do outro lado da linha, enquanto Angela parecia se encolher, ficando com a voz trêmula.
-- E-eu to indo, b-beijo... – Desliga o telefone, engole em seco e olha para Max com os olhos aflitos. – Eu... tenho que voltar.
-- Entendo... – Max desce do carro, se virando para Angela, antes de fechar a porta. – Sempre tem um peixe maior, Angie.
Ele fecha a porta e espera ela sair com o carro. Sente um gosto amargo na boca, conforme vê a caminhonete indo embora carregada não apenas de compras, mas de sofrimento. Aquela fúria fria, herança de sua família, cresce em seu interior e ele a contém para um momento mais apropriado. Pensa nas possibilidades do que fazer, então segue para o ponto de ônibus, decidido a ir até o parque, na esperança da polícia já ter terminado seu trabalho por lá.

O grande parque cheio de salgueiros ao redor de um lago estava bem vazio àquela hora da tarde. As faixas amarelas ainda estavam ao redor da cena do crime, mas os corpos e evidências já haviam sido retirados e o trabalho pericial todo feito. A polícia não estava mais ali, mas ainda era a cena do crime, então Max passou por baixo da faixa amarela e se aproximou do local.
O salgueiro onde os corpos haviam sido encontrados estava agora rodeado de neve. Max não sabia o que havia acontecido, mas talvez houvesse algo deixado para trás, passado batido pela investigação policial. Ele remexe a neve, seguindo sua intuição, atento a qualquer coisa que pudesse encontrar.
Enquanto vasculhava o local, imagina como teriam se dado os acontecimentos por ali. Annie e Harold deviam ter chegado ao local juntos, e Mark liderou o outro garoto para segui-los. Talvez tenha se aproximado para pressionar Harold. Ou Annie. Talvez tenha exagerado. Talvez tenha desejado participar. E depois? Os garotos foram mortos e Annie desapareceu. Seja lá o que fez aquilo, teve de sair dali carregando a garota, sem ser visto.
Então, encontra algo embaixo da neve, meio afundado na terra. Era um olho. De vidro. E Max sentia uma estranheza desconfortante nele. Pegou o objeto, guardou no bolso e se levantou, olhando ao redor, tentando imaginar pra onde alguém iria se estivesse carregando uma garota após realizar uma chacina grotesca.
O parque tinha três saídas principais. Uma delas era para a avenida que o tangenciava, então as descartou inicialmente, por ser a mais óbvia. As outras duas eram opções mais discretas. Uma era pelo lago, mas provavelmente precisaria de um barco atracado no píer. A outra era para uma pequena área florestal, fechada pra preservação ambiental. Seguiu na direção dessa última.
A floresta certamente era um lugar mais fácil de se esconder e mais difícil para uma garota escapar, caso tivesse a chance. Poderia se perder ali dentro. As copas das árvores filtravam a luz do sol, tornando o lugar mais escuro, mas Max seguiu por ali assim mesmo. A trilha principal era larga devido ao uso constante, então ele seguiu devagar, atento a marcas de desvio dela.
Conforme avançava, viu um pequeno e rápido brilho vindo de dentro de um arbusto. Voltou para ver o que era. Parecia algo refletindo a luz do sol, como uma moeda ou pedaço de vidro. Se aproximou para ver melhor, afastando as folhagens com as mãos, e encontrou um pequeno cristal azulado. Quando viu aquilo, os olhos de Max se arregalaram. O cristal tinha o símbolo do signo de câncer. Ele havia visto um colar e um par de brincos com pedras exatamente iguais na penteadeira de Annie, na noite anterior.
Começou a vasculhar os arredores daquele arbusto, saindo da trilha principal e se distanciando um pouco, a procura de mais alguma coisa que corroborasse para que aquilo pudesse ser considerado uma pista real. Encontrou alguns galhos quebrados com cerca de dois centímetros de espessura. Não eram finos e frágeis. Alguém havia passado por ali sem se importar com os obstáculos.
Continuou seguindo na direção que aqueles indícios indicavam, sempre vasculhando os arredores com cuidado, procurando por novas pistas. Algum tempo de busca depois, encontrou uma segunda pedrinha azulada. E mais uma. E outra. Aparentemente, Annie deixara uma trilha. “Boa garota. Garota esperta. Estou indo, Annie. Aguente firme”, Max pensou, continuando a avançar em meio à vegetação.
O sol já estava baixando enquanto Max percorria a parte mais remota e pouco explorada do bosque. A temperatura diminuía cada vez mais, assim como a luz disponível. Então ele fechou os olhos e, quando os abriu novamente, seu mundo se iluminou com uma luz dourada, facilitando seu avanço.
Enfim, avistou uma clareira onde podia ver uma cabana entocada no meio da floresta, feita de madeira e pedra, ou pelo menos restos disso. Era um velho casebre em ruínas cercado de neve, mas era o fim da trilha que estava seguindo. Era possível que Annie estivesse ali. Assim como quem a carregara após chacinar os garotos.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário
O Pi

avatar

Mensagens : 88
Data de inscrição : 01/06/2015
Idade : 30

MensagemAssunto: Re: Salem Ao Cair da Noite   Dom Jun 19, 2016 8:49 pm

Duas pelo preço de uma

Salem Willows. Salem, Massachusetts. 21 de Dezembro de 2015.
Max observa a cabana à distância, a procura de alguém ou algo que pudesse denunciar sua presença. Então desativa sua visão iluminada, para que o brilho de seus olhos também não o denunciasse enquanto começava a se aproximar cautelosamente. Ao alcançar a cabana, percebe que a porta da frente estava quebrada, apenas apoiada contra o batente. As janelas também estavam quebradas, então olha furtivamente por uma delas, percebendo uma mesa tombada no chão e, saindo de trás dela, um pé calçando botas e amarrado a uma pilastra dentro da casa.
Em seguida, foi dando a volta e observando pelas outras janelas, tentando discernir se havia mais alguém no local. Não encontra ninguém, mas confirma que o pé pertencia a Annie, que estava deitada no chão, encolhida, com os lábios azulados de frio. Não conseguiu perceber se ela ainda respirava, então Max se apressou a entrar na casa, sacando a faca que trazia oculta pela jaqueta para cortar a corda que a amarrava, e tirando o casaco para envolve-la.
-- Annie? – Ele a chama, tentando checar sua respiração e batimentos cardíacos, mas sem muita certeza. Então começa a esfregar o peito dela, tentando gerar calor. – Maldição, maldição... Por favor, Annie, não morra.
Não sabia se estava funcionando, ela estava muito gelada naquela cabana exposta, sem nenhuma fonte de calor, talvez por toda a noite. No mínimo, estaria com hipotermia. Max se deita sobre ela, tentando ceder calor, enquanto pega o celular e liga para Angela. Porém, a voz que a atende é masculina.
-- Alô?
-- Estou com a Annie! Passa pra Angela, rápido! – Max diz, com urgência.
-- Não vem com essas palhaçadas! – Tyler esbraveja do outro lado da linha. – Seu filho da puta, eu sei que você é um estuprador! Se ligar pra Angela de novo, eu te quebro ao meio! – E desliga o telefone. Max tenta ligar novamente, mas cai na caixa de mensagem.
-- Deus me perdoe pelo que vou fazer com seu cunhado, Annie. – Max pragueja, se levantando e pegando a menina, jogando os braços desta por cima de seus ombros e apoiando suas mãos na bunda e costas dela, de modo que o peito dela continuasse em contato com o seu, e o casaco a protegesse do frio.
Então começou a caminhar para fora da cabana fria e congelada, voltando pelo caminho que fizera, com passos lentos pela dificuldade gerada pela neve adicionada por ter de carregar a garota, sem saber se ainda tinha alguma fagulha de vida nela. Enquanto avançava, Max pedia a Deus por Annie. Que ela ainda estivesse viva. Que sobrevivesse. Que pudesse ser salva.
Max seguia, atento aos seus arredores, ainda temendo que o autor de tudo aquilo pudesse aparecer a qualquer momento. Se sentia exposto e vulnerável, e Annie não tinha tempo para esperar que ele lidasse com possíveis conflitos. Ela precisava ser levada a um hospital com o máximo de urgência. A noite caíra impiedosamente, assim como a temperatura. O investigador continuava, com os olhos emanando um sutil brilho dourado para que pudesse ver por onde seguia. Seu caminho de volta o levou novamente ao parque, vazio e sombrio.
Ele esfregava as mãos nas costas de Annie, enquanto seguia na direção da movimentada avenida que tangenciava o parque. Assim que a alcançou, acenou para um táxi que parou. Max colocou Annie dentro do carro e deu seu destino com urgência.
-- Um hospital, rápido! – O taxista vê a garota e entende, logo acelerando e pegando a via principal. Enquanto isso, o celular de Max toca e ele atende. – Alô?
Porém, a chamada cai e o número no identificador não lhe era conhecido, então ele guarda o celular no bolso e põe a mão no rosto de Annie. Ela ainda estava fria, apesar do aquecedor do carro, então Max esfrega seus braços até que chegam ao Salem Health Center. O táxi para no ambulatório e Max desce às pressas carregando Annie para o pronto atendimento.
A recepcionista pergunta rapidamente o que aconteceu, enquanto pede por enfermeiros para encaminharem Annie. Enquanto isso, Max volta ao táxi para pagar o homem e retorna à recepção, para esperar por notícias. Enquanto isso, tenta ligar para Angela novamente, mas o telefone estava desligado ou fora da área de cobertura. Em um rompante de fúria, Max soca a parede, assustando a recepcionista.
-- Senhor, poderia lhe ajudar em algo?
-- Não, desculpe. É só nervosismo. Sabe sobre a situação da garota que eu trouxe? – Max diz, constrangido, respirando fundo e tentando se acalmar.
-- Ela está sendo medicada agora. Ficará bem, mas talvez demore para acordar. O senhor é o pai ou responsável?
-- Não, sou investigador particular, contratado pela responsável para encontrá-la. Ela estava desaparecida. Estou tentando contatar minha cliente, mas não consigo. Tem algum problema se eu a procurar pessoalmente pra avisar que encontrei a garota e trazê-la aqui?
-- Não, de modo algum. Ela precisa mesmo preencher a papelada. Mas poderia deixar um telefone pra contato?
-- Claro. – Max diz, anotando seu número e o de Angela.
-- Obrigada. Qualquer coisa, entramos em contato.
-- Eu que agradeço. – Max sai do hospital e procura um novo táxi, seguindo até o Molly Bloom’s. A adrenalina em seu sangue era tanta que mal sentia a fome ou cansaço. Tinha achado a garota e ela ficaria bem, o que era um alívio, mas sua irmã não atendia ao telefone em uma situação bastante preocupante.
Ao chegar ao bar, Max pede para o taxista aguardar, enquanto ele entra e procura por Angela, mas ela não estava ali. Tyler também não. Então ele volta ao carro e passa um novo destino, seguindo para o prédio onde ela morava. Ao chegar, pagou o taxista e foi na direção do beco, correndo, dando passos na parede e alcançando a escada de incêndio, que acaba descendo, rangendo e se anunciando.
Não tinha tempo para sutilezas, então ignorou o barulho e se apressou a subir sem se importar em fazer silêncio. Ao chegar ao sexto andar, olha pela janela, percebendo o celular de Angela estourado no chão, a mesinha de centro virada, as cervejas que a vira comprando derramadas. As luzes da sala estavam apagadas, mas conseguia ver pela iluminação vinda do corredor.
“Ah, merda...” Xingou, tentando abrir a janela, mas estava trancada. Então tirou o casaco, envolveu a mão e socou o vidro para abrir caminho. A vidraça se estilhaça, caindo ao chão e anunciando o invasor. Max enfia a mão pelo buraco, destrancando a janela e entrando no apartamento, enquanto Tyler esbraveja do quarto.
-- Que merda é essa?! - Ele pergunta furioso, abrindo a porta e logo chegando à sala.
-- Cadê a Angela? – Max pergunta, encarando-o sério.
-- Seu filho da puta! – Tyler xinga, avançando com seu corpanzil e desferindo um poderoso soco contra Max.
O investigador, porém, deixa fluir a fúria em seu interior. Seus músculos se enrijecem, enquanto seu corpo se adapta à violência iminente. Ele ergue um braço rapidamente para bloquear o golpe que poderia facilmente deslocar algumas mandíbulas, e logo contra-ataca com um soco rápido no peito de Tyler. Este baixa uma das mãos para se defender e acaba abrindo a guarda, então Max aproveita desferindo um gancho carregado contra o queixo largo do adversário.
Um som de trincar é ouvido e sangue escorre da boca de Tyler, mas este não recua um passo sequer, apenas cuspindo para o lado e desferindo um novo soco de boxeador, com toda sua enorme força. Mas mesmo toda a habilidade do gigante não é o suficiente, pois Max gira o corpo, desviando o murro com o cotovelo, enquanto usava o punho livre como um martelo contra a lateral da cabeça de seu oponente, que vai ao chão, desfalecido.
-- Sempre tem um peixe maior, Tyler.
Em seguida, Max salta o imenso homem no chão e avança rapidamente até o quarto, onde encontra Angela. Estava encolhida em um canto, com um corte no lábio, um olho roxo e várias marcas de agressão pelo corpo visível em sua seminudez, parcamente coberta por uma camisola transparente. Lágrimas escorriam de seus olhos amedrontados quando ela encara Max, surpresa.
-- Angela! – Ele corre até ela, pegando-a no colo com cuidado e colocando-a sobre a cama, enquanto ela chorava compulsivamente.
-- A-annie... o-onde... ela está?
-- Ela está bem. Vai ficar bem. Vocês duas vão. – Ele diz, colocando as mãos nos ombros dela e se abaixando para nivelar a altura de seus olhos. – Acho que ela estava com hipotermia, quando a encontrei. Agora ela está no hospital. Vou te levar lá.
-- O-o que você fez? Cadê o Tyler?
-- Está na sala. Ele vai ficar bem, também. – Max responde, indo até o guarda-roupa para apanhar algumas roupas para ela vestir.
-- V-você o matou?
-- Não! – Max responde, se virando para ela, surpreso com a pergunta. – Claro que não!
-- E-ele disse que... que você era um assassino... estuprou uma garota...
-- É, aposto que disse. – Pegou uma calça jeans, camiseta e um casaco, e colocou ao lado dela, sobre a cama.
-- E-ele ficou puto quando você ligou... Falou que era um golpe... E-eu tentei te ligar escondida e... ele... – Angela não consegue continuar, voltando a chorar, escondendo o rosto com as mãos.
-- Tudo bem. Você vai ficar bem, agora. Consegue se vestir? – Ela responde balançando a cabeça afirmativamente, enquanto enxugava as lágrimas do rosto ferido. -- Vou te esperar na sala, tudo bem? – E ela concorda novamente, com a cabeça.
-- O-obrigada...
Max sai do quarto para dar alguma privacidade a ela e volta à sala, encarando Tyler caído no chão. Ele se pergunta se não deveria tê-lo matado, ao pensar na pergunta que Angela fizera. Afinal, era isso que fazia, não é? Protegia os inocentes. Julgava quem cruzava seu caminho. Matava monstros...
“Não”, pensou. Era isso que sua família fazia. Ele herdara aquela fúria que o impulsionava à violência, mas não era um Barghest. Não era um cão negro das encruzilhadas. Não era um lobo da morte caçando no campo de caça de Annwn. Sim, era um caçador das trevas, mas também era diferente disso. Portava um pouco de luz. Tinha seu Geas a honrar. Por pior que Tyler fosse, não caberia a Max decidir sobre sua vida e sua morte. Pelo contrário. Ele poderia se redimir, aprender com seus erros, buscar uma segunda chance. Max teve a sua, não tinha o direito de negar isso a outros.
Max se sentou em uma cadeira e esperou. E esperou. E esperou um pouco mais. Quando se levantou para ir até o corredor chamar por Angela, esta saiu do quarto. Havia escondido as marcas do rosto com maquiagem e estava quase tão bonita quanto costumava ser. Vestia as roupas que Max escolhera e encarou Tyler caído no chão, mas não disse nada. Desviou o olhar e apanhou as chaves sobre a mesa.
-- Vamos...
-- Consegue dirigir? – Max perguntou.
-- Se você puder, vai ser melhor.
-- Claro. – Então estende a mão e ela entrega as chaves. Os dois saem do apartamento, deixando Tyler para trás. Já dentro da caminhonete, com Max na direção e Angela na carona, ele volta a falar. – Depois, podemos ir a delegacia. Eu te acompanho, se quiser.
Ela concorda com a cabeça, ainda sem dizer nada. Depois de algum tempo, porém, Angela quebra o silêncio.
-- Você não... vai ter problemas?
-- Pelo quê? – Max diz, sem tirar os olhos da rua. Não tinha o costume de dirigir, então se mantinha em baixa velocidade.
-- Você... não é fichado na polícia? Isso... não vai te dar problemas?
-- Depende do que você for contar. Até onde eu sei, Tyler estava te agredindo e eu te ajudei.
-- Claro, eu não vou mentir! Eu quero... eu quero aquele desgraçado fora da minha vida... – Ela enxuga as lágrimas antes que começassem a escorrer e borrassem a maquiagem.
-- E eu não sou fichado. – Max adiciona e Angela o observa.
-- Qual é a verdade do que ouvi sobre você?
-- Eu estava no lugar errado e na hora errada. As suspeitas recaíram sobre mim e a mídia me condenou antes mesmo de eu ir a julgamento. – Max explica, tomando cuidado com a direção. – Mas eu nem fui a julgamento. Não havia nenhuma prova que me incriminasse. As investigações me inocentaram, mas não encontraram ninguém pra ficar no meu lugar. E a retratação da mídia não foi tão efetiva quanto a condenação. Então Salem não está sendo o melhor lugar pra eu ficar. As pessoas que se lembram de me ver na televisão me associam com o crime. Eu devia ter ido embora ontem, se não tivesse visto o caso de Annie.
-- Eu sabia que não era verdade... O que você fez... Eu não tenho como agradecer, não tem dinheiro que pague isso. Você foi um anjo. Obrigada. – Max sorri com a comparação.
-- Apenas me prometa que vai parar com as más escolhas. – Ele diz, e Angela ri sem graça com aquela exigência.
-- Eu vou.
Quando chegam ao hospital, Angela desce logo da caminhonete enquanto Max vai estacionar, tendo alguma dificuldade para manobrar um veículo tão grande. Conforme a adrenalina e a fúria passavam, ele começa a sentir fome, sede, cansaço e dor provenientes do longo dia. Depois de descer do carro, avista um McDonald’s ao qual se dirige para comprar algo pra comer.
A lanchonete estava movimentada, mas Max entrou na fila e logo foi atendido, pedindo três sanduíches, com batatas, anéis de cebola e milk-shakes. Após pegar os pedidos, foi para o hospital, encontrando Angela preenchendo a ficha de Annie. Ela acena para Max e ele vai se sentar ao lado dela.
-- Aqui pede exatamente as condições que você a encontrou.
-- Ela estava pálida, com os lábios azuis, gelada, amarrada em uma cabana sem portas ou janelas. Deve ter passado a noite assim, no frio. – Então mostra os lanches. – Não sei se você comeu alguma coisa, mas te trouxe um lanche.
-- Obrigada, estava mesmo faminta. – Diz, pegando um dos sanduíches. – Você viu alguém lá?
-- Não, ninguém. – Responde, também começando a comer.
-- Então o assassino e sequestrador ainda está por aí...
-- Está... – Max confirma, e Angela suspira resignada e dá uma mordida no sanduíche, para depois voltar a falar.
-- Falaram que ela não acorda hoje. Se quiser, não precisa ficar aqui. Pode ir descansar, eu vou dormir no hospital.
-- Não se preocupe, eu estou bem. Você devia aproveitar e requisitar tratamento e um exame para atestar os ferimentos que sofreu. Assim, podemos apresentar na delegacia. – Ao ouvir aqui, ela volta a suspirar.
-- Certo... Vou assim que terminar aqui.
Angela come um sanduíche e toma um milk-shake, então vai até a recepcionista entregar a ficha de Annie e pedir por seu próprio atendimento. Max continua sentado, comendo todo o resto do que comprara, até se saciar. Se levantou e caminhou pela recepção, foi até a calçada olhar os carros passando pela rua, depois voltou. Agora que as coisas haviam se acalmado, Max pensa em tudo o que acontecera.
Ainda não terminara o caso. Não o caso real. Claro, encontrar Annie era o mais importante, mas também era a desculpa para se meter naquilo. Agora que ela estava segura, ele poderia ter problemas se continuasse a procurar o assassino. Precisaria de uma nova justificativa. Logo Annie acordaria e, com sorte, teria alguma informação sobre o que acontecera no parque e quem era seu sequestrador.
Então volta à recepção e se senta em uma cadeira, fechando os olhos para uma cochilada rápida. Porém, sua inconsciência o leva a sonhar e ele encontra Angela nua e assustada em um canto. Max se aproxima, pegando-a no colo, e ela passa os braços ao redor de seu pescoço, abraçando-o e levando a boca ao seu pescoço. Não havia mais medo, mas sim, desejo. Ele acorda e percebe ainda estar no hospital, ficando constrangido pelo sonho que tivera.
Max se levanta e vai ao banheiro, jogar água no rosto. Sentia as costas doloridas pela posição na qual dormira. Quando volta, percebe a claridade do lado de fora. Já estava amanhecendo, então decide falar com a nova recepcionista para saber se poderia ver Annie. Em seguida, segue para o quarto 401, enquanto se esticava e girava o corpo, tentando dar um jeito nas costas. Ele bate na porta, se anunciando, e entra em seguida, encontrando Angela dormindo no sofá-cama, com ataduras no braço e curativos no rosto, e Annie na cama, agora mais corada, distraída com a televisão.
-- Hey, olá, Annie. Como você está? – Max cumprimenta, sussurrando e sorrindo.
-- Ah, oi... – A garota se vira para ele. – Você... é o cara que me salvou, né?
-- Sua irmã me contratou pra te encontrar. Meu nome é Max, muito prazer. – Diz, estendendo a mão para cumprimenta-la, o que ela faz enquanto o encara com uma expressão de estranhamento.
-- Obrigada...
-- Não foi nada. Aqui, tome meu cartão, para o caso de precisar. – Ele diz, pegando um de seus cartões de visita e entregando a ela. – E acho que isso também é seu. – Diz, mostrando um dos cristais de câncer que encontrara. – Foi esperta, Annie. Você mesma se ajudou.
-- Foi tudo o que consegui fazer... – Diz, sorrindo triste. – Tive medo que a neve os cobrisse, ou que ninguém os encontrasse.
-- Eu descobri algumas coisas do que aconteceu, Annie. Soube de como Mark roubou seu livro e o usou para te chantagear a sair com o Harold. Mas o principal, eu ainda não sei. Você poderia me contar o que aconteceu no parque? – Após ouvir aquilo, Annie olha pra irmã dormindo, depois parece pensar um pouco antes de responder.
-- O Mark roubou meu livro, exigiu que eu saísse com o amigo dele, para tê-lo de volta. Eu concordei, mas na hora que cheguei na sorveteria, não estava só o Harold. O Mark e o Douglas também estavam. Eu não quis continuar, então sai. Fui pro parque, eles me seguiram... Iam me forçar... a ficar com eles. E... alguém... eu não... sei quem... fez o que fez, e... eu não lembro de muita coisa. Só de ser carregada para uma cabana abandonada.
-- Entendo. É normal essa confusão na memória, não se preocupe. Foi uma coisa horrível e a mente tem suas formas de se proteger. Mas então você não se lembra como era essa pessoa? Qualquer coisa que você lembrar, já serve. – Max insiste, tendo a impressão de que Annie estava escondendo alguma coisa.
-- Eu não lembro direito... Sinto muito.
-- Tudo bem. O importante é que você está bem. Sabe, enquanto investigava, soube do seu interesse por... assuntos esotéricos. Não conte pra ninguém, mas eu também me interesso um pouco. – Max diz, tentando ser simpático, deixar a garota mais à vontade e ganhar sua confiança. Ela parece ficar surpresa ao ouvir aquilo.
-- Mesmo?
-- Mesmo. Eu realmente acredito que há coisas ocultas dos olhos comuns. Coisas difíceis de entender ou de explicar. Mas nem sempre posso falar sobre isso. Nem todo mundo leva a sério. Mesmo que muitas vezes seja extremamente sério. Você deve entender.
-- Eu sei como é... – Ela diz, mais uma vez olhando para a irmã que dormia. – Você encontrou meu livro?
-- Ainda não, desculpe. Mark não levou com ele pra sorveteria?
-- Não sei, acho que não. Ele não estava com nenhuma bolsa ou mochila. Você precisa encontrar meu livro, posso te contratar pra achar ele?
-- Claro que pode. Acabei de terminar meu último caso. – Max diz, sorrindo e comemorando internamente por ter uma justificativa para se manter no caso.
-- Okay, então procura ele, por favor. – Ela diz, com urgência na voz.
-- Essa é a chave dele? – Max pergunta, retirando do bolso a chave que encontrara dentro do travesseiro de Annie.
-- Sim... – Ela responde, pegando-a.
-- Agora que você é minha cliente, tem de me responder algumas coisas com sinceridade, Annie. Precisa me ajudar a encontrar seu livro, tudo bem?
-- Certo...
-- Se lembra de alguma coisa sobre o que aconteceu no parque? – Max pergunta, sério e, ao ouvir aquilo, Annie comprime os lábios, igual Angela quando não queria dizer algo. Ela olha pras próprias mãos antes de responder.
-- Era uma mulher grande... pele bem branca... usava um vestido branco e... tinha cabelo ruivo. É tudo que lembro.
-- Ela fez aquilo com os garotos e depois te levou pra cabana?
-- Sim.
-- O que você fez enquanto ela estava ocupada com os garotos, Annie?
-- Eu tremi de medo... Não sabia o que fazer. Fiquei paralisada.
-- Entendo. E o que há no livro?
-- Você... acredita mesmo em... coisas sem explicação? – Ela pergunta, como se o analisasse.
-- Muito. – Max responde, tentando passar o máximo de confiança possível.
-- No livro... Eu acho que tem uma forma de achar o assassino, porque... talvez... eu o tenha criado.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário
O Pi

avatar

Mensagens : 88
Data de inscrição : 01/06/2015
Idade : 30

MensagemAssunto: Re: Salem Ao Cair da Noite   Ter Jun 28, 2016 2:13 pm

A boneca de porcelana

Salem Health Center. Salem, Massachusetts. 22 de Dezembro de 2015.
Max estava diante de Annie, ainda tentando entender o que tinha ouvido a garota dizer. Ela acreditava ter criado o assassino que a capturara, mas aquilo parecia meio absurdo. Era praticamente uma criança. Mas ele não sabia o que havia naquele tal livro de bruxaria... O que era preciso para que uma criança se tornasse uma ameaça? Annie olhava insegura para Max, com receio pelo que havia dito.
-- Você acha que... criou... essa mulher de branco? – Max pergunta pausadamente, tentando entender o que ela queria dizer.
-- Ela... é minha boneca.
-- E como você fez isso?
-- No livro havia um feitiço para criar um golem protetor. E... eu segui as instruções. – Ela diz, olhando para Angela. – Eu queria fazer um pra Angie...
-- Entendo... Mas não saiu exatamente como você queria. – Max diz e Annie responde balançando a cabeça negativamente.
-- Eu não queria que ela matasse ninguém...
-- Tem ideia do que ela vá fazer em seguida, ou por que ela te levou e te prendeu?
-- Ela... me protegeu. Matou os garotos que me... ameaçavam, e... me isolou num lugar seguro. Mas não é muito esperta. Não acho que entenda que eu precise de calor ou de comida. Agora, ela deve estar atrás de mim.
-- Não a vi por perto da cabana, quando te encontrei. Acha que esse “golem” pode estar atrás do livro?
-- Acho...
-- Então vamos torcer para eu ser mais esperto que ele.
Annie concorda com a cabeça e, um instante depois, veem Angela começando a se mexer no sofá-cama, coçando os olhos e bocejando.
-- Hm? Hey... Bom dia, vocês dois. – Ela diz, esticando os braços e se sentando.
-- Bom dia. – Max responde. – Estou aqui conhecendo minha outra cliente. Estão com fome? Querem que eu busque alguma coisa?
-- Eu to morrendo de fome, e não to muito a fim de comida de hospital. – Annie diz, sorrindo pra irmã, que se levanta para dar-lhe um beijo na testa.
-- Como você está? Além de faminta, claro. – Angela abre um belo sorriso machucado e abraça Annie.
-- Eu to bem... E você? Foi... ele... que fez isso? – Annie pergunta, se referindo aos curativos da irmã, que suspira passando as mãos nos cabelos da garota.
-- Ele não vai mais ser um problema na nossa vida, eu prometo.
Max sai do quarto satisfeito, com um sorriso no rosto, deixando as duas irmãs se abraçando. No corredor, se encontra com um senhor de idade avançada que vestia um terno e trazia um distintivo no cinto. Ele o reconhece como o detetive Falstaff McBaran, que esteve à frente do caso de Nancy Walker e cuja investigação inocentou Max.
-- Senhor Max MacTíre. Bom dia. – Cumprimentou o detetive de polícia.
-- Ah, bom dia, Detetive. – Cumprimentou, levemente surpreso.
-- Imagino que esteja indo tomar um café. Posso acompanha-lo?
-- Claro, fique à vontade.
McBaran vai caminhando ao lado de Max, enquanto este segue novamente na direção do McDonald’s, a lanchonete mais próxima e que servia café da manhã.
-- Pelo que me informei com a recepcionista do hospital, você encontrou a garota numa cabana abandonada no bosque do parque. Como chegou até ela?
-- Fui até a cena do crime, depois que seu pessoal saiu, e fiz minha própria investigação. – Max respondeu.
-- Eu vou precisar de mais detalhes do que “fiz minha própria investigação”. Até então você apareceu do nada com uma garota desaparecida. Convenhamos que é deveras suspeito.
-- Não exatamente do nada, Detetive. Eu fui contratado pela irmã dela para essa investigação.
-- Entendo. E como a achou?
-- Primeiro, presumi que o bosque seria a saída mais discreta do parque. Uma vez seguindo por ali, fiquei atento a marcas de desvios da trilha principal. Rastros, galhos quebrados, folhas pisoteadas... Acabei encontrando uma pedrinha de uma pulseira que eu sabia pertencer à garota.
-- Ela falou algo do sequestrador? – McBaran pergunta, enquanto chegam ao McDonald’s, onde ele pede um café.
Max pede um McLanche Feliz para Annie, com uma porção de panquecas, xarope, iogurte, uma maçã cortada e uma HelloKitty de plástico. Para ele e Angela, pede dois cafés, bagels com ovos e bacon, e muffins. Após serem atendidos, Max retoma a conversação, respondendo o detetive enquanto faziam o percurso de volta ao hospital.
-- Disse que ficou apavorada e não se lembra muito bem do que aconteceu. Considerando o que eu soube do estado dos corpos dos garotos, não duvido. Estresse pós-traumático é uma merda. – Ao ouvir aquilo, McBaran suspira.
-- Preciso falar com ela.
-- Desejo-lhe sorte, Detetive. Só não lamento por não ter encontrado o sequestrador junto com a menina, porque, na situação de hipotermia em que ela estava, talvez morresse se tivesse de esperar um confronto.
-- É, você deu muita sorte. Ainda bem que a resgatou com vida. Fará bem para sua imagem.
-- Deus sabe o quanto preciso de uma melhora nas relações públicas.
-- Ainda não te esqueceram, não é. A mídia armou um circo com você.
-- Nem fale... – Max comenta, não podendo dizer o quanto realmente armaram com ele no caso de Nancy Walker. Os dois chegam ao quarto de Annie e McBaran bate à porta. Ambos entram após o convite de Angela.
-- Hoje tinha uma promoção diferente. Pedi café da manhã e ganhei um policial de brinde. Alguém quer? – Max brinca.
-- Oh, bom dia, policial. – Angela diz, se levantando da cama.
-- Bom dia, senhoritas Bloom, espero que as duas estejam melhor. – Ele diz, se virando para Angela. – Poderia vir aqui fora comigo, por favor? Precisamos conversar.
-- Claro. – Angela diz, acompanhando McBaran para fora do quarto.
-- Não demore, Annie está faminta. – Max diz, ainda brincando.
Annie olha desconfiada para McBaran, depois para Angela e, após a porta se fechar, para Max. Então pergunta sussurrando.
-- O que está acontecendo?
-- Ele vai te fazer perguntas, precisa saber o que aconteceu pra ter mais chances de pegar o assassino. Mas não acho que ele vai acreditar que foi sua boneca. – Max responde sussurrando e entregando o café da manhã para a garota.
-- Eu sei que não, não vou contar a ele! – Annie pega o lanche, erguendo o brinde de plástico. – HelloKitty? Sério?
-- Não dê vida a ela, por favor. – Max diz, pegando seu bagel e começando a comer, enquanto se sentava no sofá-cama. Annie ameaça jogar o brinquedo nele, mas não o faz, deixando-o de lado para poder se concentrar na comida. – Eu também agradeceria se você não o deixasse pensar que eu tive algo a ver com o caso.
-- Não, claro que não. Você me ajudou... por que ele pensaria isso?
-- É o trabalho dele. Além disso, tenho cara de suspeito.
-- Faz sentido. – Ela diz, sorrindo enquanto pega uma panqueca, enrolando-a para comer.
Logo McBaran volta a abrir a porta, entrando no quarto com Angela, que vai até o café da manhã, pegando seu bagel e sorrindo.
-- Já estão comendo sem mim?!
-- Você deu sorte que a Annie não terminou o dela, senão ficaria sem. – Max disse.
-- É, deu sorte mesmo. – Annie concorda, provocando.
-- Ah, é? – Angela pega o iogurte de Annie. – O que acha disso agora?
-- Hey!
As duas brincam e se provocam um pouco enquanto comiam. McBaran aguarda que terminassem de comer para então pedir para conversar com Annie. Max e Angela saem do quarto para esperar do lado de fora.
-- Como você está? – Max pergunta, lembrando do que ocorrera na noite passada.
-- Fisicamente... mal, mas espiritualmente em paz por tê-la de volta, por ter denunciado o Tyler... Eu estou bem. Vou ficar, pelo menos. E eu estou com uma dívida. Eu quero te pagar pelo que você fez. – Max sorri, ouvindo aquilo.
-- Tem certeza? Eu posso dar o preço agora mesmo, mas não vai poder voltar atrás.
-- Pode falar, sério. Eu tenho condições de pagar.
-- Certo. Você vai ajudar outra pessoa. Ou pessoas, se preferir. Desconhecidos. Gente que você nunca viu. Da mesma forma que eu te procurei pra te ajudar. Não vai se meter em encrenca ou em nada perigoso, por conta disso. Mas você vai pagar o que acha que deve para outras pessoas, que não eu. – Angela ouve aquilo surpresa, absorvendo e pensando na resposta por um instante.
-- Eu... eu pagarei ao próximo desconhecido que puder ajudar. É... algo bem legal... Nossa... É uma atitude muito bacana. – Ela diz, sorrindo.
-- E vai me servir uma cerveja, com um sorriso no rosto. Da última vez que fui no seu bar, o atendimento foi péssimo. – Max complementa, rindo.
-- Vou te servir um barril inteiro, com direito a petiscos.
-- Só não esqueça do sorriso. Fica ótima com ele. – Max diz, sorrindo de lado, e fazendo Angela sorrir meio sem jeito e baixar um pouco o tom de voz.
-- Assim que ficar melhor, mostrarei o melhor deles pra você.
“Ah, droga...” Max pragueja mentalmente, se perguntando o que diabos estava fazendo flertando com a cliente. Não estava em uma casa noturna, de folga, aproveitando uma noitada. Estava no meio de um trabalho. Quando ela retribui o flerte, é a vez de Max sorrir sem jeito. Não devia ter começado aquilo, então tenta mudar de assunto.
-- Então... Acho que Annie também vai ficar bem. Estresse pós-traumático pode ser uma bosta, mas ela parece bem, né?
-- Ela parece bem... Eu espero que ela fique bem. Eu só estou esperando darem alta pra ela. Vou passar no bar, deixar o Fred no comando por hoje e... Tenho que tirar as coisas do Tyler lá de casa, e... Eu não sei como ele vai reagir, espero que a polícia vá atrás dele antes que ele possa resolver sumir.
-- E terá de mandar consertar a janela, eu tive de quebra-la pra entrar. Desculpe por isso.
-- Não, que isso! Por favor, quebre sempre janelas se precisar ajudar alguém. – Ela diz, sorrindo e Max sorri em retorno.
-- Espero que as ajudas não cheguem a um ponto tão drástico. – Ele diz, mas sabia bem que nem sempre se tem o que se espera. Ao ouvir aquilo, Angela para de sorrir, comprimindo os lábios.
-- É... tomara que não cheguem. – Então é a vez de Max parar de sorrir.
-- Ah, desculpe, foi... foi idiota. Eu falei sem pensar, desculpe.
-- Tá tudo bem, tudo ok. – Ela diz, desviando o olhar.
Max se pergunta o que diabos ainda estava fazendo ali. Já devia ter ido embora. Devia estar procurando os pais de Mark Baker. Devia estar fazendo qualquer coisa, menos ficar ali olhando para Angela Bloom e menos ainda flertar com ela.
-- Bem, eu já vou indo. Lembre-se de comprar um celular novo, para o caso de precisar de contato, ok?
-- Certo, vou te ligar quando conseguir um. Qualquer coisa, liga no Molly e deixa um recado.
-- Ok. Mande lembranças para a Annie. – Sorri, se virando e acenando enquanto começava a caminhar para a saída.
-- Até... Hey, não saia de Salem até que eu te pague aquela cerveja, hein?
-- Com o sorriso. – Max diz, erguendo e balançando o dedo para corrigi-la, mas sem olhar para trás. Em sua mente, se recriminava por continuar insistindo no flerte.
Ele deixa o hospital com uma sensação confusa. Uma forte impressão de que algo estava acontecendo. Ele confiava em seus instintos, possuía uma sensibilidade bastante aguçada, mas parecia estar deixando algo passar. Então prefere se focar na investigação em curso, agora que fora contratado para encontrar o livro antes da tal boneca assassina. Enquanto caminhava na direção do ponto de ônibus, pega o celular e liga novamente para Azarias.
-- Alô, Max? – Ele atende, após o telefone chamar algumas vezes.
-- Az, encontrei a garota desaparecida.
-- Viva?
-- Sim. Parece estar bem.
-- Que ótima notícia! Fico feliz de ouvir isso. O que descobriu?
-- Ela me contou uma história estranha, vou precisar da sua ajuda. Ela tem um livro de... bruxaria. Através desse livro, ela tentou criar o que chamou de “um golem protetor”, usando uma boneca. E a coisa saiu de controle.
-- Você disse “golem”? Ela tem um livro e conseguiu fazer algo assim?
-- Bem, foi o que ela disse. Eu não sei, Az. Talvez ela tenha trazido algo de fora por acidente. Quero dizer, é uma boneca. Não tem muita massa. Mas mesmo assim, pelo que ela disse, virou uma mulher grande e forte o bastante pra fazer o que fez.
-- Até onde sei, um livro de magia nas mãos de uma pessoa comum é apenas um livro de receitas, Max. Nenhuma magia realmente funciona sem que a pessoa seja realmente apta a fazê-la funcionar. Se a garota conseguiu fazer algo com a boneca, ela não é uma garota muito comum.
-- É, quanto a isso de garotas não muito comuns... Acho que tem algo de estranho nelas. Não só na garota, mas na irmã e na mãe falecida também. Elas não parecem se dar muito bem com homens.
-- Como assim?
-- A mãe foi morta pelo pai delas. A irmã parece viver uma série de relacionamentos abusivos com artistas de todo tipo. E a garota atraiu os três rapazes mortos, que estavam chantageando-a e talvez até tentassem força-la a algo com eles.
-- O que mais pode me dizer?
-- São ruivas e muito bonitas. Aparentemente, irlandesas. Possuem uma tia, irmã da mãe delas, lá na Irlanda. Também ruiva e bonita, comanda uma empresa de cosméticos. A garota morou algum tempo com ela. Foi essa tia que influenciou o gosto por assuntos esotéricos, além de ter dado o livro e a boneca.
-- Vou pesquisar sobre isso e te retorno. Mas quanto ao tal golem... Do que era feita a boneca?
-- Cerâmica, acho. Ou Porcelana.
-- Faz sentido. Na cabala, da tradição mística do judaísmo, havia a crença no golem, que seria um ser artificial feito de barro, em um processo semelhante ao que Deus havia usado para criar o homem. No caso, seria o homem a criar um ser a sua imagem e conceder o sopro da vida à forma de barro. É possível que a garota tenha mesmo conseguido... alguma coisa... ao replicar o procedimento. Provavelmente, algo deu errado e o resultado foi uma corruptela do que ela desejava criar. Por isso magia é tão perigosa.
-- Algo que eu precise saber, caso o encontre?
-- Eles costumam ser fortes e resistentes, mas sem muita coordenação motora ou capacidade cognitiva. Pode possuir alguma vulnerabilidade específica, de acordo com o procedimento que o criou. Você tem acesso ao livro?
-- Não, ainda estou procurando.
-- Ele pode ter a resposta que você precisa pra lidar com a criatura. Existem vários ritos diferentes. Seria um tiro no escuro tentar descobrir sem o livro.
-- Certo. Obrigado, Az.
-- Por nada. Me mantenha informado de seu progresso.
-- Assim o farei.
-- Que Deus o acompanhe.
Após desligar, Max pesquisa sobre Mark Baker, descobrindo que seus pais se chamavam Jason e Martha, proprietários de uma padaria chamada Mr. Baker, então encontra o endereço no mapa e pega um ônibus para lá. Tinha a esperança de encontrar logo o livro para se livrar do tal golem-boneca homicida que Annie criara.
Enquanto seguia, Max pensava em como abordaria a família Baker, pois estavam em um momento bastante delicado, após a morte do filho. Ao descer do ônibus e caminhar um pouco, encontra a padaria Mr. Baker fechada. Percebe próximo dali um homem alto, com colete de segurança, sentado num banco dentro de uma cabine na entrada de um estacionamento.
-- Bom dia, senhor. – Max cumprimenta, se aproximando do homem.
-- Bom dia. – Responde, olhando suspeito para Max.
-- Eu estava procurando pelo senhor Baker e... – Max aponta com o polegar para a padaria fechada. – Pode me ajudar?
-- Eles perderam o filho antes de ontem. Estão no enterro.
-- Sabe me dizer onde?
-- No cemitério municipal, seguindo pela rua Essex.
-- Obrigado.
Max volta ao ponto de ônibus e segue rumo ao cemitério, chegando em pouco mais de 15 minutos. Era uma paisagem bonita e triste. Era cercado por muros de pedra e possuía um portão duplo de ferro na entrada. A primeira vista era a da capela, e atrás desta via-se as lápides e pessoas reunidas. Max adentra o local, caminhando na direção do grande grupo reunido, a maioria vestida de preto, com aspecto melancólico.
Havia três caixões fechados com coroas de flores e três painéis com as fotos dos três garotos mortos: Mark, Douglas e Harold. O investigador se aproxima, procurando por alguém que, ainda que entristecido, não parecesse tão abalado ou em prantos, para que pudesse conversar. Max reconhece a professora asiática que acompanhara a conversa com Kate e Sandy no dia anterior. Ela tinha um olhar triste, mas não parecia profundamente abalada como os parentes dos garotos.
-- Professora Moore. – Max cumprimenta com um aceno de cabeça, após se aproximar.
-- Olá. – Ela respondeu, olhando-o de lado.
-- Sabe me dizer quem são os pais de Mark Baker, professora?
-- Ah, sim... – Ela diz, movendo o corpo para ver por trás de algumas pessoas que estavam a sua frente, então indica com a cabeça. – Aquele casal abraçado.
Max olha na direção indicada, vendo um casal de meia idade, entre quarenta e cinquenta anos. Jason era mais alto, com cabelos castanhos com as têmporas grisalhas, e queixo quadrado. Martha era baixa, com cabelos cacheados loiros e um pouco acima do peso. Junto a eles, havia um garoto mais novo, parecido com Mark e seu pai, provavelmente o membro mais jovem da família.
-- Soube que encontraram a Annie. – A professora Moore diz. – Foi você?
-- Foi. Estava quase morrendo de hipotermia. Se tivesse demorado mais, teria congelado. – Max responde, gravando a fisionomia da família para abordá-los depois.
-- Como ela está agora?
-- Melhor que o esperado. Apresentou alguma perda de memória, mas é uma garota forte. Vai sobreviver.
-- Que bom. Dos males, o menor. – Então volta a prestar atenção à cerimônia.
Após o padre encerrar sua fala, os caixões são baixados. Max sentia o peso daquelas perdas. Todo aquele sofrimento o fazia sentir-se profundamente mal, fraco e incapaz. Normalmente evitava cemitérios, mas precisava lidar com aquela situação para encontrar o livro e lidar com aquela monstruosidade o quanto antes. Não podia trazer os garotos de volta a vida, mas podia vinga-los e garantir que ninguém mais tivesse o mesmo destino.
Após algum tempo perdido em seus pensamentos, Max finalmente percebe a família Baker seguindo para fora do cemitério. A maioria das pessoas partira primeiro, ficando apenas os familiares mais próximos, mas mesmo esses também seguia para a saída. Max se aproxima, chamando a atenção do casal.
-- Senhor e senhora Baker? – Os dois param e se viram para ele.
-- Pois não? – Pergunta Jason Baker, então Max estende a mão para cumprimenta-lo.
-- Meus pêsames pela sua perda. Não posso sequer imaginar o que estão sentindo. Que Deus possa lhes trazer a paz para seguir em frente, enquanto zela pelo seu filho.
-- Obrigado pelas palavras. – O senhor Baker diz, enquanto sua esposa continuava segurando a mão do filho mais novo.
-- Sei que não é uma boa hora, mas acho que dificilmente haverá uma boa hora para tocar nesse assunto tão doloroso. Desculpe por minha inconveniência. Sou investigador particular. – Diz, entregando um de seus cartões. – Estou envolvido na investigação do ocorrido. Os senhores poderiam me ceder alguma ajuda?
-- A polícia já investigou nossa casa, quer que a gente veja outra pessoa revirando o quarto do nosso filho?
-- Não necessariamente, senhor. Eu estou a procura apenas de um objeto bastante específico, talvez o senhor o tenha visto. É um livro fechado com um cadeado, pertencente à Annie Marie Bloom.
-- Eu não lembro de nenhum livro da menina na nossa casa.
-- Talvez a sua esposa ou seu filho o tenham visto? – Max pergunta, voltando os olhos para os dois, esperando que pudessem responder. Jason olha para Martha, também esperando uma resposta.
-- Eu não me lembro... de ter visto. Mas... não mexi no quarto, desde que... – Ela então volta a chorar.
-- Perdão, senhora. – Max se desculpa, sentindo um peso no peito. Então olha para o garoto. – O rapaz, talvez?
O filho mais jovem dos Baker devia ter entre 11 e 12 anos. Ao ser indagado, trocou olhares com os pais, como se pedindo permissão para falar. O pai devolve o olhar, também esperando por uma resposta. Então ele volta a olhar para Max.
-- A capa é de couro velho?
-- Sim, é um livro antigo, de família. – Max responde, satisfeito.
-- Vi lá em casa, o mano me mostrou. Só não sei onde guardou.
-- O senhor me permitira procura-lo? – Max se volta novamente ao patriarca da família.
-- Que seja. – Jason responde, após um suspiro cansado.
-- Obrigado, senhor.
-- Estamos de carro, o senhor também?
-- Não, senhor.
-- Venha conosco. – Ele chama, voltando a caminhar na direção do carro no estacionamento.
Max entra e se senta no banco de trás, ao lado do garoto, seguindo em silêncio durante todo o percurso. Eles passam em frente à padaria Mr. Baker e pegam uma via local para um setor residencial. Então notam que havia pessoas demais na calçada, todas olhando na direção de uma casa específica.
-- Mas o que está acontecendo? – Estranha o senhor Baker.
Havia algumas pessoas em seu gramado, aparentemente vizinhos preocupados, e a porta da casa estava quebrada. “Não, não, não pode ser...” Max pensava, imaginando o que teria acontecido. “Espero que você tenha sido bom em esconder o livro, Mark”.
-- Martha, não saia do carro. Fique com o Matt. – Jason diz, descendo do carro, sendo acompanhado por Max.
-- Não sabemos o que houve, Jason. – Disse um dos vizinhos, enquanto eles passavam. – Só ouvimos os barulhos, mas já chamamos a polícia.
Jason Baker acena com a cabeça, enquanto se aproximava da porta cautelosamente, com Max em seus calcanhares. Ao passarem pela porta arrombada, se deparam com um cenário de caos. Aparentemente, alguém entrara e começara a destruir tudo. A TV estava no chão, o sofá de couro estava rasgado, as almofadas em pedaços, mesas e cadeiras viradas ou quebradas... A cozinha não estava melhor, com pratos quebrados, talheres espalhados, água vazando de um cano retorcido...
-- Céus... – Max exclama para si mesmo, olhando ao redor, a procura do quarto de Mark.
-- Vou fechar o registro. – Jason diz, ao ver a água empoçando.
Max encontra um corredor com quatro quartos, todos com as portas abertas e as camas reviradas, armários derrubados, roupas e pertences espalhados. Ele identifica o quarto de Mark pelos pôsteres de futebol americano e entra, olhando ao redor. Toda aquela destruição poderia indicar que o livro não fora encontrado, gerando frustração e uma resposta violenta. “Graças a Deus, os Bakers não estavam em casa”.
Então começa a revirar as coisas, tirando os entulhos do caminho enquanto procurava por um esconderijo que não tivesse sido encontrado pelo invasor. Pelo menos, estava contando com isso. De repente, seu celular toca. Sem interromper a busca, Max atende.
-- Alô?
-- Oi, Max. – Era a voz de Angela. – Consegui um novo número.
-- Oi, Angela. Que bom – Aquele realmente não era o momento. – Estou no meio de uma coisa agora, te retorno assim que possível, ok?
-- Ah, ok. Só avisando. Até mais, beijos.
-- Beijos. – Desliga, pensando que deveria ter dito “Até”, quando encontra um assoalho frouxo que ficaria embaixo da cama, se esta não estivesse virada.
Ele se ajoelha e retira o assoalho do lugar, encontrando um pequeno cofre, do tamanho de uma bola de futebol. Apanha o celular, pegando a sequência numérica encontrada no caderno do rapaz: 4, 9, 3, 6, 1. A porta do cofre se abre, revelando alguns objetos pessoas, e um livro de couro velho fechado com um cadeado. “Rá!”
Apanha o livro, colocando-o debaixo do braço, por dentro do casaco, fecha o cofre e se levanta, saindo para os fundos da casa, enquanto ouvia as sirenes da polícia se aproximando. O senhor Baker não estava ali, provavelmente indo pra frente da casa receber os policiais, então Max continua seguindo discretamente passando para o terreno da outra casa, saltando uma cerca baixa, enquanto vigiava para garantir que não estava sendo observado.
Ao alcançar a rua de baixo, começa a caminhar na direção do ponto de ônibus mais próximo. Havia recuperado o livro, agora era uma questão de tempo até descobrir como desfazer o golem assassino que Annie criara. Então seu celular toca novamente, com o nome de Azarias no identificador.
-- Alô, Az?
-- Olá, Max. Fiz uma pesquisa usando as informações que você me passou sobre a garota e a família dela.
-- Encontrou alguma coisa?
-- Acho que sim. Preciso que você me confirme algumas coisas.
-- Claro, pode falar.
-- Você disse que elas são bonitas. O quão bonitas você diria?
-- Hã... Bem... Acho que... Muito, Az. Annie ainda é uma garota, mas a irmã dela é desconcertantemente atraente.
-- E são artistas?
-- São. Annie pinta e desenha, Angela toca violão, a mãe delas também pintava... Pode-se dizer que são bem artistas. O que isso tem a ver?
-- As coisas estão se encaixando. Você disse que os companheiros delas também são artistas? Pessoas dotadas criativamente falando?
-- Está me assustando, Az. Quero dizer, Angela disse que tem uma queda por artistas. Namorou pintor, músico... O que descobriu?
-- Eu não tenho certeza, mas essas características batem com o mito irlandês das Leanan Sidhe.
-- Sidhe? Como de Tuatha dé Danann? Isso não são como... sei lá... elfos? Fadas? – Max pergunta, em dúvida. As tradições de sua família diziam que eles eram Tuatha dé Mor-Ríoghain, o Povo da deusa Mórrigan, inimigos dos Tuatha dé Danann, o Povo da deusa Danú. Mas aquilo era mais mitologia e lendas antigas, com o objetivo de passar mensagens relevantes através das gerações, não exatamente fatos reais.
-- As Leanan Sidhe são descritas tanto como musas quanto como demônios, um tipo de vampiro mitológico da Irlanda. Essas “fadas” seriam belas mulheres que inspiravam músicos e poetas, mas ao preço de suas vidas. Ela fazia do artista seu amante, partilhando com ele sua inteligência, criatividade e magia, mas quando ela fosse embora, o homem ficaria tão deprimido que morreria. As Leanan Sidhe então levariam o amante morto de volta ao covil. Invés de sugar seu sangue, elas o recolhiam em um caldeirão enorme, que era a fonte de sua beleza e inspiração artística.
-- Putamerda...
-- Eu não acho que essa garota seja de fato uma Leanan Sidhe como eu descrevi, mas elas podem descender de uma criatura aparentada. Desta forma, herdando um pouco das principais características. – Max engoliu em seco. Sabia bem como funcionava esse tipo de herança.
-- E o que... o que eu posso esperar disso?
-- Atração. Se chegar a se envolver com elas e tiver pouca força de vontade, pode ser consumido pelo desejo e se tornar possessivo, agressivo...
-- Isso explica muuuita coisa.
-- Eu encontrei algo que talvez te ajude. É um rito simples, talvez funcione. Pegue algumas pedras de um rio. Coloque debaixo da cama, reze por proteção contra a tentação da luxúria e durma. No dia seguinte, pegue uma dessas pedras e use-as como um colar por dentro da roupa. Se der certo, vai te ajudar a se proteger do encanto da Leanan Sidhe por todo o dia.
-- Ufa, vale a pena tentar. Obrigado, Az.
-- Tome cuidado, Max. Que Deus lhe proteja.
Após desligar, já pesquisa no celular onde encontraria o rio mais próximo, e descobre um ônibus turístico que levava até o rio Ipswich. A viagem levava cerca de 40 minutos, e a passagem era pouco mais cara. Havia cachoeiras e resorts na margem, além de artesanatos variados. Decide aproveitar o dia para ir logo, assim já teria as pedras ainda naquela noite. Enquanto isso, retorna a ligação de Angela.
-- Alô? – Ela atende.
-- Oi, sou eu, Max. Desculpe não poder falar contigo aquela hora.
-- Não, tá tudo bem. Eu estou no shopping com a Annie. Ainda não voltamos pra casa... E você, está resolvendo outro caso? – Ela pergunta, com a voz risonha.
-- É, pode-se dizer que sim. Então Annie já recebeu alta?
-- Uhum. Recomendaram muito chocolate quente e ela está se aproveitando disso.
-- Bem, agora estou achando que passei muito tempo no frio, enquanto carregava ela. Mande-a guardar minha parte. – Angela ri e repete, para então passar a resposta da irmã.
-- Ela falou que é bom você se apressar.
-- Haha, tentarei. Você queria dizer alguma coisa ou era só pra me avisar do novo contato mesmo?
-- Era só isso mesmo... você pediu pra avisar, lembra?
-- Sim, sim, só estou confirmando. Diga-me, está receosa de voltar pra casa? – Angela fica em silêncio por alguns instantes após ouvir aquilo.
-- Tá meio óbvio, né?
-- Quer que eu vá com vocês?
-- Não posso ficar abusando da sua boa vontade. Você nem quer que eu te pague em dinheiro. Acho errado ficar te fazendo de guarda-costas agora.
-- Você é que sabe. De qualquer forma, tenho que encontrar minha cliente preferida hoje, mais tarde.
-- Quer dizer que seu contrato comigo acabou, mas com ela não, é? – Perguntou, brincando.
-- Eu diria que sim, a não ser que você esteja insatisfeita com essa irmã que encontrei pra você. Posso procurar outra, se quiser. – Ela ri do outro lado da linha.
-- Se estou satisfeita com a irmã que me encontrou? Hmm, acho que vou te responder quando a conta da cafeteria chegar.
-- Ok, já vi uma garota ali que pode servir, você pode me trazer uma corda?
-- Hahaha, claro! Vou levar a corda e você trás essa aí pra fazer a troca! – Então Max ouve alguns barulhos e a voz que volta a falar é de Annie.
-- Você devia estar trabalhando, não?
-- Não pra você. Já resolvi seu caso.
-- Resolveu?!
-- Estou com ele aqui comigo. E você estava certa. Sua amiga também está procurando por ele.
-- Hmm... então, você vai lá em casa mais tarde? Por que não encontra a gente no shopping? Vem almoçar por aqui. – A voz de Angela podia ser ouvida ao fundo, reclamando que Annie podia estar sendo impertinente, atrapalhando o trabalho de Max.
-- Estou resolvendo algumas coisas. Ainda demoro a ficar livre. Não conseguiria chegar a tempo pro almoço.
-- Hm, tá. Que horas, então?
-- Daqui umas três horas, na central de ônibus. Compre uma pizza pra mim.
-- Vou pensar no seu caso. – Novamente os barulhos do telefone passando de mãos, e Angela volta a falar, rindo.
-- O que vocês tanto combinam, hein?
-- Minha próxima refeição em boa companhia.
-- Aham, sei. No Molly?
-- Onde preferir. Poderia aproveitar essa desculpa pra que eu acompanhe vocês até em casa.
-- É poderia... Acho que vou usá-la.
-- Nos vemos mais tarde, então.
-- Fechado. Até mais tarde. Beijos.
-- Beijos. – E desligou, pensando que precisava mesmo daquelas pedras de rio.
Ao final da viagem, o ônibus passa por uma ponte e para em uma vila cheia de lojas de artesanatos e souvenires. Max desce do veículo e vai caminhando na direção da ponte pela qual passaram, descendo com cuidado até a beira da água, onde vê inúmeros seixos, apanhando alguns. Pareciam pequenas pedras de gelo em seus dedos, então logo os enfiou no bolso do casaco.
“Toda essa viagem por umas pedrinhas...” Voltou onde poderia pegar o ônibus de volta e acabou comprando de um artesão local um colar com uma redinha ao redor de uma pedra. Ele poderia trocar a do colar por uma das que pegara, pra usar por dentro da roupa. Enquanto aguardava o ônibus, pensava sobre o que estava fazendo. Fizera todo aquele percurso apenas pra isso. Seria esse o poder de uma “musa”? Fazer um homem agir de forma absurda e fazer coisas que normalmente não faria, apenas para poder ficar próximo a ela? Talvez já tivesse ficado maluco em sua tentativa de evitar ficar maluco.
Cochilou no caminho de volta e desceu na central de ônibus faminto por não ter almoçado. Já se passava das três da tarde e sonhava com as tais pizzas que pedira, então pegou o celular e ligou para Angela.
-- Oi! Já estamos na pizzaria pegando o pedido.
-- Já estou livre. Vocês me buscam?
-- Aham, logo chegamos aí na central, né?
-- Sim, estou esperando. Obrigado.
-- De nada. Vou desligar, beijos. – E desliga.
Max enfia a mão no bolso e segura algumas das pedras ali, enquanto seguia para o estacionamento, esperando por sua carona. Uma fina camada de neve começa a cobrir seus cabelos e barba, quando enfim a caminhonete de Angela chega. Ela desce o vidro da porta do motorista e acena, chamando-o com a mão. Era desconcertante o quanto ela conseguia ser atraente mesmo toda machucada. Annie estava ao lado dela, então Max entra e se senta no banco de trás, onde via as caixas e sentia o cheiro das pizzas.
-- Hey! Caramba, estou faminto.
-- Pode pegar aí, já estão cortadas. Tem de pepperoni e de frango.
-- Obrigado.
-- Agora, pra casa, né? – Annie perguntou.
-- É, vamos. – Angela respondeu, dando partida no carro e começando a dirigir, enquanto Max comia um pedaço de cada pizza para acalmar o estômago.
Ela dirigia bem e rápido, mesmo nas ruas congeladas e esburacadas. Em pouco tempo, chegam ao prédio onde moravam, estacionando no subsolo. Max desce do carro carregando as caixas de pizza e os três seguem para o elevador.
-- Que estranho não usar as escadas de incêndio. – Max comenta, rindo.
-- Se preferir, é só dar a volta. – Angela responde, também rindo, mas parecendo incomodada com algo. Ela comprimia os lábios, apertava as mãos, respirava fazendo longas pausas... Parecia ansiosa.
-- Tudo bem?
-- To bem... – Ela responde.
-- Está tudo bem agora, ok? Vai ficar tudo bem.
-- É... É, eu sei que sim. Tá tudo bem. – Ela diz, não muito confiante.
-- O que acha, Annie?
-- Eu acho que o otário do Tyler não vai mais voltar aqui, ou vai apanhar de novo. – E sorri confiante. Max ergue o punho pra ela e a garota dá um soquinho de cumplicidade.
-- Não é isso, mas... esquece... – Angela diz, quando o elevador chega ao sexto andar. Eles saem para o corredor e ela parecia respirar menos a cada passo.
-- Hã... Annie, você leva as pizzas? – Max diz, estendendo as caixas pra garota.
-- Uhum. – Responde, pegando as caixas e olhando pra irmã que parecia perdida encarando o fim do corredor. Max passa um braço ao redor dos ombros de Angela.
-- Tudo bem, respire, vamos lá. – Max diz e ela respira fundo, soltando o ar e depois respirando de novo e de novo.
Ele a acompanha até a porta do apartamento, por onde passa um vento frio quando é aberta. A janela quebrada na noite anterior esfriara todo o apartamento.
-- Ah, droga. Minha culpa. – Max diz, arrancando a tampa de uma das caixas de pizza e encaixando-a na janela para bloquear o vento frio.
Annie coloca as pizzas sobre a mesa e pega um pano para limpar a neve que entrara. Enquanto isso, Angela para na porta, assimilando que estava segura ali. Depois de o buraco ser vedado e o chão limpo, aumentaram o termostato ao máximo para aquecer o apartamento. Angela se sentou no sofá, olhando a casa bagunçada.
-- Acho que podíamos ter ido no Molly pra evitar essa bagunça...
-- Não pode evita-la pra sempre, Angie. – Max responde.
-- Ele tem razão. Você falou pra tia que dava conta, você tem que dar conta. – Annie completou.
-- Eu sei... Eu sei...
-- Que tal comer uma boa pizza, antes que esfrie? – Max ofereceu, pegando um pedaço.
-- Okay... – Angela responde, sorrindo e se levantando para ir à cozinha, pegar pratos e talheres.
-- Onde está? – Annie pergunta sussurrando, depois de Angela sair. Max retira o livro de dentro do casaco e entrega.
-- Ainda precisamos conversar sobre isso, ok? – Diz, também sussurrando.
-- Certo. Também quero saber sobre você.
-- Vamos ter muito o que conversar. Somos parceiros, agora. – Max diz, sorrindo e passando confiança e cumplicidade. Precisaria que Annie cooperasse, se quisesse descobrir realmente com o que estava lidando ali.
-- Tá, mas... você tem que ter cuidado. Os caras que ficam perto da Angie... Eles acabam pirados. Você não pode acabar assim também.
-- Vamos conversar sobre isso também.
Angela volta com pratos, talheres, duas cervejas e um refrigerante para Annie, dispondo tudo sobre a mesa. Então abre uma das cervejas e entrega para Max.
-- Essa ainda não é “aquela” cerveja, que fique claro. – Ela diz, sorrindo meio sem jeito, lembrando o flerte que tiveram pela manhã.
-- É bom mesmo, não tente me enganar. – Max responde, dando um gole.
Os três comem e conversam sobre trivialidades, localidades em Salem, brincadeiras entre irmãs, curiosidades sobre a vida de investigador particular de Max e assuntos aleatórios. A noite vai caindo e Angela começa a arrumar as coisas, deixando Max com Annie, que sussurra depois que a irmã se afasta.
-- Só uma pergunta: Encontrou a boneca?
-- Não, mas ela esteve na casa do Mark procurando o livro. Destruiu o local todo.
-- Sério?! – Ela se espanta.
-- Sim. Os Bakers não estão tendo uma boa semana. – Max responde, sério.
-- Hmm... Eu vou tentar desfazer, mas vou precisar de alguns ingredientes. A Angela não vai querer sair de casa agora pra ir numa loja de especiarias.
-- Não vou deixar vocês sozinhas também. Fazemos isso amanhã.
-- Vai dormir aqui?
-- Vou tentar NÃO dormir. Mas seria melhor passar a noite aqui do que lá fora, no frio. Se a boneca vier atrás de você e do livro, preciso estar por perto.
-- Eu te ajudo a convencer a Angie. Precisamos fazer ela perder a noção do tempo. Tive uma ideia. – Então eleva a voz, chamando a irmã. – Ô, Angie!
-- Fala. – Angela responde, de longe.
-- Deixa pra arrumar a casa depois, pega o violão. Você só toca com a banda do Tyler, toca pra gente hoje.
-- Haha, não sei, não, Annie.
-- Temos bebida, temos comida, está faltando música, mesmo. – Max complementa.
Enfim, Angela cede aos pedidos, buscando o violão e se sentando no sofá com as pernas cruzadas. Depois de afinar, começa a dedilhar uma canção do Bon Jovi, “Wanted dead or alive”, e logo começa a cantar. A voz dela era incrível, atingindo notas muito altas sem desafinar, mantendo um ritmo harmonioso, proporcionando um verdadeiro espetáculo.
Max fica boquiaberto e começava a compreender porque ela levava os homens à insanidade. Seu coração batia forte no peito, e ele se sentia inspirado a fazer qualquer coisa. Angela parecia a mulher perfeita e despertava o desejo de permanecer próximo a ela misturado com a preocupação que mais algum cara lhe fizesse mal novamente. Afinal, poderia mesmo vir a terminar como sua mãe.
-- Isso foi... – Max pisca, se situando novamente de onde estava, então tenta não transparecer demais o que sentia. – Foi... muito legal, Angie. Você é... muito boa.
Ela sorri e já embala outra canção. E depois outra. O tempo passava com uma música seguida da outra. Max se via confuso, em uma atmosfera de sonho acordado, quase como se estivesse drogado. Era prazeroso, mas ao mesmo tempo perigoso. Annie já estava sonolenta e começa a bocejar, então Angela finalmente encerra a última música.
-- Hey... Perdemos a hora, está tarde, você precisa dormir.
-- Hmm... É, tá tarde... – Annie boceja novamente. – O Max devia dormir aqui, tá tarde pra pegar ônibus.
-- Ah, bem, se você quiser... – Angela olha para Max. – Eu só não arrumei muito a casa ainda.
-- Se não for um incômodo... Eu me viro aqui no sofá mesmo, posso sair amanhã bem cedo. Não precisa se preocupar comigo.
-- Eu vou pegar um cobertor, pelo menos. – Angela sorri, colocando o braço nos ombros de Annie pra acompanha-la até o quarto.
-- Obrigado. Boa noite, Annie.
-- Boa noite... – Ela responde, seguindo com a irmã pelo corredor.
Alguns minutos depois, Angela retorna com um travesseiro e dois cobertores, usando um pra forrar o sofá e entregando o outro.
-- Hey, se você quiser tomar um banho também, eu posso te arrumar umas roupas do Tyler. Ele não tá aqui pra se importar. – Angela oferece, e Max puxa a camiseta que usava e cheira, lembrando que já era a segunda noite que passaria com aquelas roupas. Devia ter passado no hotel.
-- Acho que vou aceitar. Não quero encher seu sofá de pulgas. – Max diz, rindo e fazendo Angela sorrir.
-- Tem toalha limpa no banheiro, vou separar umas roupas.
-- Obrigado. – Max vai até o banheiro, onde se livra das roupas que usara durante toda a investigação e resgate de Annie, depois passara a noite no hospital e continuara durante todo aquele dia. Toma um banho para ajuda-lo a ficar acordado, mesmo com a noite anterior mal dormida. A água quente relaxou o corpo tenso e deu-lhe um novo ânimo. Quando saiu enrolado na toalha, encontrou Angela esperando no corredor com as roupas em mãos. Por um momento, os dois se olharam e se fez um silêncio constrangedor, que ela então se apressou em quebrar.
-- Aqui está! Camiseta, calça, cueca... Espero que sirvam.
-- Hã... Tudo bem se eu dispensar a cueca? É meio... estranho. – Max diz, não muito confortável com a ideia de compartilhar da roupa íntima de Tyler, fazendo Angela rir.
-- É nova, não se preocupe. Era pra ser um presente, mas... bem, você pode ficar com ela. – Ela diz, mostrando uma cueca samba canção com uma grande elipse amarela e um morcego preto em seu interior, símbolo do Batman, ainda no pacote. Max ri aliviado e pega as roupas.
-- Ah, tudo bem, então. Obrigado.
-- Se precisar de mais alguma coisa, é só falar.
-- Claro, obrigado. – Diz e volta ao banheiro para se vestir, enquanto Angela segue para seu quarto.
As roupas de Tyler ficavam frouxas em Max, o que era difícil de acontecer, mas serviam bem ao propósito. Então apanha suas roupas sujas e leva consigo, deixando-as ao lado do sofá. Limpo, enrolado no cobertor e sentado no sofá, Max sente o sono se aproximar, então se levanta para olhar pela janela, ou o que sobrara dela. Seus olhos brilham dourado, permitindo que ele enxergasse no escuro como se o mundo fosse todo iluminado por uma luz dourada. A rua estava vazia e quieta, sem nada que lhe chamasse a atenção.
Depois de algum tempo vigiando a janela, Max se cansa e se afasta. Duvidava que a criatura houvesse desistido de seus propósitos. E ambos estavam ali: Annie e o livro que a criara. Se não naquela noite, seria no dia seguinte, mas ela certamente apareceria. O investigador vai à cozinha, beber um copo de água, depois vai ao banheiro, jogar água no rosto, fazendo o possível para se manter acordado.
Então, no silêncio da noite, Max ouve um baixo ranger de metal no frio, vindo do lado de fora. Era um barulho sutil, discreto, mas ele confiava bastante tanto em sua audição quanto em seu instinto, então voltou cautelosamente pelo corredor, se encostando na parede próximo à quina, para não ser visto pela janela enquanto espiava, esperando atentamente.
Conforme se dava a aproximação, ele conseguia discernir os passos pesados avançando pela escada de incêndio, até alcançar o sexto andar. O corpo do lado de fora, revelado pela parca iluminação da lua, era enorme, maior até mesmo que Tyler, com pelo menos dois metros de altura. Uma mãozorra empurra a cobertura improvisada com caixa de pizza e abre a janela.
A criatura era uma bizarrice semelhante a uma boneca de porcelana gigante, meio derretida em alguns pontos, com veios negros maculando sua brancura... exceto pelos olhos. Não eram olhos de boneca. Eram olhos de verdade, quatro deles, mergulhados na brancura de porcelana derretida, se fundindo espalhando veios vermelhos assustadores.
O cabelo vermelho parecia sangue e se movia preguiçosamente como tentáculos, da mesma forma que o vestido branco, que também parecia meio líquido e tentacular. Era uma coisa absurdamente bizarra e horrenda, e sua mera visão fez Max prender a respiração por um instante, conforme sua mente consciente lutava contra o pânico e retomava o controle.
Sem parar para pensar muito, Max sai de seu esconderijo, se movendo rapidamente na direção da hedionda criatura, saltando e golpeando o peito dela com toda a força dos dois pés. Colocara toda sua fúria e ferocidade naquele ataque, na intenção de vingar todo o sofrimento que aquela criatura causara. O monstro é pego de surpresa e empurrado violentamente para trás, não sendo ágil o bastante para se segurar, caindo pra fora da escada de incêndio e girando no ar conforme faz seu caminho de volta do sexto andar até o chão do beco. A escada sacode e o som de algo grande e pesado se quebrando é ouvido lá embaixo.
Então Max se levanta rapidamente e olha pela janela, os olhos brilhando em dourado, para ver o estado da coisa lá embaixo. Ela parecia quebrada, os membros virados em ângulos impossíveis, inúmeras rachaduras... Então ele se volta para dentro, apagando o brilho dos olhos e caminhando na direção do quarto de Angela, atento para ver se ouvia algum barulho que indicasse que ela pudesse ter acordado. Porém, mal chega ao corredor, as portas de ambos os quartos se abrem, com Angela e Annie saindo assustadas.
-- O que aconteceu?! – Angela pergunta, amarrando a faixa do robe.
-- Hã... – Max aponta com o polegar pra escada atrás de si. – Acho que... alguém caiu da escada de incêndio. Fiquem aqui, vou descer lá pra ver, ok?
-- O-ok... – Angela responde, apreensiva, cruzando os braços à frente do corpo, como se auto-abraçando.
Max enfia os pés nos tênis e veste seu casaco, saindo pela janela e descendo as escadas apressadamente. Algumas luzes se acendiam e pessoas curiosas ou preocupadas começavam a surgir para ver o que havia sido aquele barulho. Seu coração batia rápido. Não havia como explicar aquela enorme boneca de dois metros de altura com os olhos dos garotos mortos. Não haveria tempo para se livrar do corpo. Poderia ser preso pelos assassinatos, acusado de ter arrancado os olhos ele mesmo para construir aquela bizarra “estátua”.
Quando saltou ao chão, não encontrou a imensa criatura, mas sim uma pequena boneca quebrada de apenas 30 cm, sem os olhos. Ao redor dela, havia rachaduras no chão e também uma gosma branca e vermelha que parecia estar evaporando extremamente rápido. Max reconhece aquela substância como ectoplasma, uma matéria efêmera materializada, provavelmente pela coisa que animara a boneca, para ficar maior e mais forte. Os quatro olhos humanos também estavam caídos ali próximo, então Max os chuta para debaixo de uma caçamba de lixo, enquanto apanha a boneca quebrada e a enfia no bolso do casaco. Logo em seguida, um guarda chega com uma lanterna.
-- Ei, você! O que está fazendo aqui?
-- Ouvi um barulho e vim ver o que era. O pessoal todo ficou preocupado. – Ele diz, apontando as luzes acesas e pessoas nas janelas. O guarda olha pro alto e depois volta a olhá-lo desconfiado.
-- Volta pra casa, senhor. Pode deixar comigo.
-- Certo, obrigado. – Max responde e volta a subir pela escada de incêndio, encontrando Angela e Annie com aspectos preocupados. – Tem um vigilante lá, agora. Ele deve resolver seja lá o que for que aconteceu.
-- Encontrou algo? Acha que... era o Tyler? – Angela pergunta, apreensiva.
-- Não mesmo. Apostaria mais em algum bêbado azarado. Tinha uma garrafa quebrada lá, e eu tenho quase certeza que ouvi o barulho de algo quebrando.
-- Okay... Esse bairro tá péssimo, vou me mudar assim que der. – Ela diz, confiando nas palavras de Max.
-- É uma boa.
-- Mana, me pega um copo de água? – Annie pede.
-- Pego... – Angela responde, parecendo estar precisando de um copo de água também, saindo pra cozinha. Annie então encara Max, como se esperando que ele dissesse algo. Ele retira a boneca quebrada do bolso e entrega pra ela, que a pega com os olhos arregalados.
-- Você...? – Ela sussurra, olhando pra ele incrédula. Max apenas sorri de leve e confirma com um aceno de cabeça. Ela abre um sorriso largo. – Você é foda!
Max sorri satisfeito com o dever cumprido, enquanto Angela volta da cozinha com o copo de água, virando a cabeça de lado, olhando a boneca.
-- Ué, achou? Ih, tá quebrada...
-- Uhum. Mas tudo bem. Já to grande pra brincar com boneca.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário
O Pi

avatar

Mensagens : 88
Data de inscrição : 01/06/2015
Idade : 30

MensagemAssunto: Re: Salem Ao Cair da Noite   Seg Set 19, 2016 10:25 pm

Beleza perigosa

Hawthrone Hotel. Salem, Massachusetts. 23 de Dezembro de 2015.
Max voltara para seu quarto de hotel bem cedo no dia seguinte. Comeu um pedaço de pizza, deixou as roupas de Tyler no sofá de Angela, mantendo apenas a cueca que ganhara, e aproveitou para já fazer seus exercícios matinais, antes de cair na cama mais uma vez e dormir pesadamente. Lembrou apenas de jogar as pedras de rio embaixo da cama e fazer a oração sugerida por Azarias.
Acordou faminto e pediu serviço de quarto, em seguida apanhou uma pedra de rio e colocou no lugar da que tinha no colar de artesanato que comprara, então a pendurou no pescoço, sentindo-a fria no peito. Em seguida, ligou para Az e relatou o que havia acontecido, deixando o padre impressionado e feliz pelo bom trabalho de seu caçador. Havia uma chamada perdida de Angela, então retornou.
-- Alô, Max?
-- Angela? Acabei de ver sua ligação.
-- Ah, você saiu cedo, nem falou nada. Como você está? Ainda na cidade?
-- Não queria incomodar. Estou bem, ainda em Salem. Estou com umas pendências por aqui.
-- Entendi. Olha, eu estava comentando com a Annie sobre o natal e pensamos em te chamar. Se você quiser, claro. Todo ano a gente faz uma ceia com os funcionários do Molly. Vai ser hoje.
-- Ah, claro, seria ótimo. Aceito, sim. Obrigado pelo convite.
-- Ótimo, vai ser lá no Molly mesmo, às 20h. – Diz, com uma voz animada.
-- Hoje, às 20h? Combinado.
-- Então até lá. Vou criar coragem pra sair de casa, agora. Enfrentar umas filas pré-natalinas vai ser o ponto alto do dia. – Diz, rindo do infortúnio.
-- Hahaha, se precisar de ajuda com alguma coisa, é só dizer. Annie vai contigo?
-- Acho que ela não vai querer ir. Vai ser chato.
-- Bem, se precisar de companhia, pra você ou pra ela, é só avisar.
-- Posso precisar de ombros fortes pra carregar as compras, topa?
-- Claro. Se vou aproveitar a festa, que ajude a prepará-la.
-- Ok, vou no Green Grocery. Quer que eu te busque?
-- Facilitaria minha vida. Estou no Hawthrone Hotel, perto do Museu das Bruxas.
-- Em uma hora estou por aí. Até mais, beijos.
-- Até, beijos.
Após desligar o telefone, Max segura a pedra pendurada no pescoço. “Agora é a hora da verdade”. Então troca de roupa, come e desce para esperar o carro de Angela. Havia nevado bastante, e crianças brincavam de jogar bolas de neve e fazer bonecos de neve. Angela acenou de dentro do carro e Max foi até, entrando e sentando no banco do carona. O rosto dela parecia melhor e não se via mais os hematomas. Ou haviam se curado, ou estavam ocultos com maquiagem. Estava mais bonita do que nunca, sem a tristeza da irmã desaparecida ou os ferimentos do namorado violento para macularem sua beleza. Max instantaneamente se tornou ciente da pedra fria tocando seu peito por baixo das roupas.
-- Hey, você está ótima.
-- É, a maquiagem ajuda. – Diz, rindo e dando a partida no carro. – Então, viu o noticiário?
-- Falaram sobre o caso, citaram que você a encontrou e tudo.
-- Eu apareci? Alguma foto ou algo assim?
-- Não, só falaram seu nome mesmo. Queriam entrevistar a Annie hoje.
-- Imaginei... – Max diz, pois sabia que não mostrariam uma imagem positiva sua. Ninguém lembraria de seu nome por esse caso, mas demorariam a esquecer seu rosto pelo anterior.
-- Algum problema?
-- Agora, nenhum. Acho que está tudo ótimo e se encaminhando.
-- Que bom. – Sorri, seguindo o caminho para o Green Grocery, onde estacionam, descem do carro e adentram o mercado. O lugar estava cheio, com muita gente fazendo compras de última hora. Angela tinha uma lista em mãos, então pegou um carrinho e seguiu para os corredores, com Max ajudando a pegar as provisões e tentar acelerar um pouco o processo.
-- E quanto ao bar?
-- Está indo... Perdi o segurança. Era amigo do Tyler e pediu demissão ontem. Mas o Fred está me ajudando a por as coisas em ordem.
-- Perdeu o barman e o segurança de uma vez?
-- Pois é... E ainda mais agora, nesse período de festas. Mas já estou vendo se consigo alguém temporário.
-- Eu aceitaria um emprego temporário de fim de ano. – Angela olha pra ele, surpresa.
-- Sério?! Nossa, seria ótimo!
-- Provavelmente, apenas por uma semana. Mas já é uma grana extra, enquanto resolvo minhas pendências por aqui.
-- Claro, se considere contratado! – Ela diz, sorrindo. – Como segurança, né?
-- De preferência. Minha relação com a bebida é muito pessoal pra tentar me envolver profissionalmente. – Diz, também sorrindo e fazendo-a rir.
-- Entendido. Bem, você vai lá no Molly de toda forma, daí fazemos o contrato temporário e... – Angela para de falar, ouvindo seu celular tocando. Ela o pega, olha, franze o cenho e desliga, guardando-o novamente.
-- Problemas?
-- Hm... Não sei. Era o Tyler.
-- Você já o denunciou, não é?
-- Sim, eu fiz a denúncia, mas... não acompanhei o caso. Ainda não me ligaram também. Eu fiz o exame e o boletim de ocorrência. Eu não vou atender... Eu disse: Parei com as escolhas erradas.
-- Se importaria se eu falasse com ele? Talvez eu pudesse explicar a situação, pedir que ele se afaste... Quero dizer, você já fez a denúncia, se ele ficar insistindo, vai apenas piorar a própria situação.
-- Você quer que eu ligue pra ele?
-- Por telefone, ele pode simplesmente desligar. Acho que seria melhor pessoalmente.
-- Hm, mas... Como você vai fazer? Ir na casa dele? Nem sabemos se ele está em casa...
-- Não sei, talvez você pudesse marcar um encontro através de uma mensagem. – Angela comprime os lábios, pensando naquilo.
-- Eu não sei, Max... Não quero te por em mais problemas... Ele pode não reagir bem...
-- Não se preocupe, sei lidar com pessoas que não reagem bem. Só acho que, apesar do que aconteceu, ele merece algum esclarecimento, apenas para o caso de ainda não ter entendido, sabe? – Ela então respira fundo.
-- Okay... marco com ele quando?
-- Amanhã, depois... Quando preferir, desde que não atrapalhe a festa. – Ele sorri, tentando quebrar o clima ruim.
-- Tá, depois no natal, sei lá, segunda ou terça. Eu te aviso.
-- Ótimo. Talvez assim ele até pare de ligar.
-- Obrigada por continuar me ajudando. De verdade. Você não precisava fazer nada disso, mas fez e eu vou sempre me lembrar disso.
-- Retribua para outra pessoa e estaremos quites. – Diz, sorrindo sem graça.
-- Eu vou. Na verdade, a festa de natal do Molly vai ser hoje porque na sexta vou promover uma ceia para desabrigados. Já falei com o centro de voluntários, ficaram animados com a ideia. – Max abre um sorriso largo, erguendo as sobrancelhas, surpreso.
-- Isso é ótimo, Angie! – Ela sorri de volta.
-- Estou atrás de escolhas certas agora. Essa me pareceu uma delas.
-- Acertou em cheio. – Pisca pra ela.
Os dois vão para a fila do caixa com o carrinho cheio de compras e demoram a ser atendidos. Quando finalmente saem de lá, vão até a caminhonete, colocam as sacolas na carroceria e partem, deixando algumas sacolas no Molly Bloom’s, e levando outras para o apartamento. Max percebe um carro preto com vidro fumê entrando no estacionamento do prédio e o reconhece do estacionamento do Green Grocery.
Então Max se apressa em encher o elevador com as sacolas, não deixando muito espaço livre. Aquele carro ali podia ser apenas uma coincidência, mas Max não acreditava muito em coincidências. Sabia que podia muito bem estar sendo seguido, e aquilo podia se tornar um problema para Angela.
-- Acho melhor você subir com essas sacolas e Annie te ajuda lá em cima. Eu vou logo depois.
-- Okay. – Angela responde, entrando no elevador, tomando cuidado pra não pisar em nada.
Depois que ela sobe, Max volta até próximo à caminhonete. O carro preto havia parado em uma vaga para visitantes, estava desligado, mas ninguém saíra de dentro dele. Max fica ali parado, olhando o carro, encarando, esperando por... alguma coisa. Não sabia exatamente o que esperar. Um assassino armado? Um grupo de valentões pronto pra um espancamento? Apenas uma ameaça?
Há cerca de um mês, Max aceitara um caso para encontrar uma moça chamada Nancy Walker, em Salem. Os pais moravam em Boston e haviam perdido contato com ela, então buscaram seus serviços. Max a encontrou sem muita dificuldade, e tentou descobrir porque ela deixara de contatar os pais. Percebeu alguma atividade dissimulada, acabando por descobrir um caso secreto com um homem público.
Jeremy Foster era um político do partido democrata que vinha irritando muita gente poderosa através da proposição de políticas públicas favoráveis às minorias e população de baixa renda. Max filmou quando os dois se encontraram em um quarto de hotel e pensou ter encerrado o caso. Percebeu seu erro quando soube que Nancy havia sido estuprada e morta naquela mesma noite.
Depois de algum tempo parado no estacionamento do prédio de Angela, o motorista do carro preto deu a partida novamente e foi embora. “Não sei que merda foi essa, mas só me lembrou o quanto preciso ir embora dessa cidade”. Max volta a chamar o elevador e sobe tenso até o sexto andar, carregando o restante das compras. Ao tocar a campainha, é atendido por Annie.
-- Hey.
-- Hey, bruxinha. Como está? – Ele diz, entrando com as sacolas em mãos.
-- Melhor do que você vai ficar, se continua me chamando assim! – Ela respondeu, rindo. – Angie tá na cozinha.
-- Foi uma brincadeira. Por favor, não amaldiçoe até minha sétima geração. – Ele responde, se dirigindo pra cozinha.
-- Até a sétima geração demora muito. Mais fácil te transformar em um sapo.
-- Nem vou mudar muito. – Max encontra Angela guardando as compras, enquanto Annie volta pra frente da TV.
-- Pode deixar as sacolas aí em cima da mesa? Vou arrumando as coisas. Se quiser ver TV ou qualquer coisa...
-- Vou usar o banheiro, tudo bem?
-- Okay, você já sabe onde é.
Max vai até o banheiro, tranca a porta, baixa a tampa do vaso e se senta, esfregando a mão no rosto, pensando o que poderia ser aquilo no estacionamento. Havia sido jurado de morte, então só podia ser isso, não é? E se ameaçassem Angela e Annie, seria culpa de Max por tê-los atraído até ali. Não podia deixar aquilo acontecer. Estava ficando próximo demais. Tinha de resolver aquilo e ir embora!
Mas o que teria acontecido se ele tivesse ido embora de Salem quando planejara, invés de procurar Angela e oferecer seus serviços. Provavelmente teria se encontrado com Az para dizer que estava livre, e agora estaria no telhado de algum hotel bebendo e planejando como comemorar o Ciar Samhaim. Enquanto em Salem, Annie estaria morta por hipotermia, e Angela teria sido estuprada, e até morta, por Tyler.
No fim, suas escolhas tinham sido acertadas e ele não se arrependia delas. Ele respira fundo, socando a parede, enquanto se acalmava. Depois se levanta, joga água no rosto e enfim sai do banheiro, parando na porta do quarto de Annie.
-- Hey, Annie! – Ela se levanta, olhando pra ele e indo até o quarto, deixando a TV ligada. Quando ela se aproxima, ele diz baixando a voz. – Precisamos ter aquela conversa.
-- É, estava esperando por ela mesmo. – Ela responde, também em voz baixa, entrando no quarto e se sentando na cama.
-- Antes de mais nada, que fim deu na boneca? – Max pergunta, olhando o lugar vazio entre as outras bonecas.
-- Salguei, queimei os restos e enterrei aos pés de uma sorveira-brava hoje de manhã pra acabar com qualquer resquício de magia que pudesse ter nela.
-- Bom... – Max balança a cabeça em aprovação, fechando a porta e se sentando na cadeira em frente à penteadeira. – Certo. Você sabe por que os caras que ficam perto da Angie ficam pirados?
-- Mais ou menos. A tia Casey explicou que era tipo uma maldição de família... Que tínhamos influência sobre os homens, mas isso também gerava ciúmes e reações exageradas.
-- Você conheceu sua avó? A mãe da sua tia e da sua mãe.
-- Não. A mãe dizia que ela era meio louca e um dia desapareceu sem deixar nada pras filhas.
-- Entendo. Eu acho que ela não era exatamente humana, sabe? Existem... criaturas, por aí... que não são exatamente humanas.
-- Eu sei disso.
-- Algumas delas parecem muito, e até conseguem se reproduzir, quando ainda são humanas o suficiente.
-- Acha que minha avó era uma dessas criaturas?
-- Acho. E vocês acabaram herdando alguma... coisa... alguma esquisitice dela.
-- Tia Casey falava que iria me contar mais sobre nossa família, se eu ficasse com ela na Irlanda. Dizia que eu tinha muito para aprender. – Max já não gostava de tia Casey, mas ao ouvir isso, passou a gostar menos ainda.
-- Imagino que sim, mas não sei se seria uma boa ideia. Essas coisas são perigosas, Annie. Você viu isso na pele. Sua tia colocou sua vida em risco. Você está melhor com sua irmã. E Angie pode precisar da sua ajuda.
-- Como eu posso ajudar ela? Ela não sabe nada sobre isso. Mal tem contato com a tia Casey. Ela não sabe dessas coisas, acha que vai confiar em mim, se contasse?
-- Talvez você não precise contar diretamente. Talvez ela aprenda sem saber o que está aprendendo. Eu te ajudo e você ajuda ela. Não quero ir embora de Salem e deixar vocês duas a mercê de pirados violentos.
-- Como você vai me ajudar? – Ela pergunta curiosa, fazendo Max suspirar por chegar àquele assunto.
-- Minha mãe... ela também não era... totalmente humana, sabe?
-- Eu sabia! Pra detonar o Tyler e o Golem com a facilidade que você teve... Não tinha como você ser um cara normal. O que ela era?
-- Ela... tinha uma fúria fria e silenciosa queimando forte dentro dela. Ela liberava isso sobre os perversos que cruzavam seu caminho, pra evitar que a consumisse. Conforme eu fui ficando mais velho, um pouco dessa fúria começou a queimar dentro de mim também. Agora, quando eu quero, quando a libero, ela me fortalece, me dá confiança. Eu também tive de aprender a controlar isso.
-- Então dá pra controlar essa influência sobre os homens? É por isso que a Angie não te influencia?
-- Eu tenho esperança que dê. Mas Angie não me influencia porque sou foda mesmo. – Max diz, rindo e fazendo Annie rir junto. – Na verdade, Angie me influencia, sim. Mas eu percebi isso, estou ciente, então posso resistir melhor. É difícil, Annie. Sua irmã deve ser a mulher mais atraente que já vi. Mas se eu fosse influenciado, seria perigoso demais. Então eu pesquisei e aprendi um... feitiço. Pra me ajudar a resistir.
-- Como é esse feitiço? – Annie pergunta, então ele puxa a pedra de dentro da roupa e mostra o colar pra ela.
-- Fui até o Ipswich River pegar uma pedra de rio, coloquei embaixo da cama, fiz uma oração e dormi. Agora a uso como um amuleto por dentro da roupa. Quando olho pra sua irmã, essa pedra gelada no meu peito me lembra do risco e esfria meus ânimos. Você poderia ensiná-lo pros próximos namorados da Angie, mas é arriscado. A maioria dos caras não vai levar a sério.
-- Uhum... Ou você podia ficar por perto. Você consegue resistir à loucura, não iria machuca-la e ainda podia ajudar enquanto ela aprendia. – Annie diz, fazendo Max dar um meio sorriso triste.
-- E quem iria ajudar a próxima bruxinha que se metesse em encrenca, Annie? Além disso, já fiquei mais tempo do que devia em Salem. Não é seguro pra mim, ficar aqui. E mais perigoso ainda pra quem estiver perto de mim.
-- Você parece o Superman falando assim. – Ela diz, rindo e ele a acompanha.
-- Antes fosse. Eu poderia apenas usar um óculos pra ninguém me reconhecer.
-- É uma pena. Gostaria que a Angie tivesse um namorado que eu também gostasse, só pra variar.
-- Angie prometeu parar com as escolhas ruins, Annie. Acredite, eu seria a pior delas.
-- Okay, mas então me conta da sua mãe e você.
Max a encara pensativo sobre o que dizer. Annie certamente já ouvira falar das lendas sobre seu povo. Chamam de mau agouro, falam sobre os cães negros nas encruzilhadas prenunciando a morte, mas o nome... Este, apenas sussurram em temor: Barghest. Os lobos da morte. Os cães de Arawn.
-- Como eu disse, eu herdei a fúria e violência da minha mãe. Angie, e talvez você também, herdaram beleza, talento e influência. Podemos dizer que vocês ganharam na loteria da esquisitice, mas precisam aprender a controlar isso.
-- Eu vou tentar aprender a controlar e ajudar a Angie. Ela... ela passou por muita coisa. Teve um ex dela que até se matou. Isso é complicado...
-- Sim, bastante. Precisa aprender a influenciar apenas quando quiser. Estabelecer limites. Se impor quando se relacionar com alguém. Talvez isso ajude.
Então escutam a voz de Angela se elevando da cozinha.
-- Hey, almoço está pronto!
-- Angie ao menos cozinha mal? – Max pergunta, na esperança de poder se focar em algum eventual “defeito” da ruiva.
-- Não mesmo, ela cozinha super bem.
-- É, já esperava por isso. – Se levanta e vai almoçar.
Angela havia preparado um assado ao molho gravy, com purê e vegetais no vapor, servido com vinho. Max fica surpreso e satisfeito de poder comer tão bem assim, e o almoço segue tranquilo, com conversas em um ambiente familiar extremamente confortável, lembrando algo que o investigador não tinha há muito tempo.
Depois do almoço, os três vão de caminhonete para o Molly Bloom’s, onde Max conhece os funcionários de Angela. A cozinheira era Britney Rogers, uma mulher de trinta e poucos anos, de pele escura e sorriso fácil, que ajeitava a cozinha quando chegaram. O encarregado do estoque era Shawn Price, um sujeito baixo e forte, usando boné mesmo dentro do bar, que estava tirando um barril de cerveja do freezer para reabastecer a máquina. Os dois atendentes eram um garçom e uma garçonete, que no momento limpavam o lugar. Stuart Cox era um sujeito risonho de cabelos espetados e alargadores nas orelhas. Martina Diaz era uma bonita morena de traços latinos que não aparentava mais de 20 anos.
O último era o encarregado financeiro, Frederick Lewis, o Fred, um homem bonito, com uma barba rala e curta, jeito sério e que conversava bastante com Angela, em voz baixa. Aos poucos, Max foi se enturmando, enquanto ajudava na arrumação do lugar, acompanhado de Annie. Quando estava tudo terminado, todos partiram para suas casas, para se arrumarem e retornar ao bar no horário combinado.
Angela leva Max até seu hotel e este vai se arrumar. Não tinha o costume de comemorar o natal, então certamente lhe seria um evento interessante. Às 20h, pede um táxi e vai até o Molly Bloom’s, que naquela noite estava fechado para cliente. Stuart abre a porta para que ele entrasse. Com exceção de Britney, todos os funcionários já estavam ali, além de Annie, sentada em uma mesa conversando com Shawn. Ao vê-lo chegar, ela sorri e acena, chamando-o.
-- Ei, Shawn, quem é essa menina bonita que deixaram entrar aqui? Annie feiosa vai ficar enciumada. – Max diz, brincando com a garota.
-- É, ela tá acostumada a ser o centro das atenções por aqui, né? Vai perder o posto. – Shawn completa.
Annie apenas sorri, satisfeita com os elogios disfarçados, e os três seguem conversando trivialidades até a porta da cozinha se abrir, revelando Britney e Angela carregando um grande peru recheado. A ruiva vestia um tomara-que-caia vermelho combinando com o gorro de Papai Noel e o batom vermelho. Os saltos altos deixavam-na ainda mais alta e o amplo sorriso ainda mais bonita.
-- Ho ho ho! Feliz natal! – Ela diz, após deixar o peru sobre a mesa.
Max sorri apreciando a beleza da moça, quando o frio da pedra em seu peito o lembra de prestar atenção na reação dos outros. Assim que mudou o foco de sua atenção, percebeu que todos pareciam levemente influenciados, observando-a e dando bastante atenção a ela. Mesmo Shawn, que parecia ser casado, visto o anel dourado no dedo, a fitava com algum desejo. Mas, de todos, o que parecia mais encantado era Fred, que fora ajudar Angela assim que ela chegara, e fazia questão de manter a proximidade.
Ela ainda não tinha controle sobre aquilo e nem ao menos tinha consciência disso, então Fred podia estar correndo tanto perigo quanto ela. Annie colocou música para tocar e bebidas começaram a ser distribuídas. Enquanto Max observava o evento se desenvolver, Martina se aproximou.
-- Você é o único que não parece estar secando a chefe, mesmo sendo o mais livre pra isso, por aqui. Você é gay? – Martina pergunta, fazendo Max rir.
-- Não que eu saiba. – Dá um gole na cerveja e complementa. – Você é? – Então é a vez de Martina rir.
-- Normalmente, não, mas se quer saber, eu poderia abrir uma exceção pra chefe. Já é frustrante o bastante me arrumar nos dias normais e sair de casa achando que estou arrasando, pra chegar aqui e encontrar Angela Bloom toda desarrumada e ainda assim parecendo que vai desfilar ou posar pra uma revista. Imagina hoje, que ela tá toda produzida.
-- Bem, se eu tivesse de apostar em alguém aqui que teria chance com ela, certamente seria em você. – Max diz, rindo. – Só não sei se ela também estaria disposta a abrir uma exceção. Essa cara de princesinha dela...
-- Haha, nunca subestime uma mulher, meu bem. Esse rostinho bonito engana.
-- Se você diz, não sou eu quem vai discordar. Você tem bem mais propriedade pra falar sobre isso.
-- Pode crer que tenho mesmo. Mas e você? Se não é gay, é celibatário? Seria um desperdício. É eunuco? – Olha na direção da virilha dele. – Duvido.
-- Hahaha, não, eu só não... não acho que eu deveria me envolver com ela. Além disso, ela está passando por um momento delicado. O sumiço da Annie, o término desagradável com o Tyler...
-- Minha nossa, que sujeito respeitador! Pena que nem todo mundo pensa assim, né, meu querido? Sinceramente, acho que nem ela pensa assim. Quando terminou com o Mike, Tyler apareceu num piscar de olhos. A fila anda, e na fila dessa moça, a galera empurra. – Max ri novamente, se divertindo com o jeito de Martina.
-- Não sou de empurra-empurra, acho que vou ficar fora da fila dela, mesmo.
-- E na minha? Quer entrar?
-- Perdão? – Pergunta, confuso.
-- Na minha fila. Te achei gato. Você não parece ser um babaca. Não é gay, nem celibatário, nem está babando na chefe. Se você estiver livre, achei que a gente podia trocar uns presentes de natal depois da ceia, o que acha?
Max riu, achava ótimo, é claro. Aquele era exatamente o tipo de relação com a qual ele estava acostumado: Sexo casual com uma bela mulher após uma agradável noite regada à bebida. Seria uma comemoração de verdade, se aceitasse aquela proposta. Mas não estava ali para comemorar.
-- Quantos anos você tem? – Max perguntou e foi a vez de Martina rir.
-- O suficiente, não se preocupe. Eu trabalho em um bar.
-- Esse rostinho bonito engana. – Max diz, citando ela mesma e fazendo-a sorrir.
-- Vinte e dois. Quer ver minha carteira de motorista, oficial?
-- Hahaha, não precisa, acredito na sua palavra. Me sinto honrado, e muito tentado a aceitar sua proposta, mas...
-- Mas vai me dar um fora.
-- A ocasião não é das melhores. Me perdoe.
-- Tudo bem, azar o seu. – Martina sorri e se afasta.
Infelizmente, não estava ali para comemorar. Estava a trabalho. Max vai até Annie e dá uma leve beliscada em seu braço, chamando-lhe a atenção e se afastando. Ela logo o segue, perguntando com um sussurro.
-- O que foi?
-- Angie tá solteira. Preste atenção no comportamento de Shawn, Stuart, e principalmente do Fred. – Max responde, também em um tom baixo. Annie olha os três por alguns instantes, se concentrando mais em Fred que não saía do lado de Angela.
-- Tá, mas o que eu posso fazer? Ela é adulta, não posso dizer com quem ela vai se pegar ou não.
-- Eu sei, mas se nada for feito, vai começar a história toda de novo.
-- Pelo menos o Fred não é muito grande, né? – Ela diz, olhando preocupada para o possível futuro novo cunhado.
-- Eu... pensei em uma coisa. – Max diz, contorcendo o rosto como se não gostasse muito da ideia que estava prestes a expor.
-- O que? – Ela perguntou, esperançosa.
-- Você disse que eu devia ficar por perto, e que gostaria que Angie tivesse um namorado de quem você gostasse. Acha mesmo que eu tenho chance? – Ele pergunta e ela olha dele para Angela, e de volta a ele, surpresa.
-- Talvez... Quero dizer, ela com certeza está... hã... favorável... depois de tudo o que você fez. Mas e aquele papo de ser perigoso?
-- Não seria por muito tempo. Eu fico uma semana, mantenho os caras afastados, enquanto você trabalha com ela na questão do controle.
-- Não sei, Max... Uma semana parece pouco tempo pra trabalhar nisso.
-- Eu sei. Se tiver alguma ideia melhor, por favor, diga. Mas precisamos agir antes que o Fred o faça.
-- Eu não tenho nenhuma ideia, mas... Toma cuidado com o que você vai fazer, hein? Não magoa a Angie.
-- Vou tentar.
Max vai na direção de Angela, que conversava com Britney e Fred, enquanto Annie volta a se sentar onde estava. O jantar já estava sendo servido. Quando Angela vê o investigador chegando, se vira pra ele, sorrindo.
-- O que você e Annie ficam de tanto cochicho, hein? To ficando com ciúmes, vai roubar minha irmã.
-- Bem, é cochicho porque é segredo. Se quiser saber, vai ter que ser cochichado também. – Ele diz, sorrindo de lado. Ela o olha curiosa, tirando o cabelo de sobre a orelha e fazendo uma concha com a mão para ouvi-lo. Max olha pros lados, desconfiado, então aproxima o corpo de frente com Angela, baixando a cabeça, posicionando o rosto ao lado do dela e a boca na concha do ouvido, enquanto uma mão se posicionava na cintura para manter a proximidade. -- Quero saber se tenho alguma chance contigo.
Ela vira o rosto para encará-lo surpresa. Porém, quando abriu a boca para falar alguma coisa, olhou para os demais ali e deu um sorriso sem graça.
-- Hã... me acompanha aqui rapidinho. – Diz a Max, seguindo na direção da cozinha. Ele a segue, mas Angela passa pela cozinha, abrindo a porta dos fundos que dava ao beco atrás do bar. Então volta a se virar pra ele, baixando a voz. – Aquilo era sério?
-- Com certeza. – Max responde, se aproximando dela novamente. – Eu não queria dizer nada antes, porque sabia que você estava fragilizada com tudo o que vinha acontecendo. Mas achei que agora, com esse clima de festa e alegria, poderia ser um bom momento... - Ele responde, e ela morde o lábio inferior, indecisa.
-- Eu... eu não sei, Max... tudo está meio bagunçado ainda.
-- Se não estiver interessada, tudo bem. Nada muda. Continuamos como estávamos. – Então leva a mão à cintura dela novamente. – Mas mudança pode ser uma coisa boa.
-- Talvez sim... Mas seria uma boa escolha? – Ela pergunta, enquanto levava a mão ao braço dele, diminuindo a distância entre os dois.
Max engole em seco ao ouvir aquela pergunta, que o colocava em cheque, acuando-o quanto a suas intenções. Ele se esforça para manter a expressão sedutora. Teria de mentir, é claro. Como sempre. Mentir e manipular. Era a parte que odiava em seu trabalho. Afinal, é claro que seria uma péssima escolha. Mais cedo, dissera à Annie que ele seria a pior escolha possível para Angela. E agora estava ali, fingindo que não.
-- Bem... – Abafou a culpa, antes de elaborar a resposta. Não conseguiria responder diretamente, então evitou a pergunta. – Eu expus minhas cartas, Angie. Não vou ficar muito tempo em Salem, mas estou satisfeito com o que fiz por aqui. Pra mim, acho que é uma boa escolha. E pra você? – Então levou a outra mão às costas dela, puxando-a de leve para ainda mais próximo.
-- Eu adorei ter conhecido você, por tudo que fez. Eu gosto da sua sinceridade, é... diferente. Talvez você seja o primeiro cara que não quer me... TER, entende? Normalmente, os caras querem me prender a eles. – Ela responde, sorrindo e passando a outra mão na nuca dele, enquanto o olhava nos olhos. – Eu... acho que pode ser bom experimentar algo casual.
-- Boa escolha. – Max responde, sorrindo e se abaixando para beijá-la.
E o sabor era diferente de tudo o que já experimentara, chegando a ser quase narcótico. Parecia estar beijando um sonho idealizado em forma de mulher. O que, se não tivesse controle, poderia consumi-lo como uma droga. Ele a aperta contra si, instintivamente, no mesmo desejo que provavelmente consumira outros, mas sente a pedra fria em seu peito abrandando o ardor, permitindo que apreciasse o momento de forma prazerosa. Aparentemente, estava sob controle.
Angela o apertava também, parecendo ávida por aquele contato, e os dois permanecem assim por longos minutos, até que a porta dos fundos se abre. Fred dá de cara com os dois ali, ficando claramente sem graça.
-- Hã... desculpa, eu não... – E volta a fechar a porta, mas a interrupção fora o suficiente para trazer Max de volta a si mesmo. Angela ri sem graça.
-- Acho que estão esperando a gente... – Ela diz, sorrindo e mordendo o lábio inferior.
-- É... Continuamos depois. – Max responde, sorrindo de lado.
-- Com certeza... – Ela pega a mão dele e o puxa de volta para dentro.
Max volta à festa, enquanto Angela pede um momento para retocar a maquiagem. Annie o encara com um olhar cúmplice, enquanto Fred parecia meio desanimado e distraído. Martina logo se aproxima, com uma taça na mão.
-- Pensei que estivesse fora da fila dela.
-- Ah! Bem, eu estava... – Max tenta responder, sem jeito.
-- Relaxa, ninguém te culparia por mudar de ideia. Eu vi ela te chamar lá pra fora. Acho que ela é quem estava na sua fila.
-- Hã... É, pois é...
-- Fred é que parece decepcionado. Achou que era a chance dele, coitado.
Max olha na direção do sujeito, sentindo um pouco de pena. “Uma semana, Fred. Então terá sua chance, se ainda quiser”. Então Angela retorna para o jantar, sentando-se ao lado de Max e trocando olhares com este. Deu-se então uma conversação agradável e descontraída, compartilhando-se algumas situações cômicas do dia a dia, concedendo alguma normalidade à vida do caçador. Ao final da noite, Angela pede a Martina que levasse Annie para casa, enquanto ela mesma terminava de arrumar o bar, dando esse descanso aos funcionários. Max prontamente se oferece para ajudar Angela, recebendo olhares entendidos de Annie e Martina antes de partirem.
Os dois arrumam as coisas, Max leva o lixo para a caçamba no beco, e logo saem para o estacionamento, seguindo até a caminhonete de Angela.
-- Então... pra onde? – Ela pergunta, sorridente.
-- Hã... – Max não havia pensado em nenhum plano quando decidiu começar aquilo, então improvisou com o que sabia e havia captado de Angela. – Eu pensei no meu quarto, no hotel. Você poderia levar seu violão, cantar um pouco...
-- Hmm... Eu tenho uma ideia melhor. – Ela diz, dirigindo rápido pelas ruas de Salem, seguindo para um setor mais florestal da cidade, até parar em frente a uma casa pequena com janelas largas e um caminho de pedras passando por um jardim de grama alta.
-- E aqui é...? – Max pergunta, olhando o bonito lugar.
-- Meu ateliê. – Angela responde, sorrindo e descendo do carro.
Ele deixa a expressão de impressionado tomar seu rosto, e a acompanha para dentro da casa. Era um espaço amplo, quase sem cômodos ou móveis, cheio de cavaletes com quadros cobertos por panos brancos. Nas paredes, várias obras de arte emolduradas retratando paisagens, pessoas, arte abstrata, impressionismo, cubismo... Diversos estilos, todas muito bonitas e que talvez valessem algum dinheiro, apesar de Max não entender quase nada sobre aquilo.
Havia também um divã e um banco de frente para ele, provavelmente para o caso de um modelo vivo. Angela volta ao carro para pegar seu violão e, quando retorna ao ateliê, ajusta as luminárias para um efeito de meia luz, sentando no banco.
-- Então, queria um show particular?
-- Com certeza. – Max responde, sorrindo e se sentando no divã, enquanto Angela começa a dedilhar as notas e, então, suavemente começa a cantar “Snuff”, do Slipknot.
-- “Bury all your secrets in my skin. Come away with innocence, And leave me with my sins. The air around me still feels like a cage, And love is just a camouflage for what resembles rage again... So if you love me, let me go. And run away before I know. My heart is just too dark to care. I can’t destroy what isn’t there. Deliver me into my fate. If I’m alone, I cannot hate. I don’t deserve to have you... My smile was taken long ago, if I can change, I hope I never know...”
Max assiste impressionado com talento da moça. Definitivamente, ela havia ganhado na loteria da esquisitice. Só precisava aprender a lidar com aquilo. Angela sorria, colocando a alma em sua música. O investigador perdia a respiração, conforme o desejo lhe subia à cabeça, nublando seus pensamentos, mesmo com a pedra ali para ajuda-lo.
Ele se levanta lentamente, se aproximando enquanto ela cantava, quase hipnotizado. Quando ela termina a música, leva as mãos ao seu rosto, erguendo-a para beijá-la, enquanto ela deixava o violão no chão e passava as mãos ao redor do pescoço dele. Max a puxa ao divã e a deita em seu colo. Carícias e beijos intensos são seguidos de roupas ao chão. O prazer de sentir o corpo da musa, ter posse sobre ele, era imenso, e Max se vê incapaz de cessar as atividades, se surpreendendo com seu próprio vigor para continuar aquilo várias vezes naquela noite, até finalmente desmaiar de exaustão.
O investigador amanhece ao lado da ruiva, abraçado com ela sobre o divã, relembrando a noite estranha, assustadora e maravilhosa que tivera. Sentia os músculos doloridos da maratona sexual e viu a pedra sobre seu peito, lembrando de retirar o colar de seu pescoço e jogar debaixo do divã, fazendo uma nova oração antes de voltar a dormir. Podia não ser muito efetivo quando Angela cantava, mas aquela pedra gelada o ajudara durante o resto do tempo. Ainda teria uma semana pela frente, e precisaria de toda a ajuda que pudesse ter.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário
O Pi

avatar

Mensagens : 88
Data de inscrição : 01/06/2015
Idade : 30

MensagemAssunto: Re: Salem Ao Cair da Noite   Seg Nov 07, 2016 5:03 pm

O canto da sereia

Hawthrone Hotel. Salem, Massachusetts. 25 de Dezembro de 2015.
Após uma noite intensa, retomaram as atividades após acordarem. O dia passou agradavelmente, apesar das pequenas dores musculares devido ao excesso de atividade física. Angela promoveu o natal comunitário no Molly Bloom’s, abrindo o bar para oferecer uma ceia de natal para desabrigados. Max e Annie ajudaram, sendo uma noite cansativa, mas muito gratificante. Saíram já de madrugada, deixaram Annie em casa e foram para o quarto do hotel onde Max estava hospedado.
A segunda noite com Angela foi tão intensa quanto a primeira. A musa inspirava e não havia como ignorá-la. Após aproveitarem ao máximo da companhia um do outro, desabaram na cama. Quando Max acordou no dia seguinte, viu Angela com o violão, dedilhando algumas notas com um sorriso cativante no rosto e o belo corpo nu.
Max só tinha uma certeza: Iria embora de Salem. Abandonar aquela cidade e, se possível, não voltar mais. Esse era o plano. Pena que não estava dando muito certo. Cada dia perto da musa era um dia a mais querendo permanecer ali. Ele se protegia do encanto como podia, mas sabia que ainda estava sendo sutilmente afetado. E estava diante de um impasse. Como alguém poderia conscientemente controlar algo do qual não estava consciente?
Pensava nisso enquanto a observava, admirado. Ela sorria, percebendo e aproveitando a atenção dele. Max lutava consigo mesmo. Era difícil tirar as mãos dela, difícil se afastar, quase impossível tirar os olhos dela. Chegava a ser irritante o quanto ela deslumbrava sem nem ao menos tentar. A naturalidade e inocência eram assombrosas, pois aquilo era o que ela era sem qualquer esforço. Simples assim.
No fundo de sua mente, o caçador impiedoso, que reconhecia o perigo, imaginara se não poderia acabar com aquilo com uma deformidade. Uma queimadura no rosto, talvez. Ao lado dele, sua humanidade se horrorizara com tal ideia. Como se diante não apenas de um ato desumano, mas até mesmo blasfemo. Destruir Angela seria como incendiar um museu cheio de crianças. Era destruir arte e beleza ao mesmo tempo em que se destrói vida e inocência. Não haveria redenção de tal atrocidade.
Ela não tinha nenhuma culpa, nenhuma intenção, nenhuma consciência de ser o que era. E podia ser vítima de si mesma. Max nunca se deparara com uma situação como aquela. As profundezas de sua mente se agitavam, enquanto sua consciência assistia fascinada pelas curvas do corpo e do cabelo, o sorriso e os olhos de Angela Bloom. Ela para de tocar por um momento.
-- Hey, não te contei. Fui convidada pra cantar no show da virada, dia 31, no Salem Willows.
-- Que legal. É um show tradicional? – Max pergunta, e percebe estar sorrindo. Há quanto tempo estava sorrindo? Provavelmente desde que Angela sorrira. Respondeu ao sorriso dela sem nem ao menos perceber. Tinha de ficar atento ao seu próprio comportamento.
-- Sim, todo ano tem uma tenda grande no parque, com um palco. Alguns artistas locais se apresentam, tem uns food trucks legais, é bem divertido.
-- Serei o sujeito mais invejado do evento desse ano.
-- Haha, talvez sim. Quer ficar nos bastidores com a Annie?
Max então pensa que se, mesmo com todo o cuidado que tinha, ainda ficava fascinado pela musa quando ela cantava, o que aconteceria com uma multidão incauta? Imaginou centenas de pessoas sentindo algo parecido com o que ele sentia quando via Angela cantar. Pensou naqueles artistas cujos fãs doentios acabam assassinando seus próprios ídolos. Pragueja mentalmente por não ter perguntado a Annie sobre as apresentações públicas de Angie, imaginando o risco absurdo que poderia ser esse show. Precisava contornar aquilo.
-- Na minha família, não tínhamos o costume de fazer essas grandes comemorações de inverno. Pra mim, o inverno é uma época para reflexão, pensar no passado, presente e futuro. Nossa comemoração de inverno era mais reservada, sabe?
-- A minha mãe era um pouco assim, mas os EUA moldaram ela e a gente ficou com os costumes do meu pai mesmo. Acho que prefiro sair, me divertir, sabe?
-- Sim, claro, eu também não dispenso uma boa noitada. Me refiro mais a essas tradicionais comemorações de inverno. Antes de você citar esse convite, eu achei que pudéssemos fazer algo mais particular, talvez sair da cidade, longe de tudo, sabe? – Max sugeriu, inventando na hora, mais uma vez tentando manipular os sentimentos de Angela. – Quero dizer, seria meio que uma... despedida em grande estilo. Mas era só uma ideia.
Angela faz uma expressão pensativa, dando esperança de que o plano de fazê-la desistir do show fosse funcionar.
-- É verdade, você vai embora... – Ela dá um sorriso triste. – Seria ótimo, eu gostaria de ir. Que dia, então?
-- Como assim? Vai desistir do show?! – Max finge surpresa. Nas profundezas de sua mente, o caçador impiedoso sabia que aquilo era necessário. Enquanto isso, sua humanidade se perguntava quem era realmente perigoso ali. Diferente de Angela, Max estava influenciando-a ativa e propositalmente.
-- Não! – Ela ri. – A gente podia ir e voltar mais cedo, não? Ou ir dia 30 invés do dia 31. O show vai render uma boa grana, talvez dê até pra viajar com a Annie nas férias.
-- Ah, desculpe. É que eu tinha pensado em fazer isso na virada... – Max disse, sem conseguir pensar em alguma forma de contornar aquilo. Estava em cheque. – Tudo bem, então. Vamos no dia 30 e voltamos a tempo. Se eu atrapalhar as férias da Annie, não acho que consigo sair vivo de Salem. – E ri, disfarçando, fazendo Angela rir junto.
-- É, ela diz que vai te transformar num sapo feio e gosmento. – Comenta, fazendo carinho no rosto de Max.
-- Péssima escolha. Nem vou notar a diferença. – Ri, baixando a cabeça na direção do toque dela, tentando intensificar a carícia sentida.
-- Então a gente sai bem cedo no dia 30. Você tem algum lugar em mente? – Pergunta, deixando os dedos avançarem por baixo dos cabelos de Max, massageando-o.
-- Vou precisar pesquisar por alguma casa de campo ou hotel... – Max respondeu, disfarçando visto que havia acabado de ter aquela ideia. – Mas a ideia é mais ou menos essa.
-- Okay. – Angela responde, sorrindo e continuando a acaricia-lo.
-- Você já se apresentou em algo assim antes?
-- Nunca como atração principal, geralmente ficava no fundo com o violão ou o baixo. – Ela diz, estendendo as carícias dos cabelos para os ombros largos de Max.
-- Sério? E alguém te indicou para esse evento ou o quê?
-- Fred me indicou. Ele está no staff do evento.
-- Ah, que legal. – Max disse, enquanto pensava o oposto, mas mantinha o sorriso no rosto. “Obrigado, Fred, já não sinto nenhuma culpa e quero que você se foda...” – E dá pra assistir bem dos bastidores? Posso te pedir um autógrafo e tirar uma foto contigo, depois do show?
-- Se quiser, te consigo vaga no front, mas dá pra assistir dos bastidores. – Então ela se levanta, indo até a calça de Max, enfiando a mão no bolso e apanhando o celular. – E se é uma foto que você quer, posso dar uma bem exclusiva.
Angela estendeu a mão com o celular, fez uma pose sexy e tirou uma foto de si mesma. Em seguida, entregou o aparelho, com um sorriso malicioso no rosto. Max sorri surpreso, olhando a reveladora foto em seu celular.
-- Confesso, bem melhor do que eu esperava.
Ela, então, subiu sobre ele e os dois reiniciaram as atividades, antes de se levantarem para tomar café e se despedirem. Angela voltou para casa, enquanto Max tratou de pesquisar sobre a ideia que tivera e que lhe rendera um compromisso sem nem ao menos atingir seu objetivo. Aproveita também para ligar para Azarias e avisar que prolongaria sua estadia para auxiliar a musa a lidar com sua própria influência sobre seus companheiros, para evitar novos relacionamentos abusivos. Quando a hora do almoço se aproximou, partiu para almoçar com Annie, enquanto Angela cuidava dos negócios do bar, pois era sábado, dia em que o Molly Bloom’s ficava mais cheio.
-- Oi, bruxinha. – Max cumprimentou quando Annie abriu a porta.
-- Oi, pulguento. – Ela devolveu, sorrindo e abraçando-o. – Vai ficar aqui hoje?
-- Vim ficar de olho em você. Ver se não transformou mais nada em monstro.
-- Tarde demais. Já fiz o yakissoba de ontem virar um bolor fétido.
-- Com menos de dois metros de altura? Você já foi melhor, Annie. – Max diz, sorrindo e se sentando no sofá, batendo a mão ali para que ela se sentasse com ele.
-- O que foi? – Ela perguntou, se sentando.
-- Angie vai se apresentar no show da virada do parque.
-- Sim, to sabendo. Vai ficar nos bastidores também? – Ela continuou, sem perceber nenhum problema.
-- Vou. E estou com medo do que pode acontecer.
-- Ué, por quê? – Ela perguntou, quando de repente percebeu. – Ah! Acha que... ela pode influenciar a plateia?
-- Acho. Sabemos que ela exerce alguma influência passivamente. Quando ela QUER influenciar, a coisa fica mais forte. E todo artista deseja tocar seu público.
-- Merda... O que a gente vai fazer? Eu te falei, ela tem que saber que pode e QUERER não influenciar.
-- Droga... Contar esse tipo de coisa pra ela era a última possibilidade. Ela vai se culpar pelos relacionamentos ruins, Annie. Ela vai ficar arrasada e com medo.
-- Mas ela tem que aceitar o que ela é, Max. Ela vai precisar ser forte. – Annie diz e Max suspira, concordando com um aceno de cabeça.
-- Não temos muito tempo. Não podemos arriscar. Se alguma coisa acontece... – Ele esfrega a mão no rosto, preferindo não terminar a frase. – Vou falar com ela hoje.
-- Se precisar de ajuda, posso tentar falar com ela também.
-- Se eu não conseguir, te aviso.
-- Okay, mas se nenhum de nós conseguirmos, a gente fala com a tia Casey, tá?
-- Tá... – Max concorda, após suspirar não gostando daquela ideia. – Em último caso, falamos com ela.
-- Então... pizza?
-- Pizza. – Max concorda, sorrindo.
Os dois pedem pizza, almoçam e conversam sobre mitologia, folclore, esoterismo e ocultismo. Annie era muito curiosa e pergunta bastante sobre os casos nos quais Max já se envolvera, dando uma forte impressão de que poderia vir a se tornar uma grande encrenqueira no futuro. Ele torcia para que ela ficasse apenas nos livros e teorias. Na prática, o sobrenatural não era muito gentil.
A noite se aproxima e Angela busca Max para o bar, onde ele começa oficialmente seu trabalho como segurança. Basicamente devia ficar observando possíveis confusões ou problemas, se antecipando para resolvê-los com o mínimo de danos possível. O clima natalino ainda estava no ar e a noite segue tranquila, até que ele percebe Angela atrás do balcão mexendo no celular com a testa franzida. Depois ela segue para a cozinha, parecendo preocupada.
Max, então, pega seu próprio celular e manda uma mensagem para ela, sem sair de seu posto de trabalho: “Tudo bem aí?”
Angela logo responde: “Recebi um mensagem do GG, o ex-segurança. O Tyler tá no hospital”.
O investigador-segurança suspira temeroso e envia outra mensagem: “O que houve?”
Ela responde uma única palavra: “Overdose”. Depois complementa: “Eu vou visitar ele...”
“Droga, Tyler...” Max pensa, praguejando contra as decisões erradas do sujeito, para depois responder Angela: “Faz bem”.
Apesar do pouco tempo juntos, Max já conhecia Angela o suficiente para saber de suas preocupações. Vários relacionamentos abusivos com pirados, violência doméstica, um ex-namorado suicida, agora a overdose de Tyler... Ela jogaria tudo isso nas próprias costas quando soubesse que teve influência nisso. Ficaria arrasada. Teria medo. Contar a ela era o pior cenário possível, ainda que necessário.
A noite segue sem maiores problemas até cerca de três horas da manhã, quando enfim o bar fecha. Max começa a caminhar sentindo o frio do inverno, que lhe trazia aquela sensação de oportunidade para reflexão, para busca pela sabedoria interna e autoconhecimento. Pensava em Angela, sabendo que estaria a noite toda no hospital, pouco tempo depois de ter estado lá com a irmã. Mesmo tendo ganho na loteria da esquisitice, o preço a ser pago ainda era bem alto. Sempre havia um preço.
Max retornava para o Hawthrone Hotel caminhando, sentindo o agradável ar noturno, que sempre lhe dava confiança. Havia três homens esperando do lado de fora do Molly Bloom’s e começaram a seguir Max. Ele os percebera assim que deixara o bar, pois foram clientes até quase a hora de fechar, e nenhum pareceu amigável ao encará-lo. Uma quadra depois, os três aceleraram o passo para alcança-lo.
Não seria difícil para Max despistá-los em uma corrida, mas ele optou por encará-los diretamente e descobrir qual o problema, apesar de já imaginar. Então manteve seu passo, fingindo não saber o que estava acontecendo ali, como se os sons dos passos e da respiração deles não deixasse óbvio. Pouco depois, os três alcançaram o investigador. Dois deles ultrapassaram-no, um de cada lado, de modo que Max ficasse cercado.
-- Parado aí, White. – O primeiro homem diz, colocando a mão no peito de Max para que este parasse de caminhar.
-- Onde tá indo com tanta pressa? – Perguntou o segundo.
-- Encontrar alguma garota? – Sugeriu o terceiro, que tinha consigo um bastão de baseball.
-- Tipo a Nancy Walker? – O primeiro complementou.
-- Escutem, vocês estão cometendo um erro... – Max tentou se explicar.
-- Vou te mostrar o erro, seu filho da puta. – O homem com o bastão disse, desferindo um golpe contra Max, que ergue o braço para bloquear o ataque, enquanto cerrava o cenho e deixava a fúria fluir.
Invés de ouvirem o som de um osso se quebrando, o bastão parou como se atingisse uma barra de aço. Com um movimento rápido, Max agarrou o bastão e o tomou das mãos do homem, enquanto saltava pro lado, se esquivando de um chute dado por outro dos sujeitos. O último acertou um soco contra os flancos de Max, que pareceu nem sequer sentir aquilo.
Nas mãos do investigador, o bastão rapidamente traçou um arco no ar, atingindo o rosto de seu antigo portador, que voou ao chão, caindo desacordado e sangrando. Max jogou o bastão de forma displicente na direção dele, como se o devolvendo, e se virou pros outros dois. Um deles sacou uma faca borboleta, girando-a habilmente para expor a lâmina, e avançou na intenção de cortá-lo.
Max levou a mão à faca, agarrando a mão que a empunhava, apertando-a e torcendo-a, forçando o homem a soltá-la. Em seguida a chutou para longe, enquanto erguia o outro braço bloqueando e contra-atacando o outro atacante, que cambaleou para trás após receber um murro no rosto. Sem sua faca, o primeiro recua o punho torcido e tenta chutar Max, que agarra seu pé e o puxa para cima, fazendo com que perdesse o equilíbrio na perna de apoio e caísse ao chão.
-- Vão embora enquanto ainda podem. – Max disse, ameaçadoramente, e começou a caminhar, virando as costas para seus atacantes, que preferiram não aproveitar tal oportunidade. Não parecia realmente uma oportunidade. Pegaram seu companheiro caído e foram embora frustrados e humilhados.
Aquele era um dos motivos pelos quais Max queria ir embora da cidade o mais rápido possível. Os três não agiram corretamente, mas pensavam que sim, e Max teve de usar de sua brutalidade contra eles. Inocentes manipulados pela armação na qual o investigador caíra. Seu talento para a violência não devia ser usada para isso. O Ananias não confiara nele e o revelara a Verdade para que surrasse pessoas inocentes. Tinha um Geas a cumprir.
Max olhou a manga da jaqueta cortada e um arranhão em sua mão e pulso, por onde a lâmina da faca passara. Havia um pouco de sangue, e uma dor leve que só sentira depois que viu o ferimento. Percebeu que seu braço também doía pela pancada do bastão, e os flancos onde levara um soco. Não havia dor durante o combate, apenas raiva e fúria. Para esfriar a cabeça, pegou o celular e ligou para Angela, que levou alguns toques para atender.
-- Oi... – Ela disse em um tom baixo e desanimado.
-- Hey, como está?
-- Queria dizer que estou bem, mas não acho que estou. – Ela responde, fazendo Max suspirar pesaroso.
-- E ele?
-- Ele está sendo medicado. Foi numa festa e tomou um monte de “doce”. Teve uma convulsão, quase que morre... O GG chamou a ambulância, está tudo bem agora, ele vai melhorar. Talvez amanhã ou depois, acorde.
-- Que bom. Vai ficar por aí?
-- Não... To voltando pra casa agora. Só estava esperando os médicos me darem uma posição sobre ele.
-- Entendi. Escuta, podemos almoçar juntos amanhã?
-- Claro... Lá em casa ou num restaurante?
-- Na sua casa é melhor.
-- Okay... Até amanhã, então. Beijos.
-- Beijos.
Max retorna para seu quarto no hotel, onde a noite passa com um sono difícil. Ele revira na cama pensando em como seria jogar todo aquele peso nos ombros da ruiva. Era a única opção e aquilo o consumia. Sua missão era diminuir o sofrimento alheio, não aumenta-lo. Acordou cansado na manhã seguinte e cochilou mais um pouco, quando finalmente conseguiu descansar melhor. Não tinha o costume de dormir muito. Quando a hora do almoço se aproximava, voltou a pegar seu colar embaixo da cama, se arrumou e partiu para a casa de Angela.
Estava determinado a fazer o que devia ser feito. Mesmo que lhe causasse mais sofrimento momentaneamente, aquilo serviria para acabar com o ciclo de sofrimento pelo qual ela estaria passando há anos com seus relacionamentos abusivos. E estaria ali para ajudar como pudesse naquele doloroso processo. Quando tocou a campainha, foi atendido por Angela com um sorriso tristonho no rosto.
-- Hey...
-- Hey... – Max se aproxima, dando-lhe um beijo. – Como você tá?
-- Estou indo... – Ela melhora um pouco o sorriso. – Vem, fiz lasanha.
Max entra no apartamento, acompanhando-a enquanto praguejava contra aqueles que, de certa forma, o colocaram em tal situação. “Droga, Tyler... Droga, Fred... Vocês só fazem merda, caras...”
-- Annie foi pra casa da Kate hoje de manhã, só deve voltar mais tarde. – Angela comenta, enquanto o guiava até a mesa forrada com uma toalha de mesa vermelha, sobre a qual estava uma lasanha com espátulas no centro, e dois pratos, talheres, taças e uma garrafa de vinho dispostos ao redor.
-- Bom que sobra mais pra gente. – Max diz, sorrindo e tentando quebrar o clima tenso. O cheiro estava delicioso e Angela retribuiu o sorriso.
-- Ela vai ficar uma fera quando souber que teve lasanha. Vou ter que fazer de novo pra ela. – Angela diz, servindo o vinho nas taças.
-- Podemos comer tudo e eliminar todas as pistas.
-- É muito! Eu não consigo.
-- Então talvez devêssemos ir pro quarto antes, pra abrir o apetite, hein? – Max ri malicioso. Angela ri junto, mas logo para ficando meio sem graça.
-- Não é uma má ideia, eu só... não estou muito no clima ainda.
-- É, eu sei. Estou brincando. – Ele diz, se aproximando e abraçando-a, sentindo Angela apertá-lo forte. – Vamos comer e deixamos um pouco pra bruxinha.
-- Estava precisando de um abraço desses...
-- Sou uma fábrica inesgotável deles, pode ter um novo sempre que quiser.
-- Vou pegar todos que puder, antes de você ir...
-- Faça isso. – E dá um beijo na cabeça dela. Ela respira fundo, para depois sair delicadamente do abraço, limpando os olhos marejados.
-- Desculpe por essa confusão toda.
-- Está tudo bem, não se preocupe. Vamos comer enquanto ainda está quente.
Angela concorda e serve a lasanha para si mesma e para Max, caprichando no prato dele. Os dois começam a comer em um silêncio estranho. Ela certamente pensava no que acontecera com Tyler, enquanto ele tentava encontrar uma forma de dizer o que precisava causando o mínimo de sofrimento possível.
-- Hmm... Sabe aquela cueca que você me deu? – Max começou.
-- Hm? Sim, a do Batman. O que tem ela?
-- É que... – Max retoma a linha de pensamento. – O Batman... Os pais dele morreram, e ele se sente culpado por isso. Era apenas uma criança agindo como criança, sabe? Não tinha culpa nenhuma do que aconteceu, mas mesmo assim, ele se culpava e sofria por isso. – Max diz, já se arrependendo. “Droga, sou péssimo nisso! Az é quem devia fazer essas coisas!”
-- Então... – Angela diz, com uma expressão confusa, parecendo segurar o riso – Eu conheço a história do Batman. Provavelmente, melhor que você.
“Parabéns, Max, sua tentativa é patética e ridícula”. Ele pensa, tentando manter a seriedade e dar continuidade à ideia exposta.
-- Então você concorda que ele não teve culpa na morte dos pais? Afinal, ele não tinha consciência de que suas ações resultariam naquilo.
-- Claro, né? Ele era uma criança. Só estava no lugar errado e na hora errada com os pais. O bandido que foi o errado na história, mas o traumatizou pra sempre.
-- Isso! Uma pessoa não deve se culpar por algo sobre o qual não possui controle ou sequer consciência.
-- Uhum, não deve. Mas, às vezes, é difícil de lidar com isso.
-- Sim, é... Mas não se deve se deixar abater. É preciso encarar os fatos e seguir em frente. No final, seguir em frente é tudo o que temos.
-- É... Sempre temos que recolher os cacos e seguir em frente.
“A ideia era não ficar em cacos...” Max pensa, suspirando e concordando com a cabeça, antes de recomeçar.
-- Então... Eu preciso falar uma coisa séria contigo.
-- Esse papo é por achar que eu to me culpando pelo que aconteceu com o Tyler?
-- Hã... Sim. Também. Você está?
-- Não... Quer dizer, um pouco. Talvez, se eu tivesse atendido aquela ligação, as coisas tivessem sido diferentes, mas quem fez más escolhas, dessa vez, foi ele.
Max concordou com a cabeça, mantendo um semblante sério e pensativo para o que viria a seguir.
-- Você... sabe o quanto é bonita, Angela?
-- Obrigada. – Ela respondeu, sorrindo, mas Max não correspondeu ao sorriso, se mantendo sério.
-- Não foi um elogio. Foi um fato. Você é absurdamente bonita. Exageradamente. Você nem parece se esforçar pra isso.
-- É... Eu já ouvi isso... – Ela diz, meio confusa, mas deixando o sorriso de lado e acompanhando a seriedade de Max. – Minha mãe também era. É de família. Temos bons genes, acho.
-- Sim, é de família. – Max concordou, evitando falar sobre os genes, pois não achava que os dela seriam exatamente bons. – Vocês são lindas. Demais. E talentosas. Artistas naturais. E... a arte... ela... muda a forma como as pessoas veem o mundo, não é? A arte mexe com a cabeça das pessoas.
-- Claro que sim. Ser instruído artisticamente hoje em dia é algo desvalorizado, mas ainda tem meios em que isso é valorizado.
-- Então você sabe que artistas possuem um certo poder de influência sobre aqueles que experimentam de suas obras. E sabe que uma mulher bonita como você também possui um certo poder de influência sobre... quase todo mundo, eu diria. Mas principalmente homens.
-- Okay... – Angela diz, tentando entender o que estava acontecendo. Sua confusão era óbvia. – Eu sou bonita, eu sou uma artista, e isso pode influenciar as pessoas. É isso que está dizendo? Qual o ponto em que quer chegar?
-- Quero dizer que você é tão bonita, tão talentosa, parece ser tão perfeita, que... – Max passa a mão no rosto, pensativo. Aquilo era difícil. – Mesmo que não tenha a intenção, mesmo que não tenha consciência, você influencia as pessoas. Você mexe com a cabeça delas. Quanto maior a proximidade, mais forte é sua influência. E nem todo mundo consegue lidar com isso.
-- Hã? – Angela contorceu o rosto em confusão.
-- Você é tão maravilhosa que vicia, Angie. Só de ficar parada aqui na minha frente, você já é inebriante.
Angela o encarava, com a boca levemente aberta, como se quisesse falar algo, mas não soubesse exatamente o quê. Os lábios grossos levemente separados, os alinhados dentes brancos parcialmente visíveis. Mesmo naquela situação, Max se pegava apreciando a beleza da moça. Ela pisca algumas vezes, aturdida.
-- Okay... Você está me assustando, Max.
-- Pode ser um pouco assustador, mesmo. Por favor, preste atenção, porque você pode não ouvir isso de novo, e você precisa saber. – Ele diz, sério. – Quando você canta... Parece uma epifania. É... é hipnotizante. É como o barato de uma droga, sem nenhum efeito colateral. Pelo menos, nenhum facilmente perceptível. É maravilhoso, mas esse barato gera vontade de experimentar mais e mais, entende?
-- O-o que você quer que eu faça sabendo disso? Eu... eu não estou entendendo, Max. Eu canto tão bem que não devia cantar ou vou ter gente viciada? Ou isso é alguma crise de ciúmes sabendo que vou cantar em público? Quer que eu cante só pra você?
-- Não, nada disso. Você deve cantar. Te impedir de fazer isso seria um crime, um pecado. Mas você deve saber sobre essa influência que você pode ter. Você tem de aprender a controlar isso. – Max responde, percebendo que não estava conseguindo nada. “Está vago demais, ela não vai levar a sério... Preciso de algo no qual ela possa se firmar e confiar. Ou que ao menos pareça que possa...” Angela coçava a nuca, tentando entender.
-- O que está acontecendo, Max? Seja honesto comigo.
-- Feromônios! – Max exclama, ao lembrar da palavra científica que poderia ajuda-lo. – Eu acho que é isso, sabe? Aquelas coisas que os animais exalam pra se atraírem? E nós também, claro. Apenas não percebemos. Acho que você tem uma alta taxa deles. Uma característica da sua família. E quando você se dedica a algo, como faz quando canta, quando você, de certo modo, quer seduzir, atrair e influenciar, isso fica mais forte, entende?
Angela ergueu uma sobrancelha enquanto o encarava. A pseudociência de Max não parecia ter surtido o efeito esperado. Ela levanta uma mão, pedindo por um minuto.
-- Eu exalo feromônios demais?
Max baixa a cabeça e suspira, se sentindo derrotado.
-- Eu não sei, Angie... Talvez. – Então volta a olhar pra ela. – O que eu sei é que vocês, na sua família, são absurdamente bonitas e talentosas. Vocês exercem uma influência nas pessoas ao seu redor, especialmente quando se expressam artisticamente. E quando não estão cientes disso, quando não possuem controle sobre suas intenções, as coisas saem errado. Muito errado. Sua mãe foi morta. Você teve vários relacionamentos problemáticos. Sua irmã foi perseguida e chantageada pelos colegas.
-- Além de me achar bonita, você baseia esse argumento em quê?
-- Nas evidências, Angie. No histórico que me foi apresentado. Na experiência empírica, já que estou experimentando isso bem de perto. Talvez eu esteja errado. Talvez sejam apenas coincidências. Mas acho que são muitas coincidências se acumulando. Eu estou com medo do que pode acontecer na sua apresentação pública, caso você não aprenda a controlar isso. Estou falando sobre a influência que você exerce passivamente e artisticamente, porque são as mais urgentes.
-- Sabe o que eu acho? Que você está conversando demais com a Annie. Está começando a falar coisas estranhas que nem ela. Que nem a tia Casey.
-- Angie... – Max começa, cerrando o cenho e ficando ainda mais sério, como se aquele comentário o ofendesse. – No meu trabalho, eu coleto informações, procuro pistas e faço deduções apoiadas nas evidências que encontro. Faço tanto isso, que não preciso estar trabalhando pra fazer. Já é um comportamento natural. E eu fiz isso nesse tempo que passamos juntos. Eu fiquei preocupado com o que descobri. Por favor, não me ignore.
-- Então, isso é sério? Eu sou viciante para as pessoas? Todos que se aproximaram de mim é por conta dessa coisa que você diz que eu tenho? Essa produção exagerada de feromônios? E quem se afastou, teve o quê? Abstinência? – De repente, ela arregala os olhos ao pensar em Tyler.
-- De certa forma, sim... Você é viciante. A influência que você exerce também pode gerar dependência. Como eu disse, nem todo mundo consegue lidar com isso. Te garanto, é difícil. Ocorrem alterações de humor. E depois que se afastam, podem sim experimentar um tipo de abstinência.
Ela leva a mão à boca, encarando Max com um dos olhares mais tristes que ele já vira. Parecia prestes a desabar, comprimia os lábios, apertava as mãos e começava a respirar mais devagar. Parecia prestes a ter um ataque, como na noite em que voltara para o apartamento e ficara com medo de entrar. “Ah, droga...” Max pensa, levando as mãos aos ombros dela.
-- Escuta, você não tinha consciência disso, não tinha nenhuma forma de controle, não tinha como saber, então não deve se culpar. Por nada.
-- I-isso é uma doença?! E-eu tenho como curar?! – Ela pergunta, trêmula.
-- Não. Isso é quem você é. Você precisa aceitar isso e aprender a controlar. Seguir em frente, não tentar fugir.
-- Você já viu casos assim?
-- Não exatamente assim... Mas existem casos semelhantes. Um dom pede para ser usado, Angie. Se você o renegar, ele pode se tornar uma maldição.
-- Dom?! Saber que eu atraio as pessoas assim? Compulsoriamente? Que eu deixo elas loucas? Que é minha, sim, MINHA culpa esses relacionamento fodidos?! Você... você também vai ficar daquele jeito? Você só foi atraído por mim por conta disso? – Ela se levantou da cadeira bruscamente, se afastando da mesa e pegando o casaco, como se fosse sair. Max se levanta e ergue as mãos, tentando acalmá-la.
-- Angie, por favor, se acalma. Estou tentando ajudar. Eu não fui atraído por isso, ok? Pelo contrário, eu tenho resistido a isso. Por isso eu esperei até o que achei que fosse o tempo certo. Por isso eu percebi isso e resolvi falar contigo. Eu sou bom em me controlar e resistir a impulsos, está bem? Tenho feito isso há muito tempo.
-- Há muito tempo? A gente se conheceu há uma semana!
-- Não os provocados por você, Angie, mas os meus próprios, com os quais eu convivo há anos. Um dos casos semelhantes. Eu também tenho uma... condição especial... de família.
-- ... O quê? – De repente, a curiosidade dela parece acalmá-la.
-- Não é algo bom pra sair falando, ok? As pessoas podem ficar com... medo de mim.
-- Pelo amor de Deus, fala logo! – Ela exige, irritada.
-- Raiva, Angie! – Max responde no mesmo tom. – Minha família tinha problemas com a raiva. Ficavam furiosos, reagiam com violência à provocações, e só paravam quando alguém ia ensanguentado pro chão. As pessoas tem medo de gente assim! - Max diz, ainda na defensiva. Angela olhava para ele, um pouco nervosa.
-- ... Sem chance... Você é calmo, centrado...
-- Graças a anos aprendendo a me controlar. Meditando, fazendo exercícios pra extravasar... Mas ainda está aqui dentro. Tyler viu o que posso fazer quando sou violento. Durou cinco segundos.
Angela se senta no sofá e cobre o rosto com as mãos. Era muita coisa para sua cabeça. Max senta ao lado dela, mas sem tocá-la. Já que havia começado a falar, acha melhor continuar e se explicar melhor.
-- Quando saí do orfanato, me sentia perdido. Participei de ringues de luta clandestinos. Não tinha nenhum propósito, mas um grande talento pra violência. Quando eu deixava a raiva fluir... Era maravilhoso, mas muito feio. Quebrava dentes e narizes, inchava olhos, pintava rostos com roxo e vermelho. Às vezes, deixava que me acertassem apenas pra mostrar que eu não ligava. Pra mostrar que eu aguentava. Pra mostrar que não havia nada que pudessem fazer contra mim. Uma vez que eu começasse, nada nem ninguém poderia me parar. Eu aguentava qualquer porrada e devolvia em dobro. Me chamavam de Max Damage...
Angela baixa as mãos do rosto, olhando-o apreensiva. Max evita encará-la, envergonhado por expor aquela época de sua juventude perdida. Então resolve adiantar a história para algo mais agradável.
-- Então, um amigo me ajudou a sair dessa. Me ajudou a me controlar, a me tratar, e a direcionar meu dom para boas causas. Eu ajudo pessoas. Mesmo quando são casos perigosos, onde alguém pode se ferir ou até morrer. Eu não tenho problema com o perigo. Posso lidar com ele melhor que a maioria. – Max suspira antes de continuar falando. – Quando eu vi sobre o desaparecimento de Annie em condições tão brutais, tão terríveis, eu soube que era um caso pra mim. Porque, se o assassino estivesse com ela, eu sabia que a coisa ficaria violenta pra quem a encontrasse. Então tinha de ser eu.
Angela não estava mais olhando para ele. Olhava para frente, encarando o vazio, enquanto ouvia o relato de Max. Após alguns instantes de silêncio, ela se pronunciou.
-- Eu... Eu devia desistir do show.
-- Ou devia tentar controlar isso. Se tiver controle, pode fazer quantos shows quiser. Se não tiver, vai sempre correr o risco de terminar como sua mãe.
-- Eu não faço nem ideia de como fazer isso, Max.
-- Nem eu. Vamos ter de descobrir.
Angela volta a fitar o vazio, voltando a ficar em silêncio, enquanto pensava em tudo aquilo.
-- Isso me lembrou... da tia Casey falando das lendas irlandesas. Sobre as musas que levavam os homens à loucura para beberem e se banharem no sangue deles, para ficarem sempre jovens e belas.
-- Isso me faz pensar em outro aspecto de um dom.
-- Não, eu não bebo sangue! É só uma lenda!
-- Não é isso. É a questão da responsabilidade. Só porque você pode fazer, não quer dizer que deve. Eu não duvido que realmente houvesse, no passado, mulheres belas, poderosas e influentes, que começassem a se achar superiores e fizessem esse tipo de coisa, originando essas histórias.
-- Eu não sou assim, Max. E nunca vou ser.
-- Então estamos juntos nessa. – Max sorri, tentando confortá-la. Angela dá um meio sorriso, mas ainda meio confusa, então para de sorrir e dá um longo suspiro antes de voltar a falar.
-- Eu preciso tirar a queixa contra o Tyler.
-- Não. Você pode retirá-la, se quiser, mas não precisa.
-- Eu não sei mais o que pensar, eu... Você tem certeza disso, Max? Há muitos anos eu pensava isso. Que eu pudesse ser responsável pelo que acontecia... Como se fosse um... sei lá, um karma de família. Mas ouvir de outra pessoa torna isso tão... real.
-- Tenho certeza, Angie. Não posso ignorar as evidências.
-- Eu preciso ficar sozinha... – Ela diz, baixando a cabeça.
-- Certo... – Max se levanta do sofá, pesaroso. – Eu... vou esperar seu contato. Podemos resolver isso, ok?
-- Eu espero que sim... – Ela diz, desanimada e sem levantar a cabeça.
Max se dirige à porta do apartamento, abrindo-a e olhando pra trás por mais um momento. Sente um aperto no peito, imaginando o que se passava com Angela, então fecha a porta e volta até ela, abraçando-a, colocando a cabeça dela em seu peito e beijando o topo.
Angela é pega de surpresa, ficando sem reação por um momento, mas depois enlaça Max nos braços, retribuindo o abraço com força, começando a tremer e chorar. Ele mantém o abraço apertado, enquanto acariciava os cabelos dela pelo tempo que ela precisasse. Ficam assim por alguns minutos, até que ela vai se recuperando.
O investigador só conseguia imaginar uma pequena parte do que podia ter acontecido com ela, devido àquela influência involuntária. Imaginar todos os que sofreram ao redor das musas era triste, depressivo, mórbido. A mesma coisa que matou a mãe dela, poderia tê-la matado na noite em que ele invadira o apartamento. Ela finalmente respira fundo, enxuga as lágrimas e fala baixinho.
-- Obrigada por voltar...
-- Ir embora não pareceu uma boa escolha. – Max diz, sorrindo triste com a situação dela.
Angela encolhe as pernas no sofá, ficando encostada no ombro de Max, coberta pelo abraço e parcialmente deitada sobre ele.
-- Tem certeza que eu não te influencio?
-- Passivamente, não... – Max responde, lembrando das vezes em que ela conseguia influenciá-lo de forma totalmente irresistível.
-- ... E ativamente?
-- Quando você canta... É como um transe. É meio... hipnótico. Fica bem difícil resistir ou até pensar. E quando você... quando a gente transa... É ainda muito mais forte. Fica irresistível.
-- É por isso que... – Angela arregala os olhos em compreensão. – Eu conversava sobre sexo com minhas amigas e... O que elas falavam, era sempre bem diferente do que eu vivenciava. Sempre.
-- É, com você é... É difícil parar. – Max comenta, pensando nas verdadeiras maratonas noturnas que sempre o levavam a desmaiar de exaustão. Angela se afasta do abraço dele.
-- Max... Você me falou que sua família tem problemas com raiva. Sei que você diz que consegue se controlar, mas... – Ela para de falar, procurando as palavras.
-- Mas...? – Max pergunta, baixando a cabeça, já imaginando o que viria.
-- ... E se você não conseguir? E se... acabar como o Tyler... ou o Mike... ou o Dennis... ou o George? – Ela se envolve em seus próprios braços, lembrando quantos relacionamentos haviam terminado mal.
-- Se eu não conseguir me controlar... – Max suspira antes de continuar. – O que quer que eu diga? Que provavelmente eu te mataria? Que provavelmente serei eu a te dar o mesmo destino de sua mãe, após te prevenir sobre isso? Eu não acredito nisso, Angie... Vai contra tudo aquilo que eu sou hoje. Se eu ficasse como eles... Não, antes disso. Se eu visse medo e sofrimento nos seus olhos... Não precisaria ver na sua pele... Eu iria embora. Viraria as costas e partiria para Boston no primeiro ônibus para procurar ajuda. Nem ao menos voltaria ao hotel. É nisso que eu acredito.
-- P-promete?
-- Por tudo que me é sagrado.
Angela sorri, com um pouco de esperanças por aquelas palavras, ou apenas querendo acreditar nelas. Leva as mãos ao rosto de Max e beija suavemente seus lábios, enquanto ele levava uma mão à nuca dela, abraçando-a com a outra. Se sentia bem por poder dar alguma esperança e reduzir um pouco o sofrimento que ela sentia. Era para aquilo que estava ali.
Após algum tempo se beijando, ficam abraçados se acariciando no sofá, em silêncio, trocando poucas palavras. Angela parecia pensativa, aceitando sua condição e se preparando para lidar com ela. A noite vai se aproximando, quando o telefone dela toca. Após atender e conversar rapidamente, ela desliga e se vira para ele.
-- O Molly Bloom’s já vai abrir...
-- É, preciso ir. Pegar a chefe não serve de desculpa pra faltar ao trabalho. – Max diz, sorrindo.
-- É, não mesmo... – Ela o puxa para um último beijo. – Dia 30, ainda vamos...?
-- Você quer?
-- Eu quero, e você?
-- Também. Mas precisa se esforçar pra controlar sua influência. Encare como uma recompensa, um incentivo. Que tal?
-- Eu vou tentar... Prometo.
-- Então temos um trato. – Max sorri, dando mais um beijo antes de seguir para o trabalho como segurança no Molly Bloom’s.
Os dias seguintes passam rápido e sem muitos acontecimentos. Max aproveitava o tempo livre para se exercitar e conhecer melhor a cidade. O trabalho no bar era fácil, graças a seus sentidos aguçados e forte intuição, sabendo reconhecer possíveis confusões antes de piorarem. Os colegas funcionários eram simpáticos e amigáveis, tornando o ambiente bastante agradável.
Angela mantinha distância. Ficou longe do trabalho, passando apenas rapidamente para acompanhar se tudo estava em ordem e indo embora logo em seguida. Parecia evitar todo mundo, e Max não sabia se isso era bom ou ruim. Não trocou nenhuma palavra com ele, apenas sorrindo e acenando de longe. Na noite do dia 29, enquanto observava o movimento do bar, sentiu o celular vibrando com uma ligação de Annie.
-- Oi, pulguento.
-- Oi, bruxinha. Ficou com saudades? – Max atende, sorrindo.
-- Talvez. Apesar que o sofá aqui está bem mais limpo depois que você deu uma sumida. – Ela diz, rindo.
-- Bom saber que você finalmente limpou alguma coisa nessa casa. – Ri também.
-- Ei, você conversou com a Angie, né?
-- Conversei. Ela prometeu que ia tentar controlar. Alguma novidade?
-- Ela tá estranha... Meio que evitando contato com o mundo. Ontem, quando foi atender o cara da pizza, ficou meio que encarando ele. O cara ficou até meio encabulado. Foi estranho.
-- Eu não sei o que dizer, Annie. Ela deve estar tentando o que acha que pode funcionar.
-- Uhum, eu sei. Eu queria te agradecer por ter falado com ela. Angie tá procurando ajuda, até ligou pra tia Casey, hoje. Ficaram se falando um bom tempo. – Ela diz, em tom animado, enquanto Max ficava preocupado.
-- Hã... Não era exatamente isso que eu esperava...
-- Por quê?
-- Olha, Annie... Não me leve a mal, mas... Eu não confio muito na sua tia.
-- Quê? Por quê? Ela é legal, ela se preocupa com a gente e... – Então baixando o tom de voz, continua. – ...ela entende dessas coisas, sabe? Ela pode ajudar a Angie.
-- Annie... Ela te deu o livro e a boneca.
-- Sim... mas não foi pra eu fazer nada. Ela me deu o livro pra que eu estudasse enquanto estava aqui. A boneca... foi só uma das bonecas que escolhi. Não pensa bobagem dela.
Max suspira, sem saber como prosseguir com aquilo. Não queria se arriscar colocando-se em uma posição entre Annie e sua tia. Pelo menos, não de forma evidente. Isso poderia fazer Annie deixar de confiar nele e buscar uma maior aproximação com a misteriosa mulher que os instintos de Max diziam não ser confiável.
-- Existem pessoas que fazem muita coisa sem precisar fazer quase nada, Annie. Eu... prefiro me precaver. Com esses assuntos, precaução nunca é demais.
-- Você não conhece a tia Casey e não sabe do que tá falando. – Annie afirma irritada e desliga o telefone em seguida. Max suspira novamente. “Que ótimo...”
Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário
O Pi

avatar

Mensagens : 88
Data de inscrição : 01/06/2015
Idade : 30

MensagemAssunto: Re: Salem Ao Cair da Noite   Sab Jan 21, 2017 5:47 pm

O ano do tigre

Molly Bloom’s. Salem, Massachusetts. 29 de Dezembro de 2015.
O trabalho seguia normal e tranquilo, apesar da movimentação do bar estar relativamente elevada devido ao fim do ano. Muitos happy hours por ali, para comemorar entre amigos e colegas antes da real chegada do ano novo. Ao final do expediente, Angela apareceu para conferir tudo com o Fred. Depois que ela termina, Max percebe uma oportunidade para se aproximar.
-- Hey...
-- Ho... Let’s go! – Angela responde completando e sorrindo da brincadeira.
-- Então vamos. – Max concorda, sorrindo também. – Já fiz as reservas pra amanhã.
-- Mas já? Você não... quer saber nem se eu consigo... – Ela baixa a voz. - ... controlar?
-- Claro que quero! Consegue? – Max pergunta, curioso.
-- Acho que sim. – Ela responde, sorrindo. – Vem comigo.
Os dois deixam o bar e seguem para o estacionamento já deserto, onde apenas a camionete de Angela estava. Ela abre a porta e pega o violão lá dentro. Max sorri, animado e temeroso ao mesmo tempo.
-- Tá, espera um pouco aí. – Ele diz, fechando os olhos por um instante e tirando o colar com a pedra de rio do pescoço, guardando-o no bolso. Depois inspira fundo e abre os olhos diante dela, sentindo um frio na barriga, um temor de acabar sendo influenciado ao se expor daquela maneira aos mistérios da Leanan Sidhe. Angela começa a tocar o violão e a cantar “Bring me to life”, do Evanescence.
-- “Wake me up inside. Wake me up inside. Call my name and save me from the dark. Bid my blood to run. Before a come undone. Save me from the nothing I’ve become. Bring me to life”.
Ele assiste a ruiva cantando. Ela era bela, incrivelmente bela, e sua voz era linda, mas a sensação de exagero parecia sumir. O ímpeto de tê-la não estava mais ali. Podia apreciar a beleza e a canção. Era uma mulher bonita normal, não exatamente como qualquer outra, pois mesmo agora Angie ainda era muito especial, mas pelo menos não parecia nada absurda. Max sorri mais tranquilo.
-- Você é linda...
-- Não funcionou?! – Angela arregala os olhos, fazendo Max rir.
-- Eu acho que funcionou. Vou querer saber como fez.
-- Segredo. – Angela responde, abrindo um largo sorriso e guardando o violão novamente no banco traseiro da camionete, para depois se virar e pegar na mão de Max.
-- Ah, qual é? – Ele reclama, rindo.
-- Ué, segredo deixa de ser segredo se te contar. – Ela ri, levando a outra mão ao peito dele, se aproximando. – Vai me dizer aonde fez as reservas?
-- Não, também é segredo. Vai ter de dirigir vendada até lá.
-- Haha, vou apostar nisso.
-- Então... ficamos juntos essa noite, pra sairmos amanhã cedo?
-- Uhum. Vou passar em casa para pegar minha mala e dormimos no hotel.
-- Annie já está avisada? Deixou bastante ração e água pra ela?
-- Ela vai sobreviver, chamei uma babá pra tomar conta dela.
Os dois entram na camionete e deixam o Molly Bloom’s, seguindo ao apartamento de Angela.
-- Annie! Cheguei! – Angela se anuncia ao abrir a porta.
-- To no quarto! – Annie responde lá de dentro.
-- Também cheguei, vista-se! – Max também se anuncia.
-- Argh! Angie! Tira esse pulguento daqui!
-- Vou fazer as malas, já volto. – Angie diz, seguindo pro quarto.
Max vai até o quarto de Annie, encontrando-a na frente do notebook. Ela o olha e depois volta a encarar a tela do computador.
-- Hey, vai ficar bem por aí? – Ele pergunta, puxando assunto.
-- Vou. Já roubaram minha irmã por mais tempo. Supero um ou dois dias.
Max sorri, ficando alguns instantes em silêncio. Quando volta a falar, o faz em um tom baixo para Angela não ouvir.
-- Ela controlou, Annie. – A garota se vira surpresa, então dá um sorriso de lado.
-- Eu sabia que iria.
-- É, eu sabia também. Mas me surpreendi com a velocidade.
-- Ela deve ter tido ajuda. – Diz, com um toque de convencimento na voz, fazendo Max rir.
-- Está chateada comigo pelo que falei da sua tia?
-- Talvez... Mas isso pode ser revertido.
-- Pode, é? – Max pergunta, desconfiando, mas sorrindo, enquanto cruza os braços e se encosta ao batente da porta do quarto.
-- Aham. É só você comprar para a irmã da sua ficante uma cesta cheia de chocolates. Tudo fica numa boa. – Ela diz, sorrindo, fazendo Max rir.
-- Vou pensar no seu caso. Como está o seu progresso? Já descobriu se também tem a mesma habilidade da Angie?
-- Estou tentando, tomando cuidado. Saí com minhas amigas, falamos com uns garotos, mas... É difícil... Prefiro pesquisar e ler sobre o que podemos ser. Inclusive sobre você.
-- Sobre mim? Como assim? – Max pergunta, parando de sorrir.
-- Berserkers. Eu li sobre isso. Acho que você é um. Eram guerreiros que entravam em um estado de fúria tão grande que suas peles podiam repelir armas. Meio exagerado, talvez, mas uma possível tradução para o termo é “sem camisa”. Porque eles eram tomados por um frenesi tão insano que se lançavam despidos contra os inimigos, sem medo algum. Não sei bem como é o seu caso, mas essa fúria toda pareceu com o que você disse. O que acha?
-- É, talvez... – Os barghest certamente lutavam “sem camisa” quando a fúria lhes tomava, mas duvidava que tinham relação com esses berserkers. Talvez outros Tuatha dé Mor-Ríoghain tivessem dado origem àquela história. Aqueles que não aderiram ao Pacto feito com a humanidade nos tempos antigos, como os sanguinários ulfhednar, inimigos ancestrais dos barghest em suas terras natais.
-- Os berserkers eram guerreiros nórdicos considerados como tocados pelo deus Odin para serem possuídos pela fúria divina, mas outras culturas também tinham seus guerreiros furiosos. Os iranianos chamam esse furor de aesjma, e os indo-iranianos de ishmin. Na Grécia, tinham o “divino furor de Dionísio”, ou a ira apaixonada do herói Aquiles, que também diziam ser invulnerável a qualquer arma. Os celtas também tinham seu herói mítico, Cú Chulainn, que se apoderava do “warp-spasm”, ou espasmo deformante. Queria ver você em ação, pra comparar.
Max conhecia bem a lenda de Cú Chulainn, O Cão de Culann. Era a epítome do guerreiro para os barghest, que acreditavam se tratar de um deles. Annie estava bem próxima da verdade. Ele se aproxima, olhando a tela do computador e vendo um site de cor preta com imagens de fundo mostrando as fases da lua, um pentagrama e astros e constelações. Havia uma página com alguns esboços e desenhos antigos, escaneados de livros deteriorados em um idioma desconhecido. Havia traduções embaixo e um chat no canto inferior onde alguns usuários conversavam.
-- Prefiro não ter que “entrar em ação” com você por perto. Significaria que você estaria em perigo. Foi aí que leu sobre isso, é? – Diz, indicando o site com a cabeça.
-- É o umbral.com, um site de ocultismo onde tenho uma conta. Eu uso ele pra descobrir coisas maneiras.
-- Annie, isso... Essas coisas... – Max suspira, esfregando a mão no rosto. – Não são “coisas maneiras”, Annie. São coisas perigosas. Muito perigosas. Eu achei que você tivesse aprendido isso.
-- O que? Ler sobre isso é perigoso, agora?!
-- Claro que sim, Annie! Coisas pequenas crescem! Você começa com algo que acha inofensivo. Começa com uma boa intenção. E quando vê, você está diante de três pessoas assassinadas brutalmente e sua própria vida está em risco! – Annie aperta os lábios, claramente envergonhada e nervosa. Ela leva alguns instantes para responder.
-- Eu não vou praticar nada que não tiver controle, Max. Eu prometo! Eu só quero me manter informada sobre o que está a minha volta... É inevitável querer saber.
-- Por que, Annie? Pra quê?
-- Eu... só quero saber. Não sei um por quê.
-- Esteve conversando sobre esse tipo de coisa? Sabe que podem te rastrear? Sabe que minha primeira suspeita, quando você desapareceu, foi que teria sido atraída por alguém perigoso que tivesse descoberto seu interesse por esse tipo de assunto?
-- Não, eu nunca converso com ninguém sobre isso. Tá, fica óbvio já que eu gosto de ter amuletos, e leio a sorte no tarot, mas não falo mais do que isso. Tia Casey me advertiu sobre isso, ok?
-- E quanto a essas conversas aí? – Diz, apontando o chat na página.
-- Não é minha conversa, isso é um chat do site. Qualquer um pode entrar com um nick e comentar algo. A conversa não fica registrada.
-- Pessoas de qualquer lugar?
-- Desde que seja cadastrado no site.
-- Hm... Não saia por aí, à noite, sozinha, pra se informar, ok?
-- Okay...
-- Não faça.
-- Não vou.
-- Tá... – Max olha mais uma vez pro notebook, antes de voltar pra abrir a porta. – Estaremos de volta no dia 31, a tempo pro show.
-- Sim, Annie. – Angela diz, saindo do quarto. – Não coma todos os biscoitos que comprei, ok?
-- Se divirtam. – Annie diz, fechando a página do umbral.com.
A camionete segue para o hotel onde Max estava hospedado, e logo ambos sobem para o quarto do investigador. Ele começava a experimentar o sabor do toque de Angela sem a influência da musa. Era diferente, tranquilo, controlado, mas ainda muito prazeroso. Não o faria perder a cabeça naquele êxtase desesperado de luxúria, podendo aproveitá-lo sobriamente, e essa perspectiva acalmava o caçador dentro dele. O perigo que aquela mulher representava tinha diminuído, ao menos um pouco.
Os dois dormem juntos e, na manhã seguinte, ele acorda primeiro que ela, se levantando com cuidado para não acordá-la. Max a observa por alguns instantes, apreciando a beleza da moça e lembrando a noite anterior. Puderam se satisfazer mutuamente e terminar antes de desmaiar de exaustão. Ela tinha controlado. Seu trabalho em Salem estava terminado. Poderia retornar a Boston ou seguir pra outro lugar, se já tivesse outro caso. Partiria após a virada do ano. Tinha trabalho a fazer. Sempre tinha. Nunca acabava. Então passou a mão nos cabelos, preocupado com o que estava sentindo. Aos poucos, Angela foi acordando e abrindo o sorriso.
-- Hey, bom dia...
-- Bom dia... – Max responde, sorrindo e deixando a preocupação de lado.
-- Então... vai me contar pra onde vamos? – Ela perguntou, dando um beijo nele.
-- Quer trocar segredos, é? – Ele se senta ao lado dela e a acaricia.
-- E você vai dirigir, por acaso? – Angela pergunta, pegando a mão dele e beijando.
-- Golpe baixo. – Max ri de sua falta de familiaridade com o volante. – É uma cabana, fica entre Salem e Lawrence. Tem uma lareira, equipamento para esquiar... Desocupou após o natal e a próxima reserva seria só depois do ano novo, então ficou livre pra gente.
-- Que fantástico! – Angela disse, abrindo o sorriso largo e se sentando na cama. – Tem a rota pra chegar lá?
-- Claro, não quero perder tempo ficando perdido na estrada.
-- E não é esse tipo de aventura que queremos, né? – Ela ri e ele a acompanha.
-- Não mesmo. Vai me contar seu segredo agora?
-- Porque quer tanto saber como eu controlei? – Ela pergunta, sorrindo e acariciando o braço dele.
-- Estou curioso, foi muito rápido! Fiquei realmente impressionado. E sou investigador, tenho uma queda por descobrir segredos.
-- Eu... falei com minha tinha Casey. – Ela responde, sorrindo. – Ela não teve tantos problemas quanto a gente, sabe? E ela é a cara da minha mãe, obviamente devia ter herdado a mesma influência. Então eu perguntei qual o segredo dela.
-- Hmm... E o que ela disse?
-- Ela conversou um pouco comigo sobre como se portar, como andar, como olhar e, principalmente... como falar com as pessoas. É estranho, mas parece que tudo está no nosso tom de voz e comportamento. Eu segui alguns exercícios de vocalização e deu certo.
Max engole em seco e sorri, tentando não transparecer a impressão de que a coisa não podia ser tão simples assim. Não podia ser apenas isso. Angela aprendera rápido demais. Mas a possibilidade que tinha em mente era terrível. Será que a tia poderia tê-la influenciado a se controlar? Mesmo estando tão distante?
-- Legal... Você... se dá bem com essa sua tia? Me pareceu que as relações não eram das melhores, por causa da Annie.
-- Não somos próximas... mas eu espero que as coisas mudem, que deixemos nossas diferenças para trás, entende? Afinal, somos família.
-- Entendo... – Max diz, lembrando do pingente com a pedra de rio no bolso da jaqueta, no chão. Seria prudente não se desfazer dele. – Então... vamos?
-- Uhum!
Angela concorda sorrindo e se levantando, enquanto Max começa a se vestir sem pressa, assistindo a ruiva, tentando gravá-la o melhor possível em sua mente. Ela era bonita de todas as formas, mesmo logo depois de acordar, mesmo se vestindo com os cabelos bagunçados. Se a influência dela tinha sido reprimida, porque ainda sentia aquela pontada ao imaginar-se indo embora de Salem? Depois de prontos, Max prefere que comprem algo para comer no caminho, pois desde o caso de Nancy Walker, estava evitando o refeitório. Bastavam as cartas anônimas e os olhares atravessados. Após passarem num Dunkin’ Donuts, seguem viagem ouvindo uma música de Eddie Vedder.
-- Seus pais também eram músicos? – Max pergunta, enquanto acompanhava o trajeto através do mapa com a localização no celular.
-- Uhum, eram. Meu pai era compositor e tocava piano, criou o Molly Bloom’s em homenagem à minha mãe, sabe? Muitos artistas iam lá se apresentar...
-- Mas...
-- ... mas meu pai compunha pra minha mãe cantar. Quando ela começou a fazer alguma fama e atrair... fãs... ele foi pirando.
-- E desde então... sem mais apresentações?
-- É, sem apresentações. Eu fiquei meio traumatizada. Nunca quis ser vocalista por causa disso, sabe?
-- E o que te fez mudar de ideia, pra apresentação na virada do ano?
Angela o olha de lado, dando um sorriso sem graça, meio tímido.
-- Eu... tomei coragem depois que te conheci. – Ela responde e Max sorri ao ouvir aquilo.
-- Sério? Por quê?
-- Eu não sei explicar, depois do que você fez... Você falou sobre boas escolhas... Me fez pensar nisso, deixar meus medos. Você tem um dom de trazer esperança, eu acho. – Ela diz, rindo e sendo acompanhada por ele.
-- É bom ouvir isso. Pensa em retomar as apresentações no Molly?
-- Se você prometer ir me assistir algum dia, sim.
-- Isso eu posso prometer.
-- E... sobre você? Não me falou muito sobre sua família. São de onde?
-- Morávamos em Boston. Não há muito o que dizer além disso. – Max dá de ombros, evitando o assunto. Sua família era um clã Barghest e ninguém fala muito sobre esses sinistros cães negros. Não fora do clã. O silêncio era uma das regras implícitas entre eles. Mesmo que não existissem mais.
-- Hm... E como você se tornou detetive? Você falou de um amigo que te ajudou. Ele também é dessa área?
-- Não da área de investigação, mas da área de ajudar pessoas. Ele é padre.
-- Oh, sério? – Ela se vira levemente para olhar para ele, sorrindo, mas depois retorna à estrada. – Que legal. Imagino que já deve ter viajado o país inteiro resolvendo casos.
-- Não exatamente... O país é bem grande. Eu viajo mais por Massachusetts. Já tive de ir a Connecticut e até Nova Iorque, mas no geral fico por aqui. Ficou surpresa com meu amigo padre?
-- Bem, um pouco. Não imaginava, apesar de agora entender melhor o pagamento que me propôs.
-- Eu não faço muito o tipo religioso, né? A verdade é que nunca tive muito disso na minha família. Foi só depois de adolescente que fui conhecer melhor. O pagamento que te propus é a forma como eu enxergo Deus. Pessoas fazendo o que podem para ajudar as outras.
-- Eu era bem religiosa quando mais nova, ia a missa com minha mãe todo domingo. Aprendi a cantar no coral da igreja. Mas depois que perdi minha mãe, eu me afastei muito.
-- Acho que a religião é apenas uma das formas de conhecer Deus. Se afastar da religião não é um problema. Se afastar Dele, é.
-- É...
-- Você comentou de mim pra sua tia? – Max muda de assunto, ao pensar novamente em como Angela conseguira controlar sua influência.
-- Mencionei que um detetive particular encontrou a Annie, não dei detalhes. Por quê?
-- Não disse que fui eu que te falei sobre essa sua... capacidade familiar?
-- A minha tia... não confia muito em homens, Max. Ela diria que você estava me manipulando de alguma forma, como ela sempre fala. – Angela responde, receosa, e Max engole em seco. – Preferi evitar falar disso. Não falei nem sobre como me ajudou com o Tyler. Muito menos que estamos saindo por um tempo.
-- Entendi. Fez bem. Esse nosso lance é bem... particular. E eu sou investigador particular. Eu prefiro me manter... hã... na minha, sabe? Discreto.
-- Claro, sem problemas. Também não quero muita intimidade assim com ela.
-- Obrigado.
O caminho segue entre conversas casuais. Max percebe que Angela dirigia muito bem, mesmo nas estradas esburacadas de Massachusetts. O tempo estimado até a cabana era de duas horas, mas Angela conseguiu fazer em menos tempo. Em apenas uma hora, já subia a colina onde se podia ler “The Wislow’s Cabin” na placa indicativa.
Max havia pego as chaves com a dona em Salem, pagando em dinheiro. Ela explicou onde ficava a caixa de energia da casa e a loja de conveniências mais próxima. Enfim, Angela estaciona de frente à cabana, feita de madeira, com uma chaminé, a três degraus acima do solo e uma descida perfeita para esquiar ou praticar snowboarding. Parecia um ótimo investimento para a despedida de Salem.
-- E então? O que achou? – Max pergunta, se virando para Angela após sair do carro e fitar a casa, sorrindo satisfeito.
-- Achei ótimo! Perfeito. – Angela responde, respirando o ar da montanha.
-- Vem, vamos entrar. – Estende a mão para acompanha-la até a porta, apanhando as chaves no bolso para abrir.
Eles caminham juntos até a entrada da casa, que parecia estar em bom estado, apesar do ranger da madeira ouvido ao pisarem no assoalho. Após Max abrir a porta, adentram uma grande sala, com uma lareira de pedra, uma mesinha de centro, dois sofás largos e um tapete de urso no chão. Um corredor pequeno levava aos quartos, enquanto ao lado havia uma sala de jantar com uma grande mesa, e depois uma cozinha com duas geladeiras, um fogão e armários.
-- Fique à vontade, vou buscar as malas e ver se encontro lenha pra lareira. – Max disse, retornando ao carro.
-- Certo. – Angela responde, adentrando e explorando o lugar.
Max busca as malas e depois dá a volta na casa até encontrar o depósito de lenha bem abastecido. Ele apanha uma braçada e volta pra dentro, para acender a lareira, enquanto Angela abastecia os armários e geladeira com a comida que levaram. Aos poucos, a casa que estava fria começa a se esquentar com o fogo da lareira, permitindo que Max e Angela retirassem seus casacos. Ela prepara um fondue de queijo e carne e leva para a sala, chamando o detetive para se juntar a ela no sofá.
-- Já está melhor do que eu imaginava. – Max diz, impressionado com o fondue.
-- Então estamos quites. – Ela responde, sorrindo.
Max busca uma garrafa de vinho e serve em duas taças, apanhando uma e erguendo para propor um brinde.
-- Ao presente, pois é a única coisa garantida que temos, e a única que realmente precisamos. – Ele diz. Angela sorri, pegando a outra taça e brindando com ele e complementando.
-- Dedica-se a esperar o futuro apenas quem não sabe viver o presente.
Os dois almoçam o fondue regado a vinho e, depois, para aproveitar o sol, pegam o equipamento de esqui e snowboarding, e descem a montanha. Max, muito mais atlético que Angela, segue em alta velocidade, desviando de obstáculos e saltando pedras no caminho, sentindo o vento gelado em seu rosto protegido pelos óculos de neve. Angela seguia mais atrás, com alguma dificuldade, mas se divertindo enquanto pegava o jeito. Os dois riem e se divertem bastante.
Voltam para a cabana ao entardecer. Angela coberta de neve depois de tantas quedas, e Max ajudando-a a tirar a neve, depois o casaco e outras peças de roupa em frente à lareira, começando as carícias e beijos. Se aproveitam um do outro naquele momento de isolamento do mundo. Max assiste a uma apresentação de “dança”, enquanto Angela se despe, e os dois seguem para cima do tapete de urso. Após o sexo, se cobrem com uma manta e ficam deitados na sala, ofegantes e satisfeitos. Angela logo dorme, enquanto Max permanece acordado, se levantando e olhando pela janela.
Era noite de lua nova. Ele assiste a solidão da montanha e seus ventos uivantes de inverno. Para os Barghest, era o Ciar Samhaim, onde celebravam a aproximação do mundo dos vivos com o dos mortos. Contavam histórias de terror e bravura ao redor do fogo, e tiravam um tempo para a introspecção, onde pensavam sobre o passado, o presente e o futuro.
Nos últimos tempos, Max pensara bastante sobre sua família perdida. Tinha um Geas a cumprir e o vinha cumprindo há anos. Era um caminho solitário. Acreditava estar vivendo como um Barghest, mas estava se enganando em um aspecto importante. Lobos são seres sociais. Vivem em bandos. As circunstâncias levaram-no a se relacionar, se envolver, e agora sentia que não queria voltar atrás.
Mas como poderia conciliar seu Geas com aquilo? Não era realmente um Barghest. Não podia adentrar o Campo de Caça, desaparecer nas sombras, rasgar metal ou fazer qualquer das coisas que um verdadeiro Cão de Arawn podia e fazia para defender os seus. Os perigos eram grandes demais.
Max olha para Angela adormecida, e pensa em sua tia, influenciando-a do outro lado do oceano. A fúria gela seu peito conforme o caçador impiedoso concorda friamente que ainda havia trabalho. Sempre havia. Nunca acabava. Barghest ou não, defenderia os seus. Mesmo que não pudesse chama-los assim.

Na manhã seguinte, Max e Angela aproveitaram mais da companhia um do outro, com chocolate quente, esqui e snowboarding na colina. No final da tarde, arrumaram as malas e fecharam a casa para retornar a Salem. Max dá um suspiro de satisfação e ao mesmo tempo de pesar pelo fim daqueles prazerosos momentos com a musa. Angela sorria, um sorriso distante, enquanto dava partida no carro e voltava pra estrada.
-- Foi divertido. – Ela diz, ainda sorrindo.
-- Mesmo com todas aquelas quedas na neve? – Max brinca.
-- Haha, quando a dor vier para me lembrar que não foi tão divertido assim, você vai estar longe. Não se preocupe.
-- É, provavelmente... – Ri sem graça. – Ansiosa pelo show?
-- Bastante. E com medo, ainda.
-- Eu estarei lá nos bastidores, de olho em você. Mas acho que vai dar tudo certo.
-- Obrigada pelo apoio. – Ela o olha, sorrindo, depois volta a olhar pra estrada.
-- Eu que agradeço. – Max leva a mão ao rosto dela, acariciando suavemente, sorrindo, pensativo. – Você me proporcionou algumas coisas realmente únicas.
-- Eu vou sentir sua falta. – Angela responde, esfregando o rosto na mão dele.
-- É... – Ele diz, puxando a mão de volta e se virando para olhar pela janela. – Eu... Eu também vou... Mas serão boas memórias, sem nenhum final trágico.
-- É verdade, tenho que te agradecer por isso. – Ela diz, sorrindo.
-- E eu a você. – Ele responde, voltando a olhar pra ela. – Qual será o repertório dessa noite?
-- Ah, eu estava pensando em algo mais country e tranquilo, terá muitos casais no réveillon. Tocarei alguma coisa de Eddie Vedder, algum clássico do Pearl Jam, e uma especial, composição minha. – Ela sorri, orgulhosa. – Eu nunca perguntei, que estilo você prefere?
-- Eu não tenho muitas preferências ou exigências. Folk, eu acho. É meio nostálgico e... familiar. Também gosto de rock e country. Pelo menos, era o que costumava tocar nos lugares que eu frequentava em minha juventude desperdiçada. Fora isso, não tenho muito contato com música. Quero dizer, quando perguntei se tinha chance com você, foi justamente porque pensei que essa minha... aptidão artística completamente nula... poderia ser totalmente desinteressante pra uma artista talentosa e com uma queda por artistas.
-- Vou ver se adiciono algo de folk no meu repertório de hoje. – Sorri e olha pra ele um pouco antes de voltar os olhos pra estrada. – Na verdade, você me convenceu a dar uma chance quando disse que a mudança poderia ser uma coisa boa. Eu só saía com artistas e me ferrava. Me fez pensar que se eu mudasse meu foco... poderia encontrar pessoas diferentes, que pudessem me fazer bem. Ou seja, foi uma boa escolha.
Max sorri ao ouvir aquilo, e volta os olhos pra estrada, pensativo. Alguns instantes depois, se vira novamente para Angela.
-- Então você também compõe? Sobre o que é essa música?
-- Sobre... as falhas na perfeição. – Ela responde, dando de ombros. – É um tema meio bobo, mas a letra fluiu.
As falhas na perfeição... Angela devia conhecer bem aquilo. Perfeição era exatamente a palavra que surgia na mente ao se olhar para ela. Mas era um olhar superficial, que se enganava na ilusão projetada pela beleza, o talento e a atração. Ao se aprofundar naquela perfeição aparente, percebia-se as falhas causadas por ela própria.
-- Parece interessante. Há quanto tempo você escreveu?
-- Há uns três anos, quando... – Ela para de falar por um instante. – Quando as coisas estavam indo mal.
-- Não quer falar sobre isso?
-- Não. Falar de ex nunca é um bom tema.
-- Eu não saberia dizer. – Max ri sem graça, tentando amenizar o clima.
-- Como não? – Angela o olha confusa e pergunta rindo. – Vai me dizer que gosta de falar com suas ex ainda?
-- Não, eu não saberia dizer porque não tenho nenhuma ex. Eu não tive muitos relacionamentos duradouros.
-- Oh... Bem, sorte sua, então. Sem ex pra te ligar às quatro da manhã porque está chapado e pensando em você. – Ela diz, rindo.
-- É... Nem em qualquer outro horário, ou por qualquer outro motivo.
-- Mais um ponto. Acho que é o que vou fazer a partir de agora. Sem relacionamentos longos. – Angela diz, concordando consigo mesma com um aceno de cabeça.
-- É uma forma de se viver. – Max diz, rindo.
Os dois continuam o caminho até Salem, chegando ao final da tarde, com o horário apertado. Max fica no hotel, enquanto Angela corre para casa. Tinha de se arrumar e ir direto pro parque, passar o repertório e testar o som. O investigador reúne sua roupa suja e desce pra lavanderia do hotel, no subsolo, onde outras pessoas também aguardavam suas roupas sendo lavadas nas máquinas.
Como iria voltar pra Boston no dia seguinte, e suas roupas limpas estavam no fim, Max aproveitou o tempo que tinha antes do show para não precisar levar roupas sujas na mala. Recebeu alguns olhares ali, mas os ignorou, esperando que perdessem o interesse nele. Não gostava muito de atenção pública. Trabalhar como investigador particular o acostumara a se manter... particular.
“Pelo menos daqui, não vou sentir nenhuma falta”. Max pensa, enquanto aguardava suas roupas serem lavadas, depois colocando-as para secar. Já era quase a hora do show quando terminou o processo e levou seu fardo de roupas limpas de volta para o quarto, onde arruma sua mala e se apronta para o réveillon. Quando entra no elevador para descer ao térreo, uma mulher grita para que ele segurasse o elevador.
-- Obrigada. – Ela diz, ao entrar depois de Max ter estendido a mão para impedir as portas de se fecharem. Era uma mulher com cerca de quarenta anos, alta, de cabelos loiros curtos, que o olha de cima a baixo. – Boa noite.
-- Boa noite. – Max a cumprimenta, em seguida voltando a encarar as portas do elevador. A mulher faz o mesmo por alguns instantes, mas depois volta a olhar para ele.
-- Eu já o vi em algum lugar... Acho que foi na TV.
-- Acho que não... – Max tenta desconversar.
-- Hm... Devo ter me confundido, então.
Max vira o rosto, desconfortável, evitando que a mulher o olhasse, esperando que o elevador chegasse ao térreo logo, quando sai apressado e segue para a rua, pegando um táxi para ir até o parque do evento de fim de ano. Ao chegar a seu destino, vê a grande tenda onde ocorreriam as apresentações, já cheia de gente, a maioria vestida de branco e outras cores claras. Ele avança apertado por entre as pessoas, acabando por esbarrar em um sujeito de dreads.
-- Desculpe. – Max diz, após o esbarrão, enquanto seguia na direção dos bastidores do palco, tentando encontrar Angela ou Annie.
-- Ei, olha por onde anda! – Reclama uma pessoa que acompanhava o sujeito de dreads, mas que Max não conseguia distinguir se era um homem ou uma mulher. O rosto era fino e sugeria feminilidade, mas as roupas pesadas masculinas e o cabelo curto deixavam a dúvida no ar.
Max não parou para a provocação, ignorando e apenas seguindo até a entrada dos bastidores, onde um segurança se pôs em seu caminho.
-- Estou com Angela Bloom. – Max explica, esperando conseguir entrar.
-- Qual seu nome? – O segurança pergunta, com uma lista em uma prancheta.
-- Max MacTíre.
Ao encontrar o nome na lista, o segurança dá espaço para Max entrar, então ele avança pelos bastidores, onde ficavam diversos estandes onde os artistas se preparavam e aguardavam sua vez de subir ao palco. Não era nada muito sofisticado, praticamente apenas um banco e uma prateleira entre paredes finas improvisadas. Max facilmente encontra Angela com seu longo cabelo ruivo brilhante e sua beleza estonteante, em um vestido branco com casaco preto, e Annie a seu lado.
-- Quanta gente, hein? – Max diz, se aproximando das duas. Então se vira para Annie, sorrindo. – E aí, bruxinha? Tudo certo?
-- Hey, pulguento! – Ela abraça o recém-chegado.
-- É... Gente demais. Não pensei que ia ser tanta gente. – Angela diz, meio nervosa. Max se aproxima, levando as mãos aos ombros dela, fazendo uma rápida massagem.
-- Relaxa, vai dar tudo certo Você é ótima.
-- Infelizmente, tenho que concordar com ele, Angie. – Annie complementa.
-- Ok, ok. Vou tentar me acalmar e aquecer a voz.
Max sorri, olhando-a de cima a baixo, analisando a vestimenta para uma eventual necessidade de fuga. O vestido branco de Angela possuía fendas para as pernas se moverem, deixando para a meia-calça preta o trabalho de proteger contra o frio, mas os saltos altos dos sapatos seriam um empecilho, caso precisasse correr. Ele olha ao redor, buscando por rotas de fuga, sendo a mais próxima pelos fundos do palco. Então balança a cabeça positivamente para si mesmo, concordando com o curso de ação a ser tomado em caso de emergência.
As apresentações, enfim, começam, com os primeiros sendo alguns jovens em um coral de igreja. Depois, alguns outros artistas locais se apresentam fazendo covers ou cantando sucessos da estação. Como última atração, Angela subiu ao palco, linda, quase desfilando até o banco colocado junto ao violão e o microfone. Ela se sentou e, após alguns agradecimentos, falou o que iria cantar e começou sua apresentação.
Angela não foi nada menos do que Max esperava. Ela brilhava no palco, deixando o público aturdido e impressionado com sua voz carregada de emoção e significado. Perfeita. Max aplaudia e assoviava entusiasticamente a cada música, mas ainda prestando atenção na reação do público, atento ao perigo. O público explodia eufórico em aprovação ao talento da moça sendo exposto pela primeira vez sem o fascínio de musa.
A apresentação termina com Angela sendo ovacionada, enquanto Max sorria aliviado e trocava olhares satisfeitos com Annie. Já era quase meia noite, então um apresentador assume o palco anunciando a contagem regressiva para o fim do ano. Angela corre, abraçando Max, sorrindo genuinamente feliz, mas antes que pudessem trocar algumas palavras, Annie os puxa para assistirem a queima de fogos.
A multidão acompanha a contagem quando o apresentador começa no microfone: 5... 4... 3... 2... 1... FELIZ ANO NOVO! Os fogos de artifício são disparados colorindo e iluminando o céu. As pessoas se abraçam, sorrindo, enquanto assistiam ao show de luzes. Max abraçava Angela de um lado e Annie do outro, sentindo uma imensa satisfação em passar aquele momento com as duas.
É quando ele ouve o que parecia ser um rugido alto e forte. Max olha para os lados, com o cenho franzido, estranhando aquilo. Logo o rugido se repete, mais próximo, chamando a atenção das pessoas. É quando avistam três grandes tigres andando pelo parque, se aproximando da multidão. Pareciam nervosos, talvez irritados com os sons dos fogos, e mostravam os enormes dentes conforme espreitavam suas presas.
Por um instante, as pessoas se perguntavam o que estava acontecendo, pois mesmo as que viam os tigres não sabiam dizer se era um perigo real ou apenas mais uma atração parte da festa de ano novo. Diferente de Max, que podia sentir o perigo da situação, e rapidamente agarra os pulsos de Angela e Annie com força para que prestassem atenção nele e obedecessem.
-- Se fechem nos camarins. Vão! Rápido! – Em seguida, as solta, empurrando-as de leve para que vencessem a inércia e começassem a se mover.
A situação era tão improvável, que a multidão se negava a abandonar seu estado de “normalidade”. Enquanto isso, os animais se aproximavam, e Max avançou na direção deles. Foi quando as primeiras pessoas começaram a gritar e a correr, iniciando o caos de uma multidão em pânico. Angela pega o braço de Annie e a puxa consigo na direção do camarim. Incitados pela correria, os tigres avançam, saltando com força predatória e agilidade felina, cravando enormes garras e presas em seus alvos, derrubando-os indefesos ao chão, com exceção de um deles.
Assim que enviou as irmãs Bloom para o abrigo, Max avançou na direção de uma das feras, sacando sua faca de caça que costumava carregar oculta pela jaqueta, e deixando a fúria guiá-lo para a violência. Assim que o tigre deu o bote contra ele, Max girou o corpo, evitando-o por pouco, e contra-atacando ao enfiar a lâmina entre as costelas do enorme predador.
Atingido, o tigre guincha gravemente ferido, tamanha a força empregada contra a lâmina, que afunda até o cabo, atingindo órgãos internos. O enorme felino se afasta de Max, cuja faca fica presa entre as costelas do animal que parecia desistir da caçada. Tiros começam a ser disparados pelos policiais que faziam a segurança do local, mas o baixo calibre das armas fazia com que fossem necessários vários disparos. Nisso, segundos eram perdidos juntamente com vidas.
Max avançou a toda velocidade, jogando seu corpo contra o tigre que saltara sobre outro homem. Os dois caíram ao chão rolando, e o tigre, com sua absurda agilidade, logo cravou as garras no investigador, agarrando e abocanhando-o no ombro. Porém, os músculos que encontrou embaixo da pele macia eram muito mais fortes do que esperava. Apesar de sentir o sangue de sua presa, não conseguiu arrancar mais do que uma camada superficial de roupa rasgada e pele.
Os dois se engalfinhavam, com Max tentando se soltar, enquanto o tigre tentava feri-lo e mata-lo. Felizmente, os disparos dos policiais surtiram efeito, e a fera soltou sua presa e começou a se afastar sangrando. O investigador começou a se levantar, enquanto um policial se aproximava com a pistola ainda empunhada.
-- Ei, você está bem? – O policial perguntou.
-- Estou, mas acho que aquele cara ali tá ferido. – Max disse, apontando o sujeito caído e ensanguentado, de quem ele tirara o tigre de cima.
O som de sirenes se aproximando podia ser ouvido, em meio à multidão assustada. Algumas pessoas desmaiaram, outras foram pisoteadas, e havia aquelas poucas que deram o azar de serem os alvos dos tigres. Max corre na direção das pessoas caídas, tentando ajuda-las, afastando a multidão ao redor.
-- Deem espaço!
Uma senhora tinha se machucado muito com a queda, e logo os paramédicos chegaram com uma maca para leva-la para uma das ambulâncias. Max avista Angela e Annie saindo dos bastidores e falando com as pessoas mais próximas, como se procurassem algo ou alguém. Provavelmente por ele.
-- Vai ficar tudo bem, os médicos estão aqui. – Max diz ao sujeito caído de quem se aproximara após a partida da senhora. Então se levanta e segue na direção das duas irmãs. – Vocês estão bem?
-- Max! – Angela se assusta ao vê-lo. A jaqueta e camiseta de Max estavam rasgadas, e seu ombro estava todo ensanguentado. – Precisamos ir pro hospital! Rápido!
-- Calma, eu estou bem. Tem pessoas mais necessitadas por aqui. Como vocês estão?
-- Estamos bem, mas por que você ficou aqui?! Pensei que ia com a gente pro camarim! – Angela estava muito preocupada, com os olhos lacrimejando, olhando do ombro ferido para o rosto de Max.
-- Aquilo é um tigre morto? – Annie pergunta, olhando para o animal caído.
-- Os tigres iam atacar as pessoas, Angie. – Max diz, levando as mãos aos ombros dela para acalmá-la e ver que estava bem.
-- Incluindo você! – Angela o abraça forte e sussurra. – Nenhuma tragédia, lembra? Isso foi perigoso...
-- Foi só um arranhão, não se preocupe. – Ele sussurra de volta, beijando-lhe a cabeça. – Não tenho problema com o perigo, lembra?
-- É, já ouvi isso antes... – Ela diz, se afastando para olhá-lo. – Não quer mesmo ir pro hospital? Tem muito sangue aí.
-- Nada que um pouco de água e um kit de primeiros socorros não resolva.
-- Tá bom. – Ela diz, olhando em volta. – Annie?
A garota tinha se afastado, caminhando por entre a multidão, se aproximando de uma pessoa sentada no chão ao lado de um rapaz com dreads. Aparentemente, era a garota-garoto que gritara com Max antes do show.
-- É a Avery? – Angela pergunta, se aproximando de onde Annie estava, sendo acompanhada de Max. -- Ave!
-- Angie! – A garota-garoto diz, abraçando a ruiva.
-- O que te aconteceu? – Angela pergunta.
-- Eu caí no meio da confusão. Torci o pé.
Max fica ali se sentindo meio deslocado vendo as duas conversando. A androginia da amiga de Angela era um pouco estranha pra ele. O sujeito com dreads que acompanhava Avery parecia estar em uma situação semelhante.
-- De onde será que vieram esses animais? – Angela pergunta.
-- É, pô! Quem deixa uns bichos perigosos desses soltos? Será que fugiram? – Avery complementa.
-- Será que escaparam do zoológico? Bem que sou contra manter animais em cativeiro. – Diz o sujeito de dreads.
-- Cedo ou tarde deve aparecer no jornal o que foi que aconteceu. – Annie diz.
-- Bem, isso certamente acaba mais cedo com a festa, não é? Vamos indo, Angie? – Max diz, começando a sentir as dores da mordida e dos cortes menores feitos pelas garras do tigre enquanto o agarrava.
-- Hã? Sim, vamos. – Angela concorda, se voltando pra despedir de Avery. – Nem sabia que você estaria aqui, podia ter me ligado.
-- Queria fazer surpresa, vi seu nome no panfleto.
-- Poxa, aparece lá no bar qualquer dia desses.
-- Pode deixar.
Angela, Annie e Max seguem pra camionete, deixando o parque, assim como quase todas as pessoas por ali. O investigador inspira, fazendo uma careta de dor pela ferida no ombro. Uma vez que a fúria passara e a violência acabara, era a vez da dor.
-- Não quer mesmo ir pro hospital? Quer que te deixe no hotel?
-- Sim, por favor. A não ser que queira me levar pra sua casa uma última vez.
-- Você que sabe... – Ela diz, com um meio sorriso.
Assim voltaram ao apartamento no sexto andar.
-- Tirando os animais selvagens e o pânico geral, a festa foi muito legal. Você fechou o show com chave de ouro, Angie.
-- É, ainda estou abismada com essa história dos tigres. – Ela diz, tirando os sapatos de saltos altos e indo pro quarto. – Vem cá pra eu dar uma olhada nesse seu ombro. Annie, prepara alguma coisa pra gente comer?
-- Vê se não coloca nenhum olho de sapo ou asa de morcego na comida. – Max diz, rindo, enquanto Annie lhe mostrava a língua e depois ria também.
No quarto, Angela tira o casaco e o vestido branco, para que não sujasse de sangue, e veste seu robe. Em seguida, pega o kit de primeiros socorros em uma gaveta e chama Max para o banheiro, para limparem as feridas. Ele tira os restos de jaqueta e camiseta arruinadas, e toma alguns analgésicos. Angela começa a limpar o sangue, para depois cobrir as feridas no ombro com gaze e esparadrapo, enquanto usava band-aids para os cortes menores pelo corpo.
-- É, não foi tão feio assim. Em alguns dias, você deve estar melhor. – Ela diz, após terminar o curativo.
-- Obrigado. – Max agradece, sorrindo de lado.
Os dois voltam pra sala, onde Annie serve coxinhas de galinha fritas com molho barbecue, cerveja e refrigerante. Os três comem enquanto assistiam na TV as notícias do incidente ocorrido no parque. Os tigres realmente haviam fugido do zoológico, após um homem ainda não identificado ter invadido o local, que servia de abrigo para dois casais de tigres siberianos. Um dos machos teria sido sedado e levado embora pelo invasor, após os três saírem da jaula deixada aberta.
-- Que bizarro. – Angela comenta, levantando e pegando a vasilha com os restos e indo pra cozinha.
-- Demais. – Annie complementa. Depois que Angela se afasta, ela se vira para Max e pergunta em voz baixa. – Vai investigar isso?
-- Não. – Ele responde, também em um tom baixo, após encará-la por alguns instantes. – Não acho que seja coisa pra mim. Deixe a polícia fazer o trabalho dela.
-- Mas... – Ela comprime os lábios. – Tá, deixa.
-- Você falou de mim pra sua tia? – Max pergunta, mudando de assunto, enquanto ouvia a torneira da cozinha ligada. Tinha alguns instantes antes que Angela retornasse.
-- Contei que o investigador que me salvou não era leigo no assunto, sabia sobre a nossa família e o que a gente era. – A garota responde, fazendo Max suspirar. Já era informação demais.
-- Só isso?
-- Comentei que você investigava coisas estranhas, ajudava pessoas. Mas não comentei de você ser um berseker. Achei que podia ser errado falar sem sua permissão.
-- Eu não sou um berseker, mas fez bem. Você não pode falar sobre mim pra ninguém, Annie. Isso é importante. Para todos os efeitos, eu te encontrei quando estava perdida e fiquei com sua irmã. Só. Sou um estranho, ok?
-- Tá, mas por que isso?
-- Existem pessoas perigosas por aí. Podem prejudicar vocês, se acharem que isso me prejudicaria.
-- Tá... – Ela diz, após encará-lo por um tempo e então desviar os olhos. – A gente não vai comentar nada sobre você.
-- Desculpe por isso.
-- Tanto faz...
-- Você contou a sua tia o que você fez?
-- Contei. Ela disse que eu preciso voltar pra aprender melhor a controlar os rituais, pra não causar problemas de novo. Vamos resolver isso nas férias de verão.
-- Você sabe o que fez, Annie? – Max diz, após suspirar por ouvir o que ela dizia.
-- Claro que sei! – Ela responde, nervosa. – Eu causei a morte deles! Eu não queria isso... Tenho pesadelos com aquela boneca...
-- Isso é bom. Quer dizer que você ainda se importa. O que vai fazer a respeito? Voltar a fazer esse tipo de coisa? Porque eu não acho que seja esse o caminho, Annie.
-- Os rituais não servem só pra causar desgraça, Max. Você não entende sobre isso. O que eu ia fazer era uma proteção, não devia fazer mal a ninguém.
-- Mas fez. Isso é o que importa. De boas intenções, o inferno está cheio, Annie. Não é o que você quer, mas o que você faz que importa.
-- O que você quer que eu faça? Eu não posso trazer eles de volta! – Ela diz, quase chorando, no limite do controle de sua voz.
-- Desculpe... – Max diz, tocando-lhe os braços e se mostrando disponível para um abraço. – Eu estou preocupado com você, só isso.
-- Cala a boca, você só sabe me criticar, me criticar! – Ela diz, com os olhos marejados, fungando. – Nós não pedimos pra nascer assim! A gente faz o que pode pra se ajudar!
-- Eu sei, desculpa... Eu não queria te magoar, eu só... quero te ajudar. Posso sugerir uma coisa?
-- O quê? – Perguntou, ainda irritada.
-- Você sabe o que eu cobrei da sua irmã pelo meu trabalho?
-- Ela me contou. Ajudar alguém.
-- Que tal se você fizesse o mesmo? Você cometeu um grave erro e causou muito sofrimento. Por que não tenta aplacar o sofrimento alheio? Aposto que te faria se sentir melhor consigo mesma. Você não pode desfazer o que fez, mas pode escolher fazer algo melhor.
-- Eu já vou fazer isso, seu idiota. – Ela diz, limpando o rosto. – Não preciso que fique fazendo eu me sentir pior.
-- Se sentiria melhor se me desse um soco por eu ser um idiota? – Ele diz, rindo sem graça.
-- Quero te dar um monte de socos...
-- Ei, vamos tentar chegar em um acordo aqui, ok? Acho que dois já está de bom tamanho. – Max sorri, ainda meio triste por ela. Annie bate um punho em seu peito.
-- Por me fazer sentir pior. – Então bate com o outro punho. – E... por ir embora.
-- Droga, agora acho que eu merecia mais desses. – Max diz, abraçando-a.
-- Droga... Agora vou chorar.
-- Podemos nos falar por mensagens de vez em quando, o que acha? Eu te conto algumas estranhezas que eu encontrar.
-- É alguma coisa... – Ela diz, meio triste, se levantando e indo pro quarto.
Pouco depois, Angela volta da cozinha, seguindo pro quarto. Max se levanta do sofá e vai até o quarto de Annie, onde bate na porta. A garota o atende, vestida de pijama.
-- Hey...
-- Hmm?
-- Você vai ficar bem? Não queria ir embora te deixando mal.
-- Eu vou ficar bem. – Ela respondeu com um meio sorriso.
-- Vou mandar entregar aqueles chocolates, ok? – Max sorri, tentando animá-la.
-- Acho bom mesmo. – Annie corresponde o sorriso.
-- Posso te pedir uma coisa? – Ele coça a nunca, meio sem graça.
-- O que?
-- É só que... Você tem... fones de ouvido aí? – Max pergunta, evitando o contato visual. Annie pisca lentamente os olhos e desvia o olhar também.
-- O-ok... entendi.
Annie fecha a porta e Max vai até o quarto de Angela, que terminava de arrumar a cama.
-- É uma boa garota. – Ele diz, apontando pra trás com o polegar, indicando Annie no quarto. – Se perdê-la de novo, me chame.
-- Ela está triste?
-- Um pouco. Arrume um cachorro pra ela chamar de “pulguento” e ficará bem.
-- Quando nos mudarmos pra uma casa, talvez. Provavelmente, só depois de irmos pra Irlanda.
-- Vão pra lá no verão?
-- Uhum, Casey me convenceu a ir visita-la para fazermos as pazes.
-- Hmm... entendo. – Max diz, tentando disfarçar a preocupação. Acreditava que a tia das irmãs Bloom era um tipo de feiticeira perigosa. Talvez até uma criatura sobrenatural, semelhante às Leanan Sidhe. Diferente de Angela, ela certamente teria mais experiência e controle sobre as habilidades que herdara. Provavelmente conseguia influenciar a vontade das pessoas através de sua beleza e magnetismo pessoal, além de conhecer perigosos ritos de poder e magia.
-- Max? O que foi? – Angela pergunta curiosa, ao notar o rosto pensativo dele.
-- Sabe...? – Ele diz, mudando o semblante e olhando-a de lado, maliciosamente. – Annie está usando fones de ouvido.
-- Oh... – Angela morde o lábio inferior. – Isso é muito errado...
-- Um errinho de despedida, pra você ter motivo pra reclamar de mim depois.
-- Despedida da despedida?
-- Chame como quiser. Você merece uma recompensa pelo bom trabalho feito hoje, no show. – Diz, se aproximando e levando a mão à cintura dela.
-- E você merece ser punido, por me deixar sozinha no camarim imaginando tigres te devorando. – Ela pousa as mãos no peito dele.
-- Espero que a noite dure o bastante pra toda essa recompensa e punição.
Os beijos de despedida talvez tivessem um sabor triste e desesperado de luta fútil contra a inevitabilidade do tempo chegando ao fim, mas a paixão ardente temperava melhor, e a noite foi longa. Max acorda com a luz do sol entrando pela janela e, antes de abrir os olhos, percebe que Angela não estava na cama. Ainda meio zonzo, esfrega as mãos nos olhos e no cabelo, se levantando e vestindo o que ainda tinha roupas depois do tigre destruir sua camiseta e jaqueta.
Saindo do quarto, ele sente o cheiro de panquecas vindo da cozinha, percebendo estar faminto e seguindo para lá. Ele encontra Angela junto ao fogão, com frutas cortadas, uma garrafa de melaço e pote de geleia no balcão da cozinha. Na mesa havia pratos, xícaras, café, leite, ovos, bacon e torradas. Ela cantarolava distraída, vestindo uma larga camiseta desbotada do Nirvana. Max se aproxima por trás, levando as mãos à cintura dela, e aproximando a boca do ouvido.
-- Se soubesse desse tratamento, teria dado o fora daquele hotel muito antes.
Angela sorri, se virando e dando-lhe um beijo na bochecha.
-- Minha comida não se compara a um serviço de quarto.
-- Não mesmo. Ela passa por cima do serviço de quarto como um rolo compressor.
Max se senta à mesa e começa a se servir, enquanto Angela colocava as panquecas num prato, colocando geleia e melaço, as frutas picadas e polvilhando com açúcar fino, para depois se juntar a ele na mesa.
-- Então, que horas pretende partir?
-- Assim que pegar minhas coisas no hotel. – Começa a comer, fechando os olhos para se concentrar no paladar. – Hmm...
-- Certo, eu te levo.
-- Obrigado.
Max continuava a comer vorazmente, sufocando a vontade que sentia de permanecer ali por mais tempo. Enquanto comiam, Annie chegou, ainda sonolenta e resmungando.
-- Bom dia, bruxinha! – Max cumprimentou, elevando a voz como se para ajuda-la a acordar.
-- Credo, você ainda tá aqui? – Ela disse, sorrindo ao ver Max.
-- Só vai se livrar de mim quando admitir que sou super legal.
-- Vai ficar preso pra sempre aqui. – Annie responde, se servindo, enquanto Max pensava que não seria uma prisão tão ruim.
Após o café da manhã, Annie lava os pratos, enquanto Max vai tomar um banho na companhia de Angela, que o ajuda a não molhar o curativo. A cada momento que passava, era mais difícil permanecer convicto de abandonar a presença das duas, especialmente quando pensava que a tia delas estava se aproximando. Max tentou não pensar muito nisso e apenas aproveitar rapidamente o banho.
-- Ei, vem aqui. – Disse, após saírem do banheiro, ainda nus no quarto.
-- Hm? – Angela se aproximou. Max levou a mão à cintura dela, enquanto pegava o celular da ruiva e estendia o braço para uma foto.
-- Achei que devia te dar uma foto também. – Ele diz, enquanto Angela sorri e faz pose ao lado dele.
-- Adorei. Vai ser uma ótima lembrança.
-- Então... posso ficar com aquela? – Ele pergunta, sorrindo e começando a se vestir.
-- Pensava em apagar? – Angela estranha, também se vestindo.
-- Não por conta própria, mas eu precisava perguntar. Afinal, é você nela. O risco é seu. Você teria de confiar em mim, ou então não considerar um risco. Quero dizer, você tem um quadro... revelador, exposto na sua sala. Fiquei em dúvida sobre sua relação com a modéstia. – Ele explica, rindo sem graça.
-- Bem, eu confio em você. E... eu não tenho vergonha do meu corpo, mas mantenho a modéstia que é usualmente esperada. O máximo que você poderia fazer é, o que? Passar pra alguém? Isso não é lá grande coisa. – Angela diz, desviando o olhar, com uma expressão que Max conseguia ler. Talvez ela já tivesse sido exposta, com fotos íntimas divulgadas ou outra coisa.
-- Eu jamais faria isso. Eu sequer mostraria pra alguém, quanto mais passa a foto. Isso... já aconteceu algo assim antes?
-- Você vai me achar muito vadia se eu contar algo relacionado a fotos minhas nua por aí?
-- Claro que não, Angie. – Max diz, sério.
-- Eu posei pra uma revista masculina, uma vez. – Ela diz, contorcendo a boca pro lado, arrependida.
-- Uou... Sério? Quero dizer, não me surpreende que tenham te encontrado.
-- Faz tempo, eu tinha uns 18 ou 19 anos. Foi loucura da época e até hoje eu pago o preço quando algum namorado descobre. Eu confio em você, por isso contei. Pode ficar com a foto. – Ela diz, dando um meio sorriso.
-- Por causa do ciúme, né? Escute, foi uma decisão sua e ninguém tem nada a ver com isso. E obrigado pela confiança. – Ele sorri, e ela se aproxima, dando-lhe um beijo e o abraçando. Ele a envolve com os braços e pergunta, rindo. – Acha que tem alguma chance de eu ver essas fotos?
-- Eu tenho um exemplar guardado... Quer mesmo?
-- Sério? – Pergunta surpreso. – Confesso que fiquei curioso, mas era brincadeira. Quero dizer... se você não se importar...
-- Eu acho besteira, sério mesmo. Pode ficar com ela. – Ela dá de ombros, indo até o guarda-roupas e pegando uma caixa de papelão cheia de papéis, de onde tira uma revista embrulhada em plástico. Max olhava a capa, enquanto ela ia até uma gaveta, pegando um embrulho e também entregando a ele. – Esse é de natal atrasado. Queria ter dado antes, mas foi bom ter esperado. Você tá precisando.
-- Como assim? – Max abre o embrulho, encontrando uma camiseta azul com o símbolo do Superman no peito.
-- Por ter sido nosso herói. Annie e eu concordamos que combinava com você.
-- Hahaha, puxa, obrigado. Nem imaginava. – Ele diz, vestindo a camiseta. – Caramba, eu não... Eu não comprei nada. Eu sabia, claro, do costume de se trocar presentes, mas nem pensei...
-- Relaxa, o importante é que você gostou.
-- Gostei mesmo. Sempre que olhar pra esse “S”, vou lembrar de Salem, e das pessoas maravilhosas que conheci aqui. – Ele sorri e ela retribui o sorriso, o olhando um pouco triste.
-- Bem... vamos?
-- Vamos. – O sorriso de Max também diminui com a chegada de sua partida. Ele apanha a revista. – Vou levar essa besteira pra ter o que fazer na viagem.
-- Considere outro presente. – Angela ri, e os dois saem do quarto.
Annie logo se junta aos dois e descem pelo elevador, entrando na camionete e seguindo até o hotel, onde pegou sua mala e fechou sua conta. Saíra mais caro do que havia previsto, pois não tinha planejado ficar até o final do ano, mas o trabalho de segurança lhe rendeu algum dinheiro, então não teve problemas.
Na estação de ônibus, a despedida foi triste. Apesar do pouco tempo que Max passara com as irmãs Bloom, sua presença ficara marcada profundamente. O investigador também ficara balançado, por mais que já estivesse acostumado com despedidas. Afinal, era aquilo que ele fazia: ajudava pessoas, às vezes as consolava, demonstrava uma profunda empatia, fazia todo o possível, e depois ia embora. Não podia formar laços verdadeiros. Não era seguro.
Ele abraçou Annie apertado e ela retribuiu, em silêncio. Em seguida, encarou Angela. Ela continuava lindíssima, mas seu olhar triste machucava. Max tinha um Geas. Um Juramento. Havia empenhado sua palavra e comprometido sua vida com o propósito sagrado de diminuir o sofrimento alheio. E agora, ali estava ele causando sofrimento. Além do que ele mesmo sentia, ainda era capaz de sentir a tristeza de Annie e principalmente a de Angela. Aquilo lhe apertava o coração ao ponto de doer.
-- Se você vier de novo em Salem, me ligue ou apareça lá no Molly Bloom´s. Vou ter sempre uma cerveja gelada e um sorriso caloroso pra te oferecer. - Angela disse, sorrindo, apesar dos olhos marejados.
-- Só vou se você cantar. - Max responde, fazendo-a rir.
-- Eu cantarei.
Os dois se abraçam forte, esfregando as mãos pelas costas um do outro, então se afastam apenas o bastante para se encararem. Max leva a mão ao rosto de Angela, acariciando-a, e então a beija. As lágrimas escorrem dos olhos dela, salgando o beijo, mas sem reduzir sua intensidade. Antes que terminasse naturalmente, Max o interrompe, soltando Angela e apanhando a mala, seguindo para o ônibus.
Ela quase prende a respiração, encarando-o sedenta por mais, insatisfeita com o beijo interrompido, mas se contenta em segurar os próprios braços, abraçando a si mesma enquanto o assistia partir. Os três acenam enquanto o ônibus parte, e as irmãs se abraçam enquanto retornam ao carro, na segurança de que ainda tinham uma à outra.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário
Conteúdo patrocinado




MensagemAssunto: Re: Salem Ao Cair da Noite   

Voltar ao Topo Ir em baixo
 
Salem Ao Cair da Noite
Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo 
Página 1 de 1
 Tópicos similares
-
» Minha filhotinha chora a noite...o que fazer?
» BOA NOITE AMIGOS. MARCELO GAIOLAS
» coleiro cantando a noite.
» o que fazer quando coleiro canta a noite mesmo no escuro
» E vdd que colocar canto a noite o coleiro pega mais rapido

Permissão deste fórum:Você não pode responder aos tópicos neste fórum
Ao Cair da Noite :: OFFTOPIC :: Contos & Fanfics-
Ir para: